Loial parou quando alcançaram o muro, que tinha o dobro da altura do Ogier, com as pedras cobertas de reboco esbranquiçado. Rand olhou na direção de Portão da Frente. A luz das janelas distantes chegavam a ele como raios de uma roda, vindas das muralhas da cidade.
— Loial — disse Rand, baixinho —, você consegue vê-los? Eles estão nos seguindo?
O Ogier olhou na direção de Portão da Frente e assentiu, infeliz.
— Vejo apenas alguns Trollocs, mas eles estão vindo nessa direção. Correndo. Rand, eu realmente acho que não…
Selene o interrompeu.
— Se ele quer entrar, alantin, precisa de uma porta. Como aquela ali. — Ela apontou para uma mancha escura um pouco mais à frente, no muro.
Mesmo com ela apontando, Rand não tinha certeza de que aquilo era de fato uma porta, mas, quando Selene foi até lá e a puxou, a porta abriu.
— Rand — começou Loial.
Rand o empurrou em direção à porta.
— Depois, Loial. E faça silêncio. Estamos nos escondendo, lembra? — Ele os fez entrar e fechou a porta. Havia encaixes para uma barra, mas nenhuma à vista. Aquilo não deteria ninguém, mas talvez os Trollocs hesitassem em entrar na propriedade.
Estavam em uma viela que subia a colina entre dois prédios longos, baixos e sem janelas. A princípio ele achou que também fossem de pedra, mas depois percebeu que a massa branca fora aplicada sobre madeira. Já estava escuro o suficiente para que a lua re fletida nas paredes gerasse uma iluminação fraca.
— É melhor ser preso pelos Iluminadores do que pego pelos Trollocs — murmurou Rand, começando a subir a colina.
— Mas é isso que eu estava tentando lhe dizer — protestou Loial. — Ouvi dizer que os Iluminadores matam os intrusos. Eles guardam seus segredos a sete chaves, Rand.
Rand parou e olhou de volta para a porta. Os Trollocs ainda estavam lá fora. Na pior das hipóteses, devia ser mais fácil lidar com humanos do que com os Trollocs. Ele podia tentar convencer os Iluminadores a deixá-los partir, mas Trollocs não paravam para ouvir antes de matar.
— Peço desculpas por tê-la envolvido nisso, Selene.
— O perigo confere um algo mais — respondeu ela, baixinho. — E, até agora, você tem lidado bem com ele. Vamos ver o que nos aguarda adiante? — Ela encostou nele ao passar na frente, começando a subir a viela.
Rand a seguiu, com aquele perfume apimentado enchendo-lhe as narinas.
No topo da colina, a viela desembocava em um espaço aberto de terra batida, lisa e quase tão clara quanto o reboco do muro. O lugar era quase todo cercado por mais prédios brancos e sem janelas, com sombras de vielas estreitas entre um e outro. Mas, à direita de Rand, havia um prédio com janelas cuja luz se projetava no chão claro. Ele recuou para as sombras da viela quando um homem e uma mulher apareceram, atravessando o pátio sem pressa.
Pelas roupas, eles com certeza não eram cairhienos. O homem usava calças tão folgadas quanto as mangas da camisa, ambos de um amarelo suave, com bordados nas pernas e no peito. O vestido da mulher tinha um bordado elaborado no torso e parecia ser de um verde pálido, e seu cabelo estava preso em pequenas tranças.
— Tudo está em ordem, você disse? — perguntou a mulher. — Você tem certeza, Tammuz? Tudo mesmo?
O homem ergueu as mãos.
— Sempre você vem conferir meu trabalho, Aludra. Tudo está em ordem. A queima, ela poderia começar neste exato momento.
— Os portões e portas estão todos fechados, não é? Todos os… — A voz dela foi sumindo na distância, conforme a dupla seguia para o outro lado do prédio iluminado.
Rand examinou o pátio, sem reconhecer quase nada do que via. No meio, dezenas de tubos estavam posicionados na vertical, cada um quase tão alto quanto ele e com um pé ou mais de diâmetro, dispostos em largas bases de madeira. De cada tubo saía um pavio escuro e retorcido, que corria pelo chão até a parte de trás de uma mureta de cerca de três passos de comprimento, que ficava do outro lado do pátio. Em todo o entorno, havia um amontoado de cavaletes de madeira carregados de tigelas, tubos e varas forcadas, além de diversos outros objetos.
