— Você pode precisar ganhar seu pão de novo algum dia, garoto.
— Posso, de fato — concordou Rand. — Pelo menos podemos conversar. Estarei na…
O menestrel estava sacudindo a cabeça.
— É melhor nos separarmos completamente, garoto. Se você sempre estiver por perto, mesmo que não a mencione, eu não vou conseguir tirar a Trombeta da cabeça. E não vou me envolver nisso. Não vou.
Depois que Rand saiu, Thom jogou o manto na cama e apoiou os cotovelos na mesa. A Trombeta de Valere. Como foi que esse camponês encontrou… Ele interrompeu a linha de raciocínio. Se pensasse na Trombeta por muito tempo, acabaria fugindo com Rand para levá-la a Shienar. Isso daria uma boa história, levar a Trombeta de Valere até as Terras da Fronteira, com Trollocs e Amigos das Trevas em seu encalço. Fazendo uma careta, ele se obrigou a pensar em Dena. Mesmo que ela não o amasse, um talento como aquele não se encontrava todo dia. E ela o amava, mesmo que ele não conseguisse imaginar por quê.
— Velho idiota — resmungou.
— Isso mesmo, um velho idiota — respondeu Zera, da porta. Ele levou um susto: estivera tão absorto em seus pensamentos que não ouvira a porta se abrir. Conhecia Zera havia muitos anos, no ir e vir de suas andanças, e ela sempre se aproveitara da amizade para falar o que pensava. — Um velho idiota, que está jogando o Jogo das Casas outra vez. A menos que meus ouvidos se enganem, esse jovem lorde tem o sotaque de Andor. Ele não é cairhieno, mas não é mesmo. Daes Dae’mar já é perigoso o bastante sem deixar um lorde estrangeiro meter você nos esquemas dele.
Thom piscou, e então parou para pensar na aparência de Rand. Aquele casaco decerto era sofisticado o bastante para um lorde. Estava ficando velho, deixando coisas como aquela passarem despercebidas. Com amargura, percebeu que estava pensando se contava a verdade a Zera ou se a deixava continuar ponderando sobre aquilo. Basta pensar no Grande Jogo, e eu já começo a jogá-lo.
— O garoto é um pastor, Zera, de Dois Rios.
Ela riu com desdém.
— É, e eu sou a Rainha de Ghealdan. Estou falando. O Jogo ficou mais perigoso em Cairhien, nesses últimos anos. Não é o que você conheceu em Caemlyn. Agora tem assassinatos. Você vai acabar com a garganta cortada se não se cuidar.
— Já lhe disse, não estou mais no Grande Jogo. Isso ficou para trás, há uns vinte anos.
— Claro. — Ela não parecia acreditar. — Mas, seja como for, e deixando de lado o jovem lorde, você começou a se apresentar nas mansões dos nobres.
— Eles pagam bem.
— E você vai ser arrastado para as tramas deles assim que acharem um jeito. Eles veem um homem e pensam em como usá-lo, para eles é natural como respirar. Esse seu jovem lorde não vai ajudar, eles vão comer o garoto vivo.
Ele desistiu de tentar convencê-la de que estava fora daquilo.
— Você subiu aqui para dizer isso, Zera?
— Foi. Esqueça o Grande Jogo, Thom. Case-se com Dena. Aquela boba vai aceitá-lo, mesmo magricela e grisalho desse jeito. Case-se com ela e esqueça esse jovem lorde e o Daes Dae’mar.
— Agradeço o conselho — respondeu, seco. Casar-se com ela? Dar a ela o fardo de um marido velho. Ela nunca será barda com meu passado pesando sobre sua cabeça. — Se não se importar, Zera, quero ficar sozinho por um tempo. Vou me apresentar para Lady Arilyn e seus convidados hoje à noite, preciso me preparar.
Ela bufou, sacudiu a cabeça e bateu a porta ao sair.
Thom tamborilou no tampo da mesa. Com casaco ino ou não, Rand ainda era apenas um pastor. Se fosse mais que isso, se fosse aquilo que Thom suspeitara, um homem capaz de canalizar, nem Moiraine e nem qualquer outra Aes Sedai o deixaria partir sem amansá-lo. Com ou sem a Trombeta, o garoto ainda era apenas um pastor.
