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— Deixe que pensem o que quiserem. Vamos, Loial.

— Acho que não. — suspirou o Ogier. — Eu realmente pre iro ficar por aqui. — Ele ergueu um livro com a página marcada por um dos dedos grossos. — Posso conhecer Thom Merrilin alguma outra hora.

— Loial, você não pode ficar trancado aqui em cima para sempre. Nós nem sabemos quanto tempo vamos ter que passar em Cairhien. De qualquer jeito, não vimos nenhum Ogier. E se virmos, eles não estariam caçando você, estariam?

— Não estariam bem me caçando, mas… Rand, posso ter sido muito precipitado em deixar o Pouso Shangtai do jeito que o fiz. Quando voltar para casa, eu talvez tenha muitos problemas. — Suas orelhas abaixaram, desanimadas. — Mesmo que eu espere até ficar tão velho quanto o Ancião Haman. Talvez eu consiga encontrar um pouso abandonado para morar, até lá.

— Se o Ancião Haman não o deixar voltar, você pode viver em Campo de Emond. É um lugar bem bonito. — Um lugar lindo.

— Tenho certeza de que é, Rand, mas não seria possível. Sabe…

— Falaremos disso quando chegar a hora, Loial. Agora estamos indo ver Thom.

O Ogier tinha quase o dobro de seu tamanho, mas Rand o forçou a vestir a longa túnica e descer a escada. Quando atravessaram o salão a passos largos, Rand piscou para o estalajadeiro, então riu de seu olhar assustado. Ele que pense que estou indo jogar esse maldito Grande Jogo. Ele que pense o que quiser. Thom está vivo.

Depois de passarem pelo Portão de Jangai, na muralha leste da cidade, parecia que todos conheciam a Cacho de Uvas. Rand e Loial logo se viram diante dela, em uma rua calma para os padrões de Portão da Frente, com o sol a meio caminho de se pôr.

Era uma velha estrutura de três andares, feita de madeira e de aparência instável, mas o salão era limpo e estava cheio. Alguns homens jogavam dados em um canto, e algumas mulheres jogavam dardos em outro. Metade das pessoas parecia ser de Cairhien, magras e pálidas, mas Rand também ouviu sotaques andorianos, além de outros desconhecidos. Todos usavam roupas típicas de Portão da Frente, uma mistura de estilos de diferentes terras. Alguns se viraram para olhar quando Rand e Loial entraram, mas todos logo retomaram o que estavam fazendo.

A estalajadeira tinha um cabelo tão branco quanto o de Thom, e seus olhos aguçados pararam para analisar tanto Loial quanto Rand. Não era cairhiena, a julgar pela pele escura e pelo sotaque.

— Thom Merrilin? É, ele alugou um quarto. Subindo a escada, a primeira porta à direita. Dana deve deixar vocês esperarem por ele lá. — Ela olhou para a espada e para o casaco vermelho de Rand, com as garças bordadas no colarinho alto e os espinheiros dourados bordados nas mangas. — Milorde!

A escada rangeu sob as botas de Rand, e fez ainda mais barulho sob as de Loial. O rapaz não sabia dizer por quanto tempo mais o prédio aguentaria. Ele encontrou a porta e bateu, perguntando-se quem seria Dana.

— Entre! — gritou uma voz de mulher. — Não posso abrir para você.

Rand abriu a porta, hesitante, e pôs apenas a cabeça para dentro. Havia uma grande cama desarrumada junto a uma parede, e o restante do quarto estava quase todo ocupado por um par de guarda-roupas, vários baús fechados com tiras e pregaria de latão, uma mesa e duas cadeiras de madeira. A mulher esguia, sentada de pernas cruzadas na cama com a saia presa embaixo do corpo, mantinha seis bolas coloridas girando em um círculo entre as mãos.

— O que quer que seja — disse ela, prestando atenção ao malabarismo que fazia —, deixe aí na mesa. Thom vai pagar quando voltar.

— Você é Dena? — perguntou Rand.

Ela recolheu as bolas ainda no ar e se virou para olhar Rand. Era apenas alguns anos mais velha que ele, e bonita, com a pele alva dos cairhienos e cabelos escuros soltos na altura dos ombros.

— Não conheço você. Este quarto é meu. Meu e de Thom Merrilin.

