— Você está na presença do Grão-lorde Turak — entoou o louro —, que lidera Os Que Vêm Antes e auxilia no Retorno.
Egeanin se prostrou com as mãos ao lado do corpo. Domon a imitou prontamente. Nem mesmo os Grão-lordes de Illian exigiriam isso , pensou. Pelo canto do olho, viu Egeanin beijar o chão. Com uma carranca, resolveu que havia um limite. Eles nem podem ver o que eu faço ou nem faço, de qualquer jeito.
Egeanin se levantou de repente. Ele também começou a se erguer, e chegou a erguer um joelho antes que um rosnado dela e um olhar escandalizado do homem da trança o fizessem voltar a se abaixar, com o rosto rente ao chão, resmungando entre dentes. Eu nem faria isso nem para o Rei de Illian e o Conselho dos Nove juntos.
— Seu nome é Egeanin? — Tinha de ser a voz do homem de túnica azul. Sua fala arrastada tinha um ritmo quase cantado.
— Assim fui chamada no meu dia da espada, Grão-lorde — respondeu ela, humilde.
— É um exemplar excelente, Egeanin. Bastante raro. Você deseja um pagamento?
— Deixar o Grão-lorde contente é pagamento suficiente. Eu vivo para servir, Grão-lorde.
— Mencionarei seu nome à Imperatriz, Egeanin. Depois do Retorno, novos nomes serão chamados ao Sangue. Mostre-se digna, e poderá abandonar o nome Egeanin e adotar outro, mais nobre.
— O Grão-lorde me honra.
— Sim. Você pode ir.
Domon não conseguiu ver nada além das botas dela recuando para sair do aposento, parando regularmente para se curvar. A porta se fechou, e houve um longo silêncio. Já via o suor de sua testa pingar no chão quando Turak falou outra vez.
— Pode se levantar, comerciante.
Domon ficou de pé, e viu o que Turak segurava entre os dedos com unhas compridas. O disco de cuendillar no formato do antigo símbolo das Aes Sedai. Lembrando-se da reação de Egeanin quando as mencionou, Domon começou a suar ainda mais. Não havia animosidade nos olhos escuros do Grão-lorde, apenas uma leve curiosidade, mas Domon não confiava em lordes.
— Você sabe o que é isso, comerciante?
— Não, Grão-lorde. — A resposta de Domon foi firme como uma rocha: nenhum comerciante durava muito se não conseguisse mentir com a cara deslavada e a voz tranquila.
— E ainda assim o mantinha em um lugar secreto.
— Eu coleciono antiguidades, Grão-lorde, de épocas passadas. Sim, há quem roubaria esse tipo de coisa, caso a tivesse ao alcance.
Turak observou o disco preto e branco por um momento.
— Isso é cuendillar, comerciante. Você conhece esse nome? E é mais antigo do que você pensa, talvez. Venha comigo.
Domon seguiu o homem com cautela, sentindo-se um pouco mais seguro de si. Com qualquer lorde das terras que conhecia, os guardas já teriam sido chamados se essa fosse a intenção. Mas o pouco que vira dos Seanchan mostrara que eles não faziam as coisas como os demais. Então manteve sua expressão impassível.
Ele foi levado a outro aposento. Achou que a mobília ali devia ter sido trazida por Turak. Parecia toda feita de curvas, sem uma linha reta sequer, e a madeira era polida para realçar uma granulação estranha. Havia uma cadeira, em um tapete de seda tecida com pássaros e flores, e um grande armário circular. Biombos formavam novas paredes.
O homem de trança abriu as portas do armário para revelar prateleiras que abrigavam toda sorte de figuras estranhas, taças, tigelas, vasos… cinquenta coisas diferentes, nenhuma igual a outra em tamanho e formato. Domon engasgou quando Turak colocou o disco, com muito cuidado, ao lado de um gêmeo idêntico.
— Cuendillar — começou Turak — é o que eu coleciono, comerciante. Apenas a própria Imperatriz tem uma coleção melhor.
