Rand se deixou ser puxado porta afora na escuridão. O fogo diminuiu atrás deles, até se tornar apenas um brilho suave na noite, e as luzes de Portão da Frente se aproximavam. Rand quase desejou que mais Trollocs aparecessem, para ter algo contra o que lutar. Mas havia apenas a brisa noturna agitando a grama.
— Eu tentei impedi-la — explicou Loial. Houve um longo silêncio. — Realmente não podíamos ter feito nada. Eles teriam nos capturado também.
Rand suspirou.
— Eu sei, Loial. Você fez o que pôde. — Ele deu alguns passos para trás e ficou olhando o brilho suave. Parecia menor. Os iluminadores deviam estar apagando o fogo. — Eu preciso ajudá-la de alguma forma. — Como? Saidin? O Poder? Sentiu um calafrio. — Eu preciso.
Seguiram por Portão da Frente, atravessando as ruas iluminadas em um silêncio que os isolava da alegria ao redor.
Ao entrarem na Defensor da Muralha do Dragão, o estalajadeiro estendeu uma bandeja com um pergaminho selado.
Rand o pegou e olhou para o selo branco. Uma lua crescente e estrelas.
— Quem deixou isso? Quando?
— Uma senhora idosa, milorde. Não faz nem um quarto de hora. Era uma serva, embora não tenha dito de qual Casa. — Cuale sorriu como se o convidasse a partilhar seus segredos.
— Obrigado — respondeu Rand, ainda olhando para o selo.
O estalajadeiro os observou com uma expressão pensativa enquanto subiam a escada.
Hurin tirou o cachimbo da boca quando Rand e Loial entraram no quarto. O farejador colocara a espada curta e o quebra-espadas na mesa, e limpava as armas com um trapo embebido em óleo.
— Vocês passaram muito tempo com o menestrel, milorde. Ele está bem?
Rand levou um susto.
— O quê? Thom? Ele está… — Ele abriu o selo com o polegar e leu.
Quando acho que sei o que você vai fazer, você faz outra coisa. Você é um homem perigoso. Talvez não se passe muito tempo até estarmos juntos outra vez. Pense na Trombeta. Pense na glória. E pense em mim, pois você será sempre meu.
Mais uma vez, não havia assinatura além da própria caligrafia elegante.
— Será que todas as mulheres são loucas? — perguntou Rand, dirigindo-se ao teto. Hurin deu de ombros. Rand se jogou na outra cadeira, a que fora feita para os Ogier. Seus pés não tocavam o chão, mas ele não se importava. Olhou para o baú sob o cobertor, debaixo da cama de Loial. Pense na glória. — Eu queria que Ingtar chegasse logo.
28
Uma Nova Trama no Padrão
Em seu cavalo, Perrin observava desconfortável as montanhas da Adaga do Fratricida. A subida ainda era íngreme, e parecia que continuaria assim para sempre, embora ele achasse que não devia faltar muito para alcançar o topo da trilha. De um lado, o terreno descia íngreme até um córrego raso vindo da montanha, batendo com força em rochas afiadas. Do outro, as montanhas se erguiam em uma série de picos serrilhados, como cataratas de pedra congeladas. A trilha seguia por uma área de pedregulhos, alguns do tamanho da cabeça de um homem, outros grandes como uma carroça. Não seria preciso muita habilidade para se esconder ali.
Os lobos tinham informado que havia gente nas montanhas. Perrin se perguntava se seriam os Amigos das Trevas de Fain. Os lobos não sabiam nem se importavam. Sabiam apenas que os Distorcidos estavam à frente, em algum lugar. Ainda estavam muito à frente, embora Ingtar tivesse forçado bastante o ritmo da marcha. Perrin notou que Uno observava as montanhas ao redor assim como ele.
Mat, com o arco preso às costas, cavalgava sem parecer preocupado, fazendo malabarismos com três bolas coloridas, mas também parecia um pouco mais pálido. Verin o examinava duas ou três vezes por dia, franzindo a testa, e Perrin tinha certeza de que ela até mesmo tentara Curá-lo, pelo menos uma vez, mas aquilo não fizera nenhuma diferença visível. De qualquer forma, ela parecia mais preocupada com algo que não mencionava.
