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Enquanto Rand olhava estupefato, o prédio iluminado irrompeu em um alvoroço. Homens e mulheres aos gritos se amontoaram nas janelas, olhando e apontando.

Rand olhou desejoso para a viela escura, a pouco mais de dez passos. No primeiro passo, estariam à vista das pessoas nas janelas. Ouviu passos apressados vindos do prédio.

Ele empurrou Selene e Loial para junto da mureta, torcendo para que parecessem apenas mais uma sombra.

— Fiquem parados e quietos — sussurrou. — É nossa única esperança.

— Às vezes — disse Selene, em voz baixa —, se você ficar bem parado, ninguém é capaz de vê-lo. — Ela não parecia nem um pouco preocupada.

Botas corriam para cima e para baixo, do outro lado da mureta, e vozes furiosas se elevavam, especialmente a que Rand reconheceu como de Aludra.

— Seu grande palhaço, Tammuz! Um porco é o que você é! Sua mãe, ela era uma cabra, Tammuz! Um dia você vai matar todos nós!

— Não sou eu o culpado, Aludra — protestou o homem. — Eu conferi, tudo estava onde deveria, e os acendedores, eles estavam…

— Você nem venha falar comigo, Tammuz! Porcos não merecem falar como gente! — A voz de Aludra mudou para responder a uma pergunta de outro homem. — Não há tempo para preparar outro. Galldrian vai ter que ficar satisfeito com o restante para hoje à noite, ah vai. E com este adiantado. E você, Tammuz! Você vai deixar tudo certinho, e amanhã vai sair com as carroças para comprar estrume. Se qualquer outra coisa der errado esta noite, nem o estrume vou mais confiar a você!

Alguns passos se encaminharam para o prédio, acompanhando os impropérios de Aludra. Tammuz ficou, resmungando baixinho sobre como aquilo era injusto.

Rand prendeu a respiração quando o homem foi endireitar o cavalete caído. Escondido nas sombras, apoiado de costas na mureta, ele podia ver as costas e ombros de Tammuz. Tudo que o homem precisava fazer era virar a cabeça, então não deixaria de ver Rand e os outros. Ainda resmungando sozinho, o homem arrumou os bastões fumegantes no cavalete e seguiu para o prédio aonde os demais haviam se dirigido.

Voltando a respirar, Rand deu uma olhada rápida para o homem e, então, retornou às sombras. Algumas pessoas ainda estavam nas janelas.

— Não podemos esperar ter mais qualquer sorte essa noite — sussurrou.

— Dizem que grandes homens fazem a própria sorte — respondeu Selene, baixinho.

— Você pode parar com isso? — pediu Rand, cansado.

Queria que o cheiro dela não preenchesse seus pensamentos daquele jeito, pois tornava di ícil raciocinar com clareza. Conseguia se lembrar da sensação do corpo dela ao empurrá-la para o chão, era macio e firme em uma combinação perturbadora, o que também não ajudava.

— Rand? — Loial estava olhando para além da mureta, para o lado oposto do prédio iluminado. — Acho que precisaremos de mais alguma sorte.

Rand se virou para olhar por cima do ombro do Ogier. Além do pátio, na viela que dava para a porta que não estava fechada, três Trollocs espiavam as janelas iluminadas com cautela, escondidos nas sombras. Havia uma mulher em uma das janelas, mas ela não parecia vê-los.

— Então — começou Selene, em voz baixa —, isso virou uma armadilha. Essas pessoas podem matar você, se o pegarem. E os Trollocs o matariam com certeza. Mas talvez você possa matar os Trollocs antes que tenham tempo de gritar. Ou talvez consiga impedir que essas pessoas o matem para preservar seus segredinhos. Você pode não querer grandeza, mas é necessário um grande homem para fazer essas coisas.

— Você não precisa parecer feliz com isso — retrucou Rand.

Ele tentou parar de pensar no cheiro dela, na sensação de ter o corpo dela junto ao seu, e o vazio quase o cercou. Ele o afastou. Os Trollocs ainda não pareciam tê-los visto. Ele voltou a seu lugar, examinando a viela escura mais próxima. Quando tentassem alcançá-la, os Trollocs certamente os veriam, assim como a mulher na janela. Seria uma corrida para saber quem os alcançaria primeiro, Trollocs ou Iluminadores.

