Ele achou que eu fosse um Aiel, pensou Rand, com amargura. Queria sair de Cairhien, mas aquele era o único lugar onde Ingtar poderia encontrá-los. E Selene dissera que esperaria por ele lá.
Levou um tempo para que os quartos ficassem prontos, e Cuale explicou com muitos sorrisos e mesuras que fora necessário mover uma cama para Loial. Rand queria que todos dividissem um quarto outra vez, mas entre os olhares escandalizados do estalajadeiro e a insistência de Hurin (“Precisamos mostrar a esses cairhienos que sabemos tanto quanto eles o que é certo, Lorde Rand.”) eles acabaram com dois, um apenas para ele, mas com uma porta comunicando os dois quartos.
Os quartos eram quase idênticos, mas um tinha duas camas, uma delas grande o bastante para acomodar um Ogier, e o outro tinha apenas uma cama dossel, do tamanho das outras duas juntas, com esteios quadrados maciços que quase tocavam o teto. A cadeira estofada de espaldar alto e o lavabo também eram quadrados e maciços, e o armário encostado na parede era esculpido em um estilo rígido e pesado, que fazia o objeto parecer pronto para cair em alguém. Havia duas janelas ao lado da cama que davam para a rua, dois andares abaixo.
Assim que o estalajadeiro saiu, Rand abriu a porta e deixou Loial e Hurin entrarem no aposento.
— Este lugar me dá nos nervos — falou. — Todos olham como se achassem que estamos tramando alguma coisa. Vou voltar para Portão da Frente, nem que seja por uma hora. Pelo menos lá as pessoas riem. Qual de vocês quer o primeiro turno para vigiar a Trombeta?
— Eu — ofereceu-se Loial, mais do que depressa. — Gostaria de um tempo para ler um pouco. E só porque não vi nenhum Ogier, não quer dizer que não tenha nenhum construtor do pouso Tsofu. Ele não ica longe da cidade.
— Achei que você fosse querer encontrar com eles.
— Ah… Não, Rand. Da última vez, eles já fizeram perguntas o bastante sobre eu estar viajando sozinho. Se tiveram alguma notícia do Pouso Shangtai… Bem, vou só descansar por aqui e ler, eu acho.
Rand sacudiu a cabeça. Ele sempre se esquecia de que Loial fugira de casa para ver o mundo.
— E quanto a você, Hurin? Em Portão da Frente há música e gente rindo. Aposto que lá ninguém joga Daes Dae’mar.
— Eu não estou tão certo disso, Lorde Rand. De qualquer modo, agradeço pelo convite, mas acho que não irei. Há tantas lutas… e mortes… em Portão da Frente que o lugar fede, se o senhor me entende. Não que eles fossem incomodar um lorde, é claro: os soldados cairiam em cima deles caso isso acontecesse. Mas, se o senhor não se importar, eu gostaria de beber alguma coisa no salão lá embaixo.
— Hurin, você não precisa da minha permissão para nada. Sabe disso.
— Como quiser, milorde. — O farejador fez uma pequena mesura.
Rand respirou fundo. Se não deixassem Cairhien logo, Hurin começaria a fazer profundas reverências a torto e a direito. E se Mat e Perrin vissem isso, nunca o deixariam esquecer.
— Espero que nada atrase Ingtar. Se ele não vier depressa, nós mesmos precisaremos levar a Trombeta de volta a Fal Dara. — Ele tocou o bilhete de Selene por fora do casaco. — Teremos que fazer isso. Loial, voltarei logo para que você possa ver um pouco da cidade.
— Prefiro não arriscar — respondeu Loial.
Hurin desceu com Rand. Assim que chegaram ao salão, Cuale fez uma reverência diante de Rand, estendendo uma bandeja em sua direção. Três pergaminhos dobrados e selados estavam sobre a bandeja. Rand os apanhou, já que aquela parecia ser a intenção do estalajadeiro. Eram pergaminhos de boa qualidade, suaves e macios ao toque. Caros.
— O que são? — perguntou.
Cuale fez outra mesura.
— Convites, milorde, é claro. De três das Casas nobres. Fez mais uma mesura e se afastou.
— Quem me mandaria convites? — Rand os segurou e virou. Nenhum dos homens sentados às mesas levantou a cabeça, mas ele tinha a sensação de estar sendo observado assim mesmo. Não reconheceu os selos. Nenhum deles tinha a lua crescente e as estrelas usadas por Selene. — Quem saberia que estou aqui?