Rand, pensou Perrin, olhando para as costas da Aes Sedai. Ela cavalgava sempre à frente da coluna com Ingtar, e sempre queria que seguissem ainda mais rápido do que o lorde shienarano permitiria. De algum jeito, ela sabe sobre Rand. Imagens enviadas pelos lobos lampejaram em sua mente. Casas de pedra em fazendas e aldeias em terrenos aplanados, todas além dos picos das montanhas. Os lobos não viam as construções humanas de modo muito diferente de como viam colinas ou campinas, a não ser pela sensação de que eram terras estragadas. Por um momento, Perrin percebeu que compartilhava aquele lamento, lembrando-se de lugares que os de duas pernas abandonaram havia muito tempo, lembrando-se da carreira veloz por entre as árvores e da força de sua mandíbula, dando um bote quando a corça tentava fugir, e… Com dificuldade, afastou os lobos de seus pensamentos. Essas Aes Sedai vão destruir todos nós.
Ingtar deixou o cavalo desacelerar até ser alcançado pelo do rapaz. Às vezes, aos olhos de Perrin, a crista crescente no elmo do shienarano lembrava os chifres de um Trolloc. Ingtar falou, em voz baixa:
— Conte-me outra vez o que os lobos disseram.
— Eu já lhe contei dez vezes — murmurou Perrin.
— Conte outra vez! Qualquer detalhe que eu possa ter perdido, qualquer coisa que me ajude a encontrar a Trombeta… — Ingtar respirou fundo e expirou devagar. — Preciso encontrar a Trombeta de Valere, Perrin. Conte outra vez.
Não havia necessidade de organizar tudo em sua mente, não depois de tantas repetições. O jovem disse, monotonamente:
— Alguém, ou algo, atacou os Amigos das Trevas à noite e matou os Trollocs que encontramos. — Seu estômago já não ficava mais embrulhado ao pensar na cena. Corvos e abutres faziam muita sujeira ao se alimentar. — Os lobos o chamam, o que quer que seja, de Matador de Sombras. Acho que era um homem, mas eles não chegaram perto o suficiente para ver direito. Eles não têm medo desse Matador de Sombras, apenas ficaram admirados. Dizem que os Trollocs agora estão seguindo-o. E que Fain está com eles. — Mesmo tanto tempo depois, a lembrança do cheiro de Fain, da sensação que o homem provocava, o fazia contorcer sua boca. — Então os outros Amigos das Trevas também deve estar.
— Matador de Sombras — murmurou Ingtar. — Algum aliado do Tenebroso, como um Myrddraal? Já vi coisas na Praga que poderiam ser chamadas de Matadoras de Sombras, mas… Eles não viram mais nada?
— Eles não queriam se aproximar muito. Não era um Desvanecido. Eu já disse, eles tentariam matar um Desvanecido mais rápido do que tentariam matar um Trolloc, mesmo que isso signifique a morte de metade da matilha. Ingtar, os lobos que viram o que aconteceu passaram a informação para outros, e esses para outros, antes de chegar até mim. Só posso lhe dizer o que eles passaram adiante, e depois de ser passado tantas vezes… — Ele parou de falar quando Uno se juntou aos dois.
— Vi um Aiel nas pedras — alertou o caolho, em voz baixa.
— Tão longe do Deserto? — perguntou Ingtar, incrédulo. Uno conseguiu parecer ofendido sem alterar sua expressão, e Ingtar acrescentou: — Não, não estou duvidando de você. Só estou surpreso.
— O chamejado queria que eu o visse, ou eu provavelmente não teria visto. — Uno não parecia feliz em admitir aquilo. — E aquela cara estava sem véu, então ele não veio para matar. Mas, quando se encontra um desses Aiel chamejados, tem sempre outros que não dá para ver. — De repente, os olhos dele se arregalaram. — Que me queime, mas acho que o miserável quer bem mais do que ser visto. — Ele apontou. Um homem aparecera no caminho, à frente deles.
Masema baixou a lança no mesmo instante, posicionada para um ataque, e enfiou os calcanhares no flanco do cavalo, que partiu a pleno galope em três passadas. E não foi o único: quatro pontas de aço arremetiam contra o homem no chão.
— Alto! — bradou Ingtar. — Eu disse alto! Vou cortar as orelhas de qualquer um que não parar onde está!