Com um grunhido, o Trolloc conseguiu libertar o braço esquerdo, mas, antes de se soltar por completo, Loial passou o próprio braço em torno do pescoço da criatura, mantendo-a bem próxima. A besta buscou a espada freneticamente, mas a harpe pendia do lado contrário, di ícil de ser empunhada pela mão esquerda. Pouco a pouco o aço escuro começou a deslizar para fora da bainha. Ainda assim eles se engalfinhavam, o que tornava impossível para Rand desferir um golpe sem pôr Loial em risco.
O Poder. Talvez aquilo ajudasse. Como, ele não sabia, mas não tinha outra ideia. O Trolloc já estava com meia espada desembainhada. Quando conseguisse empunhar a lâmina curva, mataria Loial.
Rand formou o vazio, relutante. Saidin brilhava sobre ele, atraindo-o. Pareceu se lembrar vagamente de uma vez em que saidin cantara para ele, mas naquele momento sentia apenas uma enorme atração, como o perfume de uma flor atraindo uma abelha, o fedor do lixo atraindo uma mosca. Ele se abriu, tentou alcançá-lo. Não havia nada lá. Parecia estar tentando literalmente segurar a luz. A mácula deslizou para ele, conspurcando-o, mas não houve qualquer luxo de luz dentro dele. Impelido por um desespero distante, Rand tentou de novo e de novo. E, a cada vez, sentiu apenas a mácula.
Com um esforço súbito, Loial arremessou o Trolloc de lado, tão forte que ele caiu e foi de encontro à lateral de um prédio. A besta bateu a cabeça, com um estrondo, e deslizou pela parede até parar no chão, com o pescoço torcido em um ângulo impossível. Loial ficou olhando a cena, arquejando.
Rand apenas olhou, ainda envolvido pelo vazio, antes de perceber o que acontecera. Mas, assim que entendeu o que se passava, deixou o vazio e a luz maculada e correu até Loial.
— Eu nunca… nunca matei antes, Rand. — disse o Ogier, trêmulo.
— Ele o teria matado — respondeu Rand. Olhou para os becos, janelas fechadas e portas trancadas, ansioso. Onde havia dois Trollocs, devia haver mais. — Lamento que você tenha precisado fazer isso, Loial, mas ele teria matado nós dois, ou feito coisa pior.
— Eu sei. Mas não consigo gostar disso. Mesmo tendo sido um Trolloc. — Apontando para o sol poente, o Ogier segurou o braço de Rand. — Há mais um.
Contra o sol, Rand não pôde distinguir os detalhes, mas parecia que outro grupo de homens com uma marionete gigante ia em direção a ele e a Loial. Contudo, agora que sabia o que via, percebeu que a “marionete” movia as pernas de modo natural demais, e que a cabeça com focinho se erguia para farejar o ar sem que ninguém mexesse uma das varas. Rand achava que o Trolloc e os Amigos das Trevas não conseguiam vê-lo em meio às sombras do entardecer, nem percebiam as feras que jaziam na rua, à sua volta. Estavam se movendo devagar demais. Ainda assim, era claro que estavam caçando, e que chegavam cada vez mais perto.
— Fain sabe que estou aqui em algum lugar — constatou, limpando, apressado, a lâmina no manto do Trolloc morto. — Ele os mandou para me encontrarem. Mas tem medo de que os Trollocs sejam vistos, ou não teria mandado que se disfarçassem. Se conseguirmos chegar a uma rua movimentada, estaremos seguros. Precisamos ir até Hurin. Se Fain o encontrar lá, sozinho com a Trombeta…
Ele puxou Loial pela esquina seguinte e virou na direção do som mais próximo de risos e música, mas bem antes de chegarem até ele avistaram outro grupo de homens em uma rua vazia, levando uma marionete que não era uma marionete. Rand e Loial dobraram na rua seguinte. Ela os levou para leste.
Toda vez que Rand tentava chegar até a música e as risadas, havia um Trolloc no caminho, muitas vezes farejando o ar. Alguns deles caçavam pelo faro. Às vezes, em lugares desertos, um Trolloc espreitava sozinho. Mais de uma vez, Rand teve certeza de que era um que já vira antes. Estavam se aproximando, garantindo que ele e Loial não deixassem as ruas desertas de janelas fechadas. Lentamente, os dois foram forçados a seguir para leste, para longe da cidade e de Hurin, para longe de outras pessoas, percorrendo ruas estreitas cada vez mais escuras, que seguiam em todas as direções, subindo e descendo. Rand olhava as casas pelas quais passavam, os prédios altos que ficavam fechados à noite, e não foi com pouco pesar. Mesmo que esmurrasse uma porta até que alguém abrisse, e mesmo que as pessoas lá dentro acolhessem Loial e ele, nenhuma daquelas portas deteria um Trolloc. Tudo que faria seria oferecer mais vítimas, além dele e de Loial.