— Todo mundo já deve saber a essa altura, Lorde Rand — respondeu Hurin, em voz baixa. Ele também parecia sentir os olhos vigilantes. — Os guardas no portão não iam ficar de boca fechada com um lorde estrangeiro chegando a Cairhien. O cavalariço, o estalajadeiro… todo mundo conta o que sabe para quem acha que vai beneficiá-los mais, milorde.
Fazendo uma careta, Rand deu dois passos e jogou os convites no fogo. Eles queimaram imediatamente.
— Eu não estou jogando Daes Dae’mar — disse, alto o bastante para todos ouvirem. Nem mesmo Cuale olhou para ele. — Não tenho nenhum interesse no seu Grande Jogo. Só estou aqui à espera de alguns amigos.
Hurin agarrou seu braço.
— Por favor, Lorde Rand. — Sua voz soava como um sussurro nervoso. — Por favor, não faça isso de novo.
— De novo? Você acha mesmo que vou receber outros convites?
— Tenho certeza. Luz, o senhor me lembrou de quando Teva ficou tão irritado com algumas vespas zumbindo perto de seu ouvido que deu um chute no vespeiro. O senhor deve ter acabado de convencer todo mundo nessa sala de que está profundamente envolvido no Jogo. Deve estar, na cabeça deles, para o senhor negar tão completamente o que está fazendo. Todo lorde e toda lady de Cairhien jogam. — O farejador olhou de soslaio para a lareira, onde os pergaminhos curvavam-se, enegrecidos pelas chamas, e fez uma careta. — E o senhor deve ter feito inimigos em três Casas. Não em grandes Casas, ou não teriam agido tão depressa, mas, mesmo assim, eles são nobres. Você precisa responder a todos os outros convites que receber, milorde. Recuse-os se quiser, mas saiba que eles buscarão significados para quais deles o senhor recusar. E quais o senhor aceitar. Naturalmente, se o senhor recusar todos, ou aceitar todos…
— Não farei parte disso — respondeu Rand, também em voz baixa. — Sairemos de Cairhien assim que pudermos. — Ele enfiou os punhos cerrados nos bolsos do casaco e sentiu o bilhete de Selene sendo amassado. Retirando-o do bolso, ajeitou-o na parte da frente de seu casaco. — Assim que pudermos — murmurou, guardando-o no bolso outra vez. — Vá tomar sua bebida, Hurin.
Ele saiu irritado, sem saber ao certo se estava bravo consigo mesmo, com Cairhien e seu Grande Jogo, com Selene, por ter desaparecido, ou com Moiraine. Ela é que havia começado aquilo tudo, roubando seus casacos e lhe dando as roupas de um lorde. Mesmo agora, que se considerava livre delas, uma Aes Sedai ainda conseguia interferir em sua vida. Isso sem sequer estar presente.
Voltou pelo mesmo portão pelo qual entrara na cidade, já que era o caminho que conhecia. Um homem parado em frente à casa da guarda percebeu que ele vinha — seu casaco de cores vivas o destacava dos cairhienos, assim como sua altura — e correu para dentro, mas Rand não reparou. Os risos e a música de Portão da Frente o atraíam.
Se seu casaco vermelho com bordados dourados o fazia se destacar do lado de dentro das muralhas, em Portão da Frente ele se encaixava muito bem. Muitos dos homens que caminhavam pelas ruas lotadas usavam os mesmos tons escuros que as pessoas da cidade, mas com a mesma frequência se viam casacos vermelhos, azuis, verdes ou dourados, alguns brilhantes o bastante para passarem por roupas de um Latoeiro. Um número maior ainda de mulheres usava vestidos bordados e lenços ou xales coloridos. A maioria das roupas era esfarrapada ou grande demais, como se tivessem sido feitas para outra pessoa. Mas, se alguns daqueles que as usavam reparavam em seu belo casaco, não pareciam achá-lo fora do normal.
Rand teve que dar passagem a outra procissão de marionetes gigantes. Enquanto os tamborileiros batiam seus tambores e dançavam, um Trolloc de focinho e presas de porco lutava com um homem com uma coroa na cabeça. Após algumas pancadas sem entusiasmo, a fera desabou, provocando risos e aplausos dos espectadores.