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Rand grunhiu. Eles não morrem tão fácil assim.

Olhou de relance para um dos prédios grandes e sem janelas, parando para olhar pela porta. Para sua surpresa, o edi ício parecia composto de um único salão, com a parte central a céu aberto e diversas varandas internas, com uma plataforma enorme em uma das extremidades. Ele nunca vira ou ouvira falar sobre algo parecido. As varandas e o chão estavam repletos de pessoas que assistiam a outras pessoas se exibirem sobre a plataforma. Ele deu uma espiadela ao passar por edifícios similares e viu malabaristas, músicos, toda sorte de equilibristas e até mesmo um menestrel, com seu manto de retalhos, declamando uma história de A Grande Caçada à Trombeta em Alto Canto.

Aquilo o fez pensar em Thom Merrilin, e Rand seguiu em frente, apressado. Lembranças de Thom eram sempre tristes. Thom fora um amigo. Um amigo que morrera por ele. Enquanto eu fugia e o deixava morrer.

Em outra das grandes estruturas, uma mulher trajando volumosos mantos brancos parecia fazer coisas desaparecerem de uma cesta e aparecerem em outra, para então desaparecerem de suas mãos em grandes nuvens de fumaça. A multidão que assistia àquele espetáculo soltava gritos de espanto.

— Dois cobres, meu bom Lorde — disse um homenzinho com aspecto de roedor que estava parado na porta. — Dois cobres para ver a Aes Sedai.

— Melhor não. — Rand olhou de relance para a mulher, uma última vez. Um pombo branco aparecera em suas mãos. Aes Sedai? — Não. — Fez uma pequena mesura para o homem com aspecto de roedor e se afastou.

Ele abria caminho por entre a multidão, pensando no que veria em seguida, quando uma voz grave, acompanhada pelo dedilhar de uma harpa, veio de uma porta sobre a qual havia uma placa com o símbolo de um malabarista.

— … frio sopra o vento que desce pelo Passo de Shara. Fria é a tumba sem lápide. Mas todos os anos, no Dia de Sol, sobre aquelas pedras empilhadas, aparece uma única rosa, ali colocada pela bela mão de Dunsinin, pois ela é fiel ao trato feito por Rogosh Olho-de-águia. Rand foi atraído para a voz como se tivesse sido puxado por uma corda invisível. Adentrou a porta enquanto os aplausos cresciam.

— Dois cobres, meu bom lorde — disse um homem com cara de rato, que podia muito bem ser gêmeo do outro. — Dois cobres para ver…

Rand tateou por algumas moedas e jogou-as para o homem. Ele entrou meio zonzo, encarando fixamente o homem que se curvava sobre a plataforma para receber os aplausos dos que o ouviram, segurando a harpa com um dos braços e abrindo bem o manto de retalhos com o outro, como se quisesse aprisionar todo o som que eles faziam. Era um homem alto, magro e não muito jovem, com bigodes compridos, tão brancos quanto os cabelos em sua cabeça. E, quando ele se endireitou e viu Rand, os olhos que se arregalaram eram vívidos e azuis.

— Thom. — O sussurro do rapaz se perdeu no ruído da multidão.

Mantendo seus olhos nos de Rand, Thom Merrilin acenou de leve com a cabeça, indicando uma portinha ao lado da plataforma. Então, fez mais uma mesura, sorrindo e se deliciando com os aplausos.

Rand foi até a porta e a atravessou. Era apenas um pequeno corredor com três degraus, que subiam até a plataforma. Na outra direção, pôde ver um malabarista praticando com bolas coloridas e seis equilibristas se preparando.

Thom apareceu nos degraus, mancando, como se sua perna direita não dobrasse tão bem como antes. Ele olhou para o malabarista e os equilibristas de soslaio, bufou com desdém e se virou para Rand.

— Tudo o que querem ouvir é A Grande Caçada à Trombeta . Seria de se esperar, com as notícias de Haddon Mirk e Saldaea, que um deles pedisse O Ciclo de Karaethon. Bem, talvez não isso, mas eu pagaria a mim mesmo só para poder contar outra coisa. — Ele olhou Rand de cima a baixo. — Você parece estar bem, rapaz. — Passou os dedos pelo colarinho de Rand e apertou os lábios. — Muito bem.

Rand não conseguiu conter o riso.