— A estalajadeira disse que talvez você nos deixasse esperar por Thom aqui — explicou Rand. — Se você for a tal Dena…

— Nos deixar? — Rand entrou no quarto para que Loial pudesse passar abaixado pela porta, e as sobrancelhas dela se ergueram. — Então os Ogier voltaram. Eu sou Dena. O que vocês querem? — Ela olhou para o casaco de Rand de forma tão deliberada que o fato de não tratá-lo como “milorde” tinha de ser proposital, embora suas sobrancelhas tenham se erguido outra vez, ao reparar nas garças da bainha e do cabo da espada.

Rand ergueu o embrulho que carregava.

— Vim devolver a harpa e a lauta de Thom. E quero conversar com ele — acrescentou mais do que depressa, pois ela parecia prestes a dizer para deixá-las ali e partir. — Não o vejo há muito tempo.

Ela fitou o embrulho.

— Thom vive resmungando sobre ter perdido a melhor lauta e a melhor harpa que já teve. Dá para pensar que ele era bardo de alguma corte pelo jeito que fala. Muito bem. Vocês podem esperar, mas eu preciso praticar. Thom disse que vai deixar eu me apresentar nos salões na semana que vem. — Ela se levantou com graça e sentou-se em uma das cadeiras, gesticulando para que Loial se sentasse na cama. — Zera faria Thom pagar por seis cadeiras se você quebrasse uma dessas, amigo Ogier.

Rand lhes disse seus nomes ao sentar na outra cadeira, que rangeu de forma preocupante, mesmo sob seu peso, e perguntou, em dúvida:

— Você é aprendiz dele?

Dena deu um sorrisinho.

— Pode-se dizer que sim. — Ela voltara a praticar malabarismo, e sua atenção estava nas bolas no ar.

— Nunca ouvi falar de menestréis mulheres — comentou Loial.

— Serei a primeira. — O grande círculo se dividiu em dois círculos menores, sobrepostos. — Verei o mundo inteiro antes de me aposentar. Thom diz que, quando tivermos dinheiro o bastante, iremos até Tear. — Ela passou a jogar três bolas com cada mão. — E, de lá, talvez sigamos para as ilhas do Povo do Mar. Os Atha’an Miere pagam bem aos menestréis.

Rand examinou o aposento, com todos aqueles baús e malas. Não parecia o quarto de alguém que pretendesse partir tão cedo. Havia até mesmo uma flor em um vaso na janela. Ele fitou a grande cama solitária, onde Loial estava sentado. Este quarto é meu. Meu e de Thom Merrilin. Dena lhe lançou um olhar de desafio por entre o grande círculo que voltara a fazer. Rand enrubesceu.

Ele pigarreou.

— Talvez seja melhor esperarmos lá embaixo — começou a dizer, quando a porta se abriu e Thom entrou, com o manto de retalhos que ia até os tornozelos balançando atrás dele. Os estojos de uma lauta e uma harpa estavam pendurados às costas. Eram de madeira avermelhada, polida pelo manuseio.

Dena fez as bolas desaparecerem em seu vestido e correu para abraçar Thom, ficando na ponta dos pés.

— Senti sua falta — disse, e o beijou.

O beijo durou um bom tempo, tão longo que Rand começou a se perguntar se ele e Loial deveriam sair, mas Dena soltou um suspiro e fez seus calcanhares voltarem ao chão.

— Você sabe o que aquele idiota do Seaghan fez dessa vez, menina? — perguntou Thom, olhando para ela. — Contratou um bando de patetas que se autointitulam “intérpretes”. Eles andam por aí fingindo ser Rogosh Olho-de-águia, Blaes, Gaidal Cain e… Aaagh! Penduram um pedaço de pano pintado atrás de si, que devia ter o objetivo de fazer o público acreditar que aqueles tolos estão no Salão de Matuchin, ou nos altos passos das Montanhas de Dhoom. Eu faço quem me ouve ver cada estandarte, sentir o cheiro de cada batalha, sentir cada emoção. Eu os faço acreditar que são Gaidal Cain. Seaghan vai ver a casa cair em seus ouvidos se colocar esse pessoal atrás de mim.

— Thom, nós temos visita. Loial, filho de Arent, filho de Halan. Ah, e um rapaz que diz se chamar Rand al’Thor.