— Fogos de arti ício — disse Hurin, balançando a cabeça em concordância. — Pelo que ouvi dizer, os Iluminadores construíram uma sala do capítulo aqui, como em Tanchico. Até que gostei de ver os fogos de artifício, da última vez que vim.
Rand sacudiu a cabeça. Ele nunca vira fogos de arti ício elaborados o bastante para exigir sequer um Iluminador. Ouvira dizer que eles só saíam de Tanchico para fazer exibições para governantes. Ele fora parar em um lugar estranho.
Ao chegarem ao alto portão quadrado da cidade, Tavolin ordenou que todos parassem e desmontou ao lado de um prédio baixo, feito de pedra, que ficava logo ao lado da entrada. As muralhas tinham seteiras em vez de janelas e uma porta pesada, trancada com barras de ferro.
— Um momento, milorde Rand — pediu o oficial. Jogando suas rédeas para um dos soldados, ele desapareceu no interior do edifício.
Com um olhar desconfiado para os soldados, montados com uma postura rígida em duas fileiras compridas, Rand se perguntou o que eles fariam caso ele, Loial e Hurin tentassem partir. Ele aproveitou a oportunidade para analisar a cidade diante de si.
A cidade de Cairhien era um contraste impressionante com o caos de Portão da Frente. As ruas eram amplas e pavimentadas, largas o bastante para fazer com que a quantidade de gente que passava por elas parecesse menor do que de fato era, e elas se cruzavam em ângulos retos. Assim como em Tremonsien, as colinas haviam sido escavadas para aplanar o terreno. Liteiras fechadas avançavam de forma decidida, algumas ostentando a bandeira de uma Casa, e carruagens percorriam as ruas lentamente. As pessoas andavam em silêncio, trajando roupas escuras, sem cores vivas, a não ser por faixas de tecido que, volta e meia, enfeitavam o peito de um casaco ou vestido. Quanto mais faixas, mais orgulhosa a pessoa andava, mas ninguém ria ou sequer esboçava um sorriso. Os prédios eram todos de pedra, com ornamentos em linhas retas e ângulos agudos. Não havia mascates nas ruas, e até mesmo as lojas pareciam mais quietas, ostentando apenas tabuletas pequenas, sem artigos expostos do lado de fora.
Ele podia ver as grandes torres com mais clareza, cercadas por andaimes feitos de varas amarradas umas às outras, onde trabalhadores subiam e desciam como um enxame de insetos, assentando novas camadas de pedras para deixar as torres ainda mais altas.
— As Torres Sem Fim de Cairhien — murmurou Loial, com certa tristeza. — Bem, um dia já foram altas o bastante para justi ficar esse nome. Quando os Aiel tomaram Cairhien, mais ou menos na época em que você nasceu, as torres foram incendiadas, racharam e desabaram. Não vejo nenhum Ogier entre os pedreiros. Nenhum Ogier gostaria de trabalhar aqui, pois os homens de Cairhien querem tudo do seu jeito, sem nenhum embelezamento, mas havia alguns Ogier quando eu vim, antes.
Tavolin saiu do edi ício, trazendo atrás de si outro oficial e dois escrivães. Um deles carregava um enorme livro-caixa com capa de madeira, o outro, uma bandeja com ferramentas para a escrita. A frente da cabeça do oficial estava raspada como a de Tavolin, embora a calvície parecesse ter-lhe roubado mais cabelos do que a navalha. Ambos os oficiais olharam de Rand para o baú escondido sob o cobertor listrado de Loial, então para Rand outra vez. Nenhum deles perguntou o que havia embaixo do cobertor. Tavolin olhara muitas vezes para o baú no caminho de Tremonsien, mas também não fizera perguntas. O homem calvo também olhou para a espada de Rand e comprimiu os lábios por um momento.
Tavolin apresentou o outro oficial como Asan Sandair, e anunciou em alto e bom som:
— Lorde Rand da Casa al’Thor, em Andor, e seu homem, de nome Hurin, acompanhados de Loial, Ogier do pouso Shangtai. — O escrivão que levava o livro-caixa o abriu em seus braços, e Sandair escreveu os nomes com uma letra arredondada.