— Ele está fora disso — disse, em voz alta —, e eu também.
27
A Sombra na Noite
— Não entendo — exclamou Loial. — Eu estava vencendo quase todas as partidas. Então Dena chegou, entrou no jogo e ganhou tudo de volta. Cada lance. E disse que aquilo era uma pequena lição. O que ela quis dizer com isso?
Rand e o Ogier estavam a caminho de Portão da Frente, deixando para trás a estalagem Cacho de Uvas. O sol estava baixo no oeste, uma bola vermelha metade abaixo do horizonte, projetando longas sombras atrás deles. A rua estava vazia, exceto por uma das marionetes gigantes, um Trolloc com chifres de bode e espada no cinturão, que se aproximava deles, manejado por cinco homens. Mas os sons da diversão ainda vinham de outras partes da cidade, dos salões de entretenimento e tavernas. Ali, as portas já estavam trancadas, e as janelas, fechadas.
Rand parou de mexer no estojo de madeira da lauta e o pendurou no ombro. Acho que eu não podia esperar que ele fosse largar tudo para vir comigo, mas pelo menos ele podia falar comigo. Luz, queria que Ingtar aparecesse. Ele pôs as mãos nos bolsos e sentiu o bilhete de Selene.
— Você não acha que ela… — Loial fez uma pausa, desconfortável. — Você não acha que ela trapaceou, acha? Todos estavam sorrindo como se ela estivesse sendo esperta.
Rand deu de ombros sob o manto. Preciso pegar a Trombeta e sair daqui. Se esperarmos Ingtar, qualquer coisa pode acontecer. Fain virá, mais cedo ou mais tarde. Preciso continuar à frente dele. Os homens com a marionete estavam quase os alcançando.
— Rand — disse Loial, de repente —, não acho que aquilo seja um…
De repente, os homens deixaram as varas caírem no chão de terra batida. Por re flexo, Rand desembainhou a espada, brandindo-a em um arco. Lua Sobre os Lagos. O Trolloc cambaleou para trás com um grito gorgolejante, rosnando mesmo enquanto caía.
Por um instante, todos congelaram. Então os homens, que só podiam ser os Amigos das Trevas, olharam do Trolloc que jazia no chão para Rand, com a espada na mão e Loial ao lado. Deram meia-volta e saíram correndo.
Rand também olhava fixamente para o Trolloc. O vazio o envolvera antes mesmo de sua mão tocar o cabo da espada. Saidin brilhava em sua mente, nauseante, chamando-o. Com esforço, o rapaz fez o vazio desaparecer e umedeceu os lábios. Sem o vazio, o medo lhe deu calafrios.
— Loial, precisamos voltar à estalagem. Hurin está sozinho, e eles… — Gemeu ao ser erguido no ar por um braço longo o suficiente para imobilizar os seus junto ao peito. Uma mão peluda envolveu sua garganta. Rand teve o vislumbre de um focinho com longas presas logo acima de sua cabeça. Um cheiro rançoso, que lembrava suor azedo e chiqueiro, encheu seu nariz.
Tão depressa quanto o agarrara, a mão em seu pescoço foi obrigada a soltá-lo. Rand olhou fixamente para os grossos dedos do Ogier, que seguravam o pulso do Trolloc.
— Aguente firme, Rand. — Loial parecia estar fazendo muita força. Com a outra mão, o Ogier segurou o braço que mantinha Rand fora do chão. — Aguente firme.
Rand foi sacudido de um lado a outro com os movimentos bruscos da briga do Ogier e do Trolloc. De repente, foi solto. Cambaleante, deu dois passos para longe da confusão e se virou, espada em punho.
Ofegante por conta do esforço, Loial, parado atrás do Trolloc com focinho de javali, segurava-o pelo pulso e antebraço, mantendo-o de braço abertos. A besta soltou um rosnado na língua rude dos Trollocs, jogando a cabeça para trás na esperança de acertar Loial com uma presa. As botas dos dois se arrastavam na terra batida da rua.
Rand tentou encontrar uma abertura para acertar o Trolloc com a lâmina sem ferir Loial, mas a besta e o Ogier giravam tanto, em uma dança violenta, que não havia como.