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Homem e criatura viraram e sumiram por entre os prédios, deixando Domon estupefato e a tripulação murmurando baixinho entre si. Os dois guardas Seanchan escarneceram em voz baixa. Nem é da minha conta, Domon lembrou a si mesmo. O que era de sua conta era seu navio.

O ar tinha um cheiro familiar de água salgada e piche. Ele mudou de posição, inquieto, pisando no chão de pedra aquecido pelo sol, e se perguntou o que os Seanchan estariam procurando. O que a damane estaria procurando. O que era aquela coisa. Gaivotas grasnaram, circulando acima do porto. Ele pensou nos sons que um homem em uma gaiola poderia fazer. Nem é da minha conta.

Por fim, Egeanin levou os outros de volta à doca. A capitã Seanchan trazia algo embrulhado em um pedaço de seda amarela, Domon notou, preocupado. Algo pequeno o bastante para ser carregado em uma única mão, mas que ela segurava com as duas, com muito cuidado.

Ele se levantou. Devagar, por causa dos soldados, embora os olhares deles tivessem o mesmo desprezo que vira no de Caban.

— Vê, capitã? Eu sou, sim, apenas um comerciante pací ico. Quem sabe seu povo não queira comprar alguns fogos de artifício?

— Talvez, comerciante. — Havia nela um ar de empolgação reprimida que o deixava desconfortável, e as palavras seguintes intensificaram a sensação: — Você vem comigo.

Ela disse aos dois soldados para acompanhá-los, e um deles empurrou Domon para fazê-lo andar. Não foi um empurrão rude. Ele já vira fazendeiros empurrarem vacas daquele jeito, apenas para que se movessem. Trincando os dentes, ele seguiu Egeanin.

A rua calçada de pedras seguia encosta acima, e deixaram para trás o cheiro do porto. As casas com tetos de lajotas ficavam maiores e mais altas conforme a rua subia. Ficou surpreso ao perceber que, em uma cidade sob o comando de invasores, havia mais gente local nas ruas do que soldados, e de vez em quando passava uma liteira carregada por homens sem camisa. A população de Falme parecia seguir com a vida como se os Seanchan não estivessem ali. Ou quase. Quando uma liteira ou um soldado passavam, tanto os pobres, com roupas sujas um pouco esfarrapadas, quanto os mais ricos, com camisas, coletes e vestidos cobertos dos ombros à cintura em bordados de padrões intrincados, curvavam-se e permaneciam assim até que os Seanchan passassem. Fizeram o mesmo para Domon e sua escolta. Egeanin e os guardas sequer olharam na direção deles.

Domon percebeu, com um choque, que algumas das pessoas pelas quais passavam tinham adagas no cinturão, e, em alguns casos, espadas. Estava tão surpreso que falou sem pensar:

— Alguns deles estão do lado de vocês?

Egeanin olhou para trás e franziu a testa, obviamente intrigada. Sem diminuir o passo, ela olhou para as pessoas e assentiu para si mesma.

— Você está falando das espadas. Eles são do nosso povo, agora, comerciante: eles fizeram os juramentos. — Ela parou abruptamente, apontando para um homem alto, de ombros musculosos, com um colete bastante bordado e uma espada pendendo em um cinturão de couro liso. — Você.

O homem parou no meio de um passo, com um pé no ar e uma expressão assustada no rosto. Era um rosto duro, mas ele parecia querer correr. Em vez disso, virou-se para ela e se curvou, com as mãos nos joelhos e os olhos fixos nas botas da capitã.

— Como posso servi-la, capitã? — perguntou, tenso.

— Você é um mercador? — indagou Egeanin. — Fez os juramentos?

— Sim, capitã. Sim. — Ele não desviou o olhar das botas dela.

— O que diz às pessoas quando vai ao interior com seus carroções?

— Que eles precisam obedecer os Precursores, capitã, aguardar o Retorno e servir a Os Que Voltam Para Casa.

— E você nunca pensa em usar essa espada contra nós?

As mãos do homem ficaram brancas de tanto apertar os joelhos, e sua ansiedade transpareceu na voz.

— Eu fiz os juramentos, capitã. Eu obedeço, aguardo e sirvo.