— Saí de Ponte Branca com a certeza de que você tinha morrido. Moiraine disse que você ainda estava vivo, mas eu… Luz, Thom, é bom ver você de novo! Eu deveria ter voltado para ajudá-lo.

— Teria sido uma tolice imensa, rapaz. Aquele Desvanecido… — Ele olhou ao redor; não havia ninguém por perto para ouvir, mas Thom abaixou a voz assim mesmo. — Aquele Desvanecido não estava interessado em mim. Ele me deixou essa perna de presente e saiu correndo atrás de você e de Mat. Tudo o que você poderia ter feito era morrer. — Ele fez uma pausa, com ar pensativo. — Moiraine disse que eu ainda estava vivo, é mesmo? Ela ainda está com vocês, então?

Rand negou com a cabeça. Para sua surpresa, Thom pareceu decepcionado.

— É uma pena, de certa forma. Ela é uma boa mulher, ainda que seja… — Ele não terminou a frase. — Então, ela estava atrás de Mat ou de Perrin. Não vou perguntar qual dos dois. Eram bons rapazes, e não quero saber. — Rand trocou de posição, desconfortável, e se assustou quando Thom o espetou com um dedo ossudo. — O que quero saber é: você ainda está com minha harpa e minha lauta? Eu as quero de volta, rapaz. As que eu tenho agora não são dignas nem de um porco.

— Ainda estou com elas, Thom. E vou trazê-las para você, juro. Não consigo acreditar que está vivo. E não consigo acreditar que não esteja em Illian. A Grande Caçada está partindo. Tem um prêmio para o melhor contador da Grande Caçada à Trombeta. Você estava louco para ir!

Thom fungou, desdenhoso.

— Depois de Ponte Branca? Era provável que eu morresse se chegasse lá. Mesmo que eu tivesse conseguido alcançar o barco antes que ele partisse, Domon e a tripulação espalhariam por toda Illian que eu estava sendo caçado por Trollocs. Se vissem o Desvanecido ou ouvissem falar nele antes de Domon cortar os cabos… a maioria dos illianenses acredita que Trollocs e Desvanecidos são lendas, mas há gente o bastante que iria querer saber por que um homem estava sendo perseguido por essas feras, o que tornaria Illian um tanto desconfortável.

— Thom, eu tenho muitas coisas para lhe contar.

O menestrel o interrompeu.

— Mais tarde, rapaz. — Ele e o homem de rosto ino que estava na porta, do outro lado do salão, entreolharam-se. — Se eu não voltar e contar outra história, aposto que ele vai mandar o malabarista, e aquela multidão vai botar o salão abaixo. Vá até a estalagem Cacho de Uvas, logo depois do Portão de Jangai. Eu aluguei um quarto lá. Qualquer um sabe dizer onde fica. Chego lá em mais ou menos uma hora. Eles vão ter que se dar por satisfeitos com só mais uma história. — Ele começou a subir os degraus outra vez e gritou por cima do ombro: — E leve minha harpa e minha flauta!

26

Discórdia

Rand disparou pelo salão da estalagem O Defensor da Muralha do Dragão e subiu as escadas depressa, abrindo um sorriso largo diante do olhar assustado do estalajadeiro. Queria sorrir para tudo e para todos. Thom está vivo!

Escancarou a porta do quarto e foi direto ao guarda-roupa.

Loial e Hurin abriram a porta que comunicava os quartos e enfiaram as cabeças para dentro do aposento, ambos já sem os casacos de viagem e com cachimbos na boca, soltando fumaça.

— Aconteceu alguma coisa, Lorde Rand? — perguntou Hurin, ansioso.

Rand pegou o manto embrulhado de Thom e pôs sobre o ombro.

— A melhor coisa que poderia acontecer, tirando a chegada de Ingtar. Thom Merrilin está vivo. E está aqui, em Cairhien.

— O menestrel de quem você me falou? — perguntou Loial. — Isso é maravilhoso, Rand! Eu gostaria de conhecê-lo.

— Então venha comigo, se Hurin estiver disposto a ficar de guarda por um tempo.

— Seria um prazer, Lorde Rand. — Hurin tirou o cachimbo da boca. — Aquele pessoal no salão ficou tentando me fazer falar, mas sem que eu percebesse o que estavam fazendo, é claro. Queriam saber quem era você, milorde, e o que estamos fazendo em Cairhien. Eu disse que viemos encontrar alguns amigos, mas, como bons cairhienos, eles concluíram que eu estava escondendo uma informação mais importante.