Os olhos de Domon quase saltaram da cabeça. Se tudo naquelas prateleiras era realmente de cuendillar, era o suficiente para comprar um reino, ou pelo menos fundar uma grande Casa. Até mesmo um rei talvez precisasse mendigar para comprar tanto, se soubesse onde encontrar essa quantidade. Deu um sorriso.
— Grão-lorde, por favor, aceite esta peça como um presente. — Não queria abrir mão dela, mas era melhor do que enfurecer aquele Seanchan. Talvez os Amigos das Trevas passem a perseguir aquele Lorde. — Sim, sou apenas um simples comerciante. Quero apenas fazer meus negócios. Deixe que eu parta, e eu lhe prometo…
A expressão de Turak não se alterou, mas o homem com a trança interrompeu Domon e vociferou:
— Seu cão barbado! Você fala sobre dar ao Grão-lorde o que a capitão Egeanin já deu. Você barganha, como se o Grão-lorde fosse um… um mercador! Você será esfolado vivo por nove dias, cão, e… — O mínimo movimento do dedo de Turak o silenciou.
— Não posso permitir que você parta, comerciante — disse o Grão-lorde. — Nesta terra abandonada pela luz por perjuros, não encontro ninguém capaz de conversar com um homem de sensibilidades. Mas você é um colecionador. Talvez sua conversa seja interessante. — Ele sentou na cadeira, recostando-se em suas curvas para estudar Domon.
Domon deu o que esperava ser um sorriso simpático.
— Grão-lorde, sou, sim, um simples comerciante apenas. Nem tenho jeito para falar com grandes Lordes.
O homem da trança o fitou com raiva, mas Turak pareceu não ouvir. Uma jovem magra e bonita surgiu, com passos rápidos, de detrás dos biombos e ajoelhou-se ao lado do Grão-lorde, oferecendo uma bandeja laqueada com um único copo ino contendo algum líquido preto fumegante. Seu rosto escuro e redondo lembrava vagamente o Povo do Mar. Turak pegou o copo com cuidado nas mãos de unhas grandes, sem olhar para a jovem, e inalou a fumaça. Domon deu uma olhada na menina e desviou os olhos com um engasgo estrangulado: a túnica que vestia, de seda e bordada com flores, era tão fina que ele conseguia ver através dela, e não havia nada por baixo além da própria magreza da moça.
— O aroma do kaf — disse Turak — é quase tão agradável quanto o gosto. Agora, comerciante. Descobri que o cuendillar é ainda mais raro aqui do que em Seanchan. Explique-me como um simples mercador conseguiu aquela peça. — Ele sorveu um pequeno gole de seu kaf e esperou.
Domon respirou fundo e começou a tentar abrir caminho para fugir de Falme. Mentindo.
30
Daes Dae’mar
No quarto de Loial e Hurin, Rand olhou pela janela, observando as linhas ordenadas e os terraços de Cairhien, as construções de pedra e os telhados de lajotas. Não conseguiria ver a sala do capítulo dos Iluminadores de lá nem mesmo se as enormes torres e as mansões de grandes lordes não estivessem no caminho, pois as muralhas da cidade o impediriam. Os Iluminadores ainda eram assunto de toda a cidade, mesmo dias depois da noite em que haviam soltado uma única flor noturna no céu, e antes da hora prevista. Havia umas dez versões diferentes sobre o escândalo, desconsiderando-se as variações menores, mas nenhuma se aproximava da verdade.
Rand se virou. Esperava que ninguém tivesse se ferido no incidente, mas até o momento os Iluminadores sequer haviam admitido que houvera um incêndio. Eles mantinham segredo sobre tudo o que ocorria em seu capítulo.
— Eu ico de guarda no próximo turno — falou para Hurin —, assim que voltar.
— Não precisa, milorde. — Hurin fez uma reverência tão profunda quanto a de qualquer cairhieno. — Eu posso ficar. De verdade, milorde não precisa se preocupar.
Rand respirou fundo e Loial e ele se entreolharam. O Ogier se limitou a dar de ombros. O farejador ficava mais formal a cada dia que passavam em Cairhien, mas Loial apenas dissera que os humanos agem de modo estranho com muita frequência.