— Viu? — perguntou Egeanin, virando-se para Domon. — Não há motivo para proibir armas. Precisa haver comércio, e os mercadores precisam se proteger de bandidos. Deixamos que as pessoas venham e vão como quiserem, desde que obedeçam, aguardem e sirvam. Os antepassados deles quebraram os juramentos, mas esses aqui aprenderam a não fazê-lo. — Ela continuou a subir o morro, e os soldados empurraram Domon para que a seguisse.

Ele olhou de volta para o mercador. O homem permaneceu curvado como estava até que Egeanin estivesse mais dez passos à frente, na rua. Então, se endireitou e se apressou na outra direção, descendo a ladeira às pressas.

A capitã e os guardas também não olharam para trás quando uma tropa montada dos Seanchan passou por eles, rua acima. Os soldados montavam criaturas que pareciam quase gatos do tamanho de cavalos, mas com escamas reptilianas reluzindo como bronze sob as selas. Patas com garras se agarravam às pedras do calçamento. Uma cabeça com três olhos se virou para olhar para Domon enquanto a tropa passava. Independente de qualquer outra coisa, ela parecia… inteligente demais para a paz de espírito dele. Por toda a rua, a população de Falme se espremia junto às paredes dos prédios, alguns de olhos fechados. Os Seanchan não lhes davam a menor atenção.

Domon entendeu por que os forasteiros podiam permitir às pessoas tanta liberdade. Ele se perguntava se teria tido coragem suficiente para resistir. Damane. Monstros. Ele se perguntava se havia algo que pudesse impedir os Seanchan de marcharem até a Espinha do Mundo. Nem é da minha conta, forçou-se a lembrar, e considerou se haveria alguma possibilidade de evitar aquela gente em suas transações futuras.

Chegaram ao topo da elevação, onde a cidade dava lugar a colinas. Não havia muralhas. À frente, estavam as estalagens que atendiam os mercadores que faziam negócios no interior, pátios para carroções e estábulos. Ali, as casas seriam consideradas mansões respeitáveis para os lordes menores de Illian. A maioria tinha uma guarda de honra de soldados Seanchan na frente, e um estandarte de borda azul com um gavião dourado de asas abertas ondulando. Egeanin entregou a espada e a adaga antes de levar Domon para dentro. Seus dois soldados permaneceram na rua. Domon começou a suar. Ele sentia cheiro de nobreza naquilo, e era sempre ruim fazer negócios com um lorde em seu próprio território.

No salão da frente, Egeanin deixou Domon na porta e falou com um serviçal. Um homem local, a julgar pelas mangas folgadas da camisa e as espirais bordadas de um lado ao outro do peito. Domon julgou ouvir a palavra “Grão-lorde”. O serviçal saiu às pressas, retornando para levá-los ao que certamente era o maior aposento da casa. Todo vestígio de mobília fora retirado, até mesmo os tapetes, e o chão de pedra fora polido até brilhar. Biombos com pinturas de pássaros estranhos ocultavam as paredes e janelas.

Egeanin parou na entrada do aposento. Quando Domon tentou perguntar onde estavam e por quê, ela o silenciou com um olhar feroz e um rosnado. Não se movia, mas parecia inquieta. Segurava o que quer que tivesse pegado do Espuma como se fosse precioso. Ele tentou imaginar o que poderia ser.

De repente, um gongo soou baixo, e a capitã se ajoelhou, pondo o embrulho de seda a seu lado com cuidado. A um olhar dela, Domon também se abaixou. Lordes tinham costumes estranhos, e ele suspeitava que os lordes Seanchan tivessem alguns ainda mais estranhos.

Dois homens apareceram à porta, do outro lado da sala. Um tinha o lado esquerdo da cabeça raspado, com o restante dos cabelos louros pálidos trançados e caindo por sobre a orelha até o ombro. Sua túnica, de um amarelo profundo, deixava apenas os bicos de sandálias amarelas à mostra quando andava. O outro usava uma túnica de seda azul, com brocados de pássaros, longa o suficiente para arrastar quase uma braça no chão atrás dele. Sua cabeça era inteiramente raspada, e suas unhas tinham pelo menos uma polegada, com as dos dois primeiros dedos de cada mão pintadas de azul. Domon ficou boquiaberto.