— Rand — disse o Ogier, por fim —, não há mais para onde ir.
Haviam chegado ao limiar leste de Portão da Frente, e os prédios altos que se estendiam dos dois lados eram os últimos. As luzes nos andares de cima zombavam dele, mas nos andares mais baixos estava tudo fechado. À frente estavam as colinas, encobertas pelo primeiro manto do crepúsculo, desprovidas de uma casa de fazenda que fosse. No entanto, não estavam totalmente vazias. Com dificuldade, Rand pôde divisar um muro pálido ao redor de uma das maiores colinas, que ficava talvez a uma milha de distância, com prédios do lado de dentro.
— Quando eles nos fizerem sair — começou Loial —, não vão precisar se preocupar em ser vistos.
Rand indicou o muro em torno da colina com um gesto.
— Aquilo deve deter um Trolloc. Deve ser a mansão de algum lorde. Talvez nos deixem entrar. Um Ogier e um lorde estrangeiro? Este casaco tem que servir para alguma coisa, uma hora. — Rand olhou para a rua atrás de si. Não havia Trollocs à vista ainda, mas mesmo assim puxou Loial, contornando o prédio.
— Acho que aquela é a sala do capítulo dos Iluminadores, Rand. Iluminadores guardam muito bem seus segredos. Não acho que deixariam nem mesmo o próprio Galldrian entrar lá.
— Que problema você arrumou dessa vez? — perguntou uma voz feminina familiar. De repente, o ar se encheu de um perfume apimentado.
Rand olhou, estupefato: Selene dobrou a esquina que haviam acabado de virar, com o vestido branco brilhando na penumbra.
— Como você chegou aqui? E o que você está fazendo? Precisa ir embora agora mesmo. Corra! Há Trollocs atrás de nós!
— Eu vi. — A voz dela era seca, porém calma e equilibrada. — Vim procurar você e o vejo deixando que Trollocs o conduzam como se fosse uma ovelha. Como o homem que possui a Trombeta de Valere pode permitir que o tratem assim?
— Não estou com ela aqui — retrucou, irritado —, e não sei se ela poderia ajudar, mesmo se estivesse. Os heróis mortos não deveriam ser chamados de volta para me salvar de Trollocs. Selene, você precisa fugir. Agora! — Ele espiou a esquina.
A não mais de cem passos, despontava a cabeça chifruda de um Trolloc, farejando a noite. Uma enorme sombra a seu lado devia ser outro Trolloc, e havia sombras menores, também. Os Amigos das Trevas.
— Tarde demais — murmurou Rand. O rapaz segurou o estojo da lauta para tirar o manto e cobrir Selene com ele. Era longo o bastante para esconder todo o vestido branco e ainda arrastar no chão. — Você vai precisar levantar isso para correr — disse a ela. — Loial, se eles não abrirem a porta para nós, precisaremos encontrar um jeito de entrar despercebidos.
— Mas, Rand…
— Você prefere esperar pelos Trollocs? — Ele deu um empurrão em Loial, para fazê-lo começar a correr, e pegou a mão de Selene, para que ela o acompanhasse. — Encontre um caminho pelo qual não vamos quebrar o pescoço, Loial.
— Você está se permitindo ficar afobado — censurou Selene. — Ela parecia ter menos dificuldade do que Rand para seguir Loial na luz escassa. — Busque a Unidade e fique calmo. Quem é destinado à grandeza deve sempre estar calmo.
— Os Trollocs talvez a ouçam — retrucou Rand. — Não quero grandeza — Julgou ouvir Selene soltar um grunhido irritado.
Algumas pedras às vezes deslizavam sob seus pés, mas avançar pelas colinas não era di ícil, apesar das sombras do crepúsculo. As árvores, até mesmo os arbustos, tinham sido cortados para fornecer lenha, muito tempo atrás. Nada crescia, exceto a grama na altura dos joelhos, que roçava de leve em suas pernas. Uma brisa noturna soprou, suave, e Rand ficou preocupado com a possibilidade de ela carregar o cheiro deles até os Trollocs.