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— Aquele jogo de dados no salão parecia interessante. Talvez me deixem jogar.

Thom olhou desconfiado para Rand quando a porta se fechou atrás dele.

Rand hesitou. Havia coisas que ele precisava saber, coisas que tinha certeza de que Thom sabia… O menestrel parecia saber muito sobre uma quantidade surpreendente de coisas, mas Rand não sabia bem como perguntar.

— Thom — começou, por fim —, existem livros com O Ciclo de Karaethon? — Era mais fácil chamá-lo assim do que “As Profecias do Dragão”.

— Sim, nas grandes bibliotecas — respondeu Thom, sem pressa. — Diversas traduções, e até mesmo na Língua Antiga, aqui e ali. — Rand começou a perguntar se havia algum meio de encontrar um desses livros, mas o menestrel continuou. — A Língua Antiga tinha musicalidade, mas muitos, mesmo entre os nobres, não têm paciência para ouvi-la hoje em dia. Era de se esperar que os nobres soubessem a língua antiga, mas muitos aprendem apenas o suficiente para impressionar os que não sabem. As traduções não têm a mesma sonoridade, a menos que sejam em Alto Canto, o que às vezes muda os significados ainda mais que as traduções comuns. Há um verso no ciclo… Não ica bom traduzido palavra por palavra, mas assim não se perde o sentido. Ele é assim: “Por duas e mais duas vezes ele será marcado, duas vezes para viver e duas vezes para morrer. Uma vez a garça, para traçar seu caminho. Duas vezes a garça, para proclamá-lo verdadeiro. Uma vez o Dragão, atrás da memória perdida. Duas vezes o Dragão, cobrar o preço a ser pago.”

Ele esticou a mão para tocar as garças bordadas no colarinho alto de Rand.

Por um momento, Rand pôde apenas olhar, boquiaberto. Quando conseguiu falar, sua voz soou vacilante.

— Com a espada, são cinco. Cabo, bainha e lâmina. — Ele virou a mão para que a palma ficasse na mesa, escondendo a marca. Pela primeira vez desde que o unguento de Selene fizera efeito, ele podia senti-la. Não doía, mas ele sabia que estava lá.

— Parece que são. — Thom deixou escapar uma risada. — Tem outro trecho que me vem à mente.

O dia raia duas vezes quando seu sangue é derramado.

Uma para o luto e outra para o nascimento.

Vermelho no preto, o sangue do Dragão mancha a rocha de Shayol Ghul.

No Poço da Perdição seu sangue libertará os homens da Sombra. Rand sacudiu a cabeça em negação, mas Thom pareceu não notar.

— Não vejo como um dia pode raiar duas vezes, mas, até aí, boa parte disso não faz o menor sentido, mesmo. A Pedra de Tear não cairá até que Callandor seja empunhada pelo Dragão Renascido, mas a Espada que Não Pode Ser Tocada jaz no Coração da Pedra. Então como ele pode empunhá-la primeiro, hein? Bem, seja como for, suspeito que as Aes Sedai querem fazer com que os eventos se encaixem nas Profecias do modo mais próximo que conseguirem. Morrer em algum lugar das Terras Devastadas seria um preço alto a se pagar por colaborar com elas.

Rand teve que fazer muito esforço para manter a voz controlada, mas conseguiu.

— Nenhuma Aes Sedai está me usando para nada. Eu lhe disse que a última vez em que vi Moiraine foi em Shienar. Ela falou que eu podia ir para onde quisesse, e fui embora.

— E não há nenhuma Aes Sedai com você, agora? Nem umazinha?

— Nenhuma.

Thom cofiou seu bigode branco com os nós dos dedos. Ele pareceu satisfeito, mas, ao mesmo tempo, intrigado.

— Então por que perguntar sobre as Profecias? Por que mandar o Ogier sair do quarto?

— Eu… não queria aborrecê-lo. Ele já está nervoso o bastante com essa história da Trombeta. É algo que eu queria perguntar. A Trombeta é mencionada nas… nas Profecias? — Ele ainda não conseguia se forçar a falar tudo de uma vez. — Todos esses falsos Dragões, e agora a Trombeta é encontrada. Todos acham que a Trombeta de Valere deveria chamar os heróis mortos para enfrentar o Tenebroso na Última Batalha, e o… o Dragão Renascido deve enfrentar o Tenebroso na Última Batalha. Pareceu natural perguntar.