Todos os fogos de arti ício que Rand vira podiam ser segurados com apenas uma das mãos, e aquilo era tudo que sabia sobre eles, além do fato de que estouravam com grande estrondo, serpenteavam, faiscando em espirais pelo chão, ou às vezes voavam pelo ar. Sempre vinham com avisos dos Iluminadores, dizendo que abrir um deles podia provocar a detonação. De qualquer forma, fogos de arti ício eram caros demais para que o Conselho da Aldeia autorizasse a abertura por qualquer pessoa que não soubesse bem o que estava fazendo. Rand lembrava muito bem da vez em que Mat tentara fazer exatamente isso, e quase uma semana se passou antes de qualquer um, além da própria mãe, lhe dirigisse a palavra. A única coisa que Rand reconheceu foram os barbantes, os pavios. Ali, sabia, era onde se ateava fogo.
Olhando de relance para a porta que não estava fechada, Rand fez um gesto para que os outros o seguissem e avançou, contornando os tubos. Se iriam buscar algum lugar para se esconder, que fosse o mais longe possível daquela porta.
Para isso, precisavam passar por entre os cavaletes, e Rand prendia a respiração cada vez que roçava algum. Os objetos dispostos balançavam ao menor toque, chacoalhando. Tudo parecia feito de madeira, sem um pedaço sequer de metal. Ele conseguia imaginar a barulheira que faria se derrubasse um deles. Olhava para os tubos altos com certo receio, lembrando-se do barulho produzido por um que era apenas do tamanho de seu dedo. Se fossem fogos de artifício, não queria ficar tão perto deles.
Loial murmurava sozinho o tempo inteiro, especialmente quando esbarrava em um dos cavaletes e se assustava tanto que pulava para trás e esbarrava em outro. O Ogier avançava devagar, deixando um rastro de esbarrões e murmúrios.
Selene não o deixava menos nervoso. Andava com tanta naturalidade que era como se estivessem em uma rua na cidade. Não esbarrava em nada nem fazia qualquer ruído, mas também não fazia qualquer esforço para manter o manto fechado. O branco de seu vestido parecia brilhar mais que todas as paredes juntas. Rand olhava para as janelas iluminadas, esperando que alguém aparecesse. Bastaria uma pessoa, pois Selene não conseguiria evitar ser vista, e soariam o alarme.
No entanto, as janelas permaneceram vazias. Rand estava quase suspirando de alívio ao se aproximarem da mureta e das vielas e prédios atrás dela, quando Loial esbarrou em outro cavalete, ao lado da mureta. Nele, havia dez bastões que pareciam acolchoados, do comprimento do braço de Rand, com filetes de fumaça saindo das extremidades. O cavalete quase não fez barulho ao cair, e os bastões fumegantes se espalharam sobre um dos pavios. Com estalidos e um sibilo, o pavio irrompeu em chamas, e o fogo disparou rumo a um dos tubos altos.
Rand arregalou os olhos por apenas um instante, então, tentou soltar um grito, ainda sussurrando:
— Atrás da mureta!
Selene fez um som irritado quando Rand a derrubou atrás da mureta, mas ele não se importou. Tentou se posicionar sobre ela de forma a protegê-la, enquanto Loial se espremia ao lado deles. Esperando pela explosão do tubo, Rand se perguntou se sobraria alguma coisa da mureta. Houve um estampido surdo, que ele sentiu no chão tanto quanto escutou. Com cuidado, saiu de cima de Selene o suficiente para olhar por cima da mureta. Ela lhe deu um murro nas costelas, com força, e esperneou para sair de debaixo dele, xingando em um idioma que Rand não reconheceu, mas ele mal registrou.
Um filete de fumaça saía de um dos tubos. E só. Ele balançou a cabeça, intrigado. Se isso é tudo…
Com um ribombar de trovão, uma imensa flor vermelha e branca desabrochou alto no céu já escuro, e então começou a desaparecer devagar, em faíscas.