— O senhor deve retornar a esta guarita a esta mesma hora amanhã, milorde — explicou Sandair, deixando que o segundo escrivão espalhasse o pó para secar a tinta —, e informar o nome da estalagem onde se hospedará.
Rand olhou para as ruas calmas de Cairhien, depois para a animação de Portão da Frente.
— Pode me dizer o nome de uma boa estalagem lá? — Ele gesticulou com a cabeça, indicando Portão da Frente.
Hurin fez um psst desesperado e se curvou para a frente.
— Não seria adequado, Lorde Rand — sussurrou. — Se o senhor ficar em Portão da Frente, sendo um Lorde e tudo o mais, eles terão certeza de que está tramando alguma coisa.
Rand percebeu que o farejador tinha razão. Sandair estava de queixo caído, Tavolin erguera as sobrancelhas com a pergunta, e ambos o olhavam fixamente. Ele queria lhes explicar que não estava jogando o Grande Jogo, mas em vez disso falou:
— Nos hospedaremos na cidade. Podemos ir agora?
— É claro, milorde Rand. — Sandair fez uma mesura. — Mas… a estalagem?
— Eu o informarei quando encontrarmos uma. — Rand fez Vermelho virar, então parou. O bilhete de Selene fez um ruído em seu bolso. — Preciso encontrar uma jovem de Cairhien. Lady Selene. Ela é da minha idade, e muito bonita. Não sei qual é sua Casa.
Sandair e Tavolin se entreolharam, e o primeiro respondeu:
— Investigarei, milorde. Talvez eu seja capaz de lhe dar uma resposta quando o senhor voltar, amanhã.
Rand assentiu e conduziu Loial e Hurin para dentro da cidade. Eles não atraíram muita atenção, embora houvesse poucos cavaleiros. Nem mesmo Loial atraiu muitos olhares. As pessoas pareciam quase ostentar indiferença.
— Será que eles vão interpretar mal — perguntou Rand, para Hurin — o fato de eu ter perguntado sobre Selene?
— Quem sabe, com essa gente de Cairhien, Lorde Rand? Eles parecem pensar que tudo tem a ver com Daes Dae’mar.
Rand deu de ombros. Sentia como se as pessoas o estivessem observando. Mal podia esperar para vestir um casaco bom e simples outra vez e parar de fingir ser o que não era.
Hurin conhecia diversas estalagens na cidade, embora tivesse ficado em Portão da Frente a maior parte do tempo que passou em Cairhien. O farejador os levou a uma estalagem chamada O Defensor da Muralha do Dragão, cuja placa exibia um homem com uma coroa segurando a espada junto à garganta de outro homem, mantendo-o deitado com o pé sobre seu peito. O sujeito caído tinha cabelos ruivos.
Um cavalariço apareceu para buscar os cavalos, lançando rápidos olhares para Rand e Loial quando pensou que não estava sendo observado. Rand disse a si mesmo para parar de pensar bobagens: nem todas as pessoas da cidade estavam jogando esse tal Jogo. E, se estivessem, ele não iria fazer parte daquilo.
O salão da estalagem era limpo e bem-arrumado, com as mesas dispostas com o mesmo rigor da cidade, e havia apenas alguns ocupantes. Eles olharam de relance para os recém-chegados, então voltaram imediatamente a olhar para suas canecas de vinho, mas Rand teve a sensação de que ainda estava sendo observado. Uma pequena fogueira ardia na grande lareira, embora o dia estivesse ficando quente.
O estalajadeiro era um homem gordo e lisonjeiro, e uma única faixa verde cruzava a frente de seu casaco cinza-escuro. Ele se assustou quando os viu, e Rand não ficou surpreso. Loial, carregando o baú oculto pelo cobertor listrado, precisou abaixar a cabeça para passar pela porta; Hurin estava sobrecarregado com todos os alforjes e sacos, e seu próprio casaco vermelho contrastava com as cores sombrias das roupas das pessoas nas mesas.
O estalajadeiro pegou o casaco e a espada de Rand, e seu sorriso lisonjeiro voltou. Ele se curvou, esfregando as mãos macias.
— Perdoe-me, milorde. Apenas por um instante o tomei por… Perdoe-me. Meu cérebro não é mais o que era. O senhor deseja um quarto, milorde? — Ele fez outra mesura, menos profunda, para Loial. — Meu nome é Cuale, milorde.