— Acho que é natural, sim. Não são muitos que sabem sobre o Dragão Renascido lutar a Última Batalha, ou, se sabem, acham que ele vai lutar ao lado do Tenebroso. Não são muitos os que leram as profecias para descobrir. O que foi que você disse sobre a Trombeta? “Deveria”?

— Aprendi algumas coisas desde que nos separamos, Thom. Eles virão para qualquer um que toque a Trombeta, mesmo um Amigo das Trevas.

As sobrancelhas espessas se ergueram quase até o alto da testa de Thom.

— Dessa, eu não sabia. Você aprendeu algumas coisas.

— Isso não signi ica que eu deixaria a Torre Branca me usar como um falso Dragão. Não quero nada com as Aes Sedai nem com falsos Dragões. Nem com o Poder, nem… — Rand mordeu a língua. É só ficar irritado que você começa a falar demais, seu idiota!

— Por um tempo, garoto, achei que você fosse o rapaz que Moiraine queria, e até achei que sabia o porquê. Sabe, nenhum homem escolhe canalizar o Poder. É algo que acontece, como uma doença. Você não pode culpar um homem por ficar doente, mesmo que você possa morrer junto.

— Seu sobrinho podia canalizar, não podia? Você me disse que foi por isso que nos ajudou, porque seu sobrinho teve problemas com a Torre Branca e não havia ninguém para ajudá-lo. Só há um tipo de problema que homens podem ter com as Aes Sedai.

Thom estudou o tampo da mesa, apertando os lábios.

— Não acho que adianta negar. Você entende que não é o tipo de coisa sobre a qual um homem fala, ter um parente que podia canalizar. Aaagh! A Ajah Vermelha não deu sequer uma chance a Owyn. Elas o amansaram, e ele morreu. Ele simplesmente desistiu de viver. — O menestrel suspirou com pesar.

Rand estremeceu. Por que Moiraine não fez isso comigo?

— Uma chance, Thom? Quer dizer que havia algum jeito de ele lidar com isso? Sem enlouquecer? Nem morrer?

— Owyn resistiu por quase três anos. Ele nunca machucou ninguém. Não usava o Poder a menos que precisasse, e o fazia apenas para ajudar sua aldeia. Ele… — Thom jogou as mãos para o alto. — Acho que não havia escolha. As pessoas de onde ele morava me disseram que ele estava agindo de forma estranha durante o último ano. Eles não queriam falar muito sobre o assunto e quase me apedrejaram quando descobriram que eu era tio dele. Acho que ele estava ficando louco. Mas era do meu sangue, garoto. Não posso amar as Aes Sedai pelo que fizeram com ele, mesmo que tenha sido necessário. Se Moiraine o deixou partir, então você está a salvo disso.

Por um momento, Rand ficou em silêncio. Idiota! Claro que não há como lidar com isso. Você vai ficar louco e morrer, não importa o que faça. Mas Ba’alzamon disse…

— Não! — Ele corou ao se ver sob o escrutínio de Thom. — Quer dizer, estou a salvo disso, Thom. Mas ainda estou com a Trombeta de Valere. Pense nisso, Thom. A Trombeta de Valere. Outros menestréis podem contar histórias sobre ela, mas você pode dizer que a teve nas mãos. — Ele percebeu que soava como Selene, mas aquilo apenas o fez se perguntar onde ela estava. — Na minha opinião, não há ninguém melhor para seguir conosco agora, Thom.

Thom franziu a testa, como se estivesse pensando no assunto, mas no fim sacudiu a cabeça com firmeza.

— Garoto, gosto bastante de você, mas você sabe tão bem quanto eu que só ajudei antes porque havia uma Aes Sedai na história. Seaghan não tenta me passar para trás mais do que o esperado, e, somando a Dádiva do Rei, eu sei que não ganharia tanto nas aldeias. Para minha enorme surpresa, Dena parece me amar, e, o que é igualmente surpreendente, eu correspondo o sentimento. Agora, por que eu iria largar isso tudo para ser perseguido por Trollocs e Amigos das Trevas? Pela Trombeta de Valere? Ah, é uma tentação, vou admitir, mas não. Não vou me envolver nisso outra vez.

Ele se curvou para pegar um dos estojos de madeira dos instrumentos, longo e ino. Quando o abriu, Rand viu que dentro havia uma lauta de confecção simples, mas com detalhes em prata. O menestrel fechou o estojo e o empurrou pela mesa.