— Sua grandeza me fará feliz. — A despeito das palavras, Selene parecia furiosa. — Talvez eu devesse deixar você encontrar seu próprio caminho, por um tempo. Se não aceitar a grandeza quando ela está a seu alcance, talvez mereça morrer.

Rand se recusou a olhar para ela.

— Loial, você consegue ver se há outra porta no fim daquela viela?

O Ogier sacudiu a cabeça.

— Está muito claro aqui e muito escuro ali. Se eu estivesse ali, conseguiria.

Rand passou os dedos pelo cabo da espada.

— Leve Selene. Assim que vir uma porta, se vir, me chame que eu sigo. Se não houver porta, você terá que levantar Selene, para que ela possa chegar ao topo da muralha e pular para o outro lado.

— Está bem, Rand. — O Ogier pareceu preocupado. — Mas, quando sairmos daqui, aqueles Trollocs virão atrás de nós, não importa quem esteja olhando. Mesmo que haja uma porta, eles vão estar logo atrás.

— Deixe que eu me preocupo com os Trollocs. — Três deles. Eu posso vencê-los, com o vazio. Pensar em saidin fez com que ele se decidisse. Muitas coisas estranhas haviam acontecido quando ele aceitara a metade masculina da Fonte Verdadeira. — Eu vou atrás se vocês assim que puder. Vá! — Rand se virou para vigiar os Trollocs pela lateral da mureta.

Pelo canto de olho, o rapaz teve a impressão de ver o vulto de Loial se movendo e do vestido branco de Selene, meio encoberto por seu manto. Um dos Trollocs além dos tubos apontou para eles, agitado, mas os três ainda hesitaram, olhando para a janela de onde a mulher ainda observava. São três. Tem que haver um jeito. Sem o vazio. Sem saidin.

— Há uma porta! — avisou Loial em voz baixa.

Um dos Trollocs deu um passo para fora das sombras e os outros o seguiram, se agrupando. Como se estivesse em outro lugar, Rand ouviu a mulher dar o alarme e Loial gritar alguma coisa.

Sem pensar, estava de pé. Precisava deter os Trollocs de algum jeito, ou eles o matariam, e também Loial e Selene. Pegou um dos bastões fumegantes e se atirou no tubo mais próximo. Este entortou e começou a cair, e ele agarrou sua base quadrada de madeira, fazendo o tubo apontar direto para os Trollocs. Eles diminuíram o passo, hesitantes, a mulher na janela deu um berro, e Rand encostou o bastão fumegante no pavio, exatamente onde ele entrava no tubo.

O estampido surdo veio imediatamente, e a espessa base de madeira se chocou contra o rapaz, derrubando-o. Um estrondo como uma trovoada quebrou o silêncio da noite, e uma explosão cegante de luz rasgou a escuridão.

Piscando, Rand se levantou, cambaleante, tossindo por causa da fumaça acre, ouvidos zumbindo. Olhou boquiaberto, estupefato. Metade dos tubos e todos os cavaletes haviam tombado, e um canto do prédio ao lado do qual os Trollocs estavam desaparecera, restando apenas chamas consumindo as extremidades de tábuas e vigas. Não havia sinal dos Trollocs.

Em meio ao zumbido em seus ouvidos, Rand pôde escutar os gritos dos Iluminadores no prédio. Lançou-se em uma corrida vacilante e entrou na viela mancando. Na metade do caminho, tropeçou em alguma coisa e percebeu que era seu manto. Pegou-o sem parar de correr. Atrás dele, os gritos dos Iluminadores enchiam a noite.

Loial batia os pés, impaciente, ao lado da porta aberta, e estava sozinho.

— Onde está Selene? — indagou Rand.

— Ela voltou. Eu tentei segurá-la, mas ela se soltou e escapou.

Rand se virou para a barulheira. Em meio ao zumbido incessante em seus ouvidos, mal se distinguiam alguns dos gritos. As chamas iluminavam o pátio.

— Os baldes de areia! Peguem os baldes de areia, rápido!

— Isso é um desastre! Um desastre!

— Alguns deles foram por ali!

Loial segurou Rand pelos ombros.

— Você não pode ajudá-la agora, Rand. Não se for capturado. Precisamos ir. — Alguém apareceu no final da viela, uma silhueta contra a luz das chamas ao fundo, e apontou para eles. — Vamos, Rand!