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— Hurin — começou a dizer Rand —, você costumava me chamar de Lorde Rand e fazer reverências toda vez que eu olhava para você. — Eu quero que ele pare de fazer reverências e me chame de Lorde Rand de novo , pensou, admirado. Lorde Rand! Luz, precisamos sair daqui antes que eu comece a querer que ele faça as reverências. — Por favor, sente-se? Só de olhar para você fico cansado.

Hurin ficou de pé, com as costas rígidas, ainda parecendo pronto para fazer tudo o que Rand pedisse. Não se sentou nem relaxou.

— Não seria adequado, milorde. Precisamos mostrar a esses cairhienos que sabemos nos comportar tão bem quanto…

— Quer parar de dizer isso? — gritou Rand.

— Como quiser, milorde.

Rand fez um esforço para não suspirar outra vez.

— Hurin, me desculpe. Não deveria ter gritado com você.

— É seu direito, milorde — respondeu Hurin, com simplicidade. — Se eu desagradá-lo, milorde tem o direito de gritar.

Rand deu um passo na direção do farejador com a intenção de agarrá-lo pelo colarinho e sacudi-lo.

Uma batida na porta que comunicava o quarto com o de Rand fez com que todos no aposento congelassem, mas o rapaz gostou de ver que Hurin não pediu permissão antes de pegar a espada. A lâmina com a marca da garça estava presa à cintura de Rand, que tocou em seu cabo ao se dirigir à porta. Esperou que Loial se sentasse sobre a cama longa, ajeitando as pernas e as barras do casaco para ocultar melhor o baú sob o cobertor debaixo da cama, e então abriu a porta de supetão.

O estalajadeiro estava ali, inquieto e ansioso, estendendo a bandeja para Rand. Nela, havia dois pergaminhos selados.

— Desculpe-me, milorde — disse Cuale, sem fôlego. — Eu não podia esperar até o senhor descer, e não havia ninguém em seu quarto, e… e… Perdoe-me, mas… — Ele sacudiu a bandeja.

Rand agarrou os convites com violência. Já recebera muitos. Não olhou para eles, apenas pegou o estalajadeiro pelo braço e o levou em direção à porta do corredor.

— Mestre Cuale, muito obrigado por todo o trabalho. Queira nos deixar a sós, por favor…

— Mas, milorde — protestou Cuale. — Esses são do…

— Muito obrigado. — Rand empurrou o homem para o corredor e fechou a porta com firmeza. Então jogou os pergaminhos sobre a mesinha. — Ele nunca fez isso antes. Loial, você acha que ele estava ouvindo atrás da porta, antes de bater?

— Você está começando a pensar como esses cairhienos — zombou o Ogier, mas suas orelhas tremeram de modo pensativo, e ele acrescentou: — Mesmo assim, ele é daqui, então poderia muito bem estar ouvindo. Não acho que tenhamos dito nada que ele não devesse escutar.

Rand tentou se lembrar. Nenhum deles mencionara a Trombeta de Valere, Trollocs ou Amigos das Trevas. Quando percebeu que se perguntava o que Cuale poderia deduzir do que disseram, obrigou-se a parar.

— Este lugar está afetando você também — murmurou para si mesmo.

— Milorde? — Hurin pegara os pergaminhos e fitava os selos com os olhos arregalados. — Milorde, esses são do Lorde Balthanes, Grão-trono da Casa Damodred, e… — sua voz ficou mais baixa pelo assombro — do Rei.

Rand os dispensou com um gesto.

— Eles vão para o fogo como os outros. Sem serem abertos.

— Mas, milorde!

— Hurin — explicou Rand, pacientemente —, você e Loial me explicaram esse Grande Jogo. Se eu aceitar qualquer um desses convites, os cairhienos concluirão algo, então vão achar que sou parte da trama de alguém. Se eu não for, eles também vão concluir alguma coisa. Se eu mandar uma resposta, vão procurar significados ocultos nela, e farão o mesmo se eu não responder. E já que metade de Cairhien parece espionar a outra metade, todos sabem o que eu faço. Queimei os primeiros dois e vou queimar esses aqui, assim como todos os outros. — Certo dia, houvera uma pilha de mais de dez pergaminhos que ele jogara na lareira do salão com os selos intactos. — O que quer que eles concluam com isso, pelo menos é o mesmo para todos. Não apoio nem estou contra ninguém em Cairhien.

— Eu tentei lhe dizer — retrucou Loial — que acho que não funciona assim. Os Cairhienos acharão que você está tramando algo, independente do que fizer. Pelo menos é o que o Ancião Haman sempre dizia.

Hurin estendeu os convites selados para Rand como se lhe oferecesse ouro.

— Milorde, este tem o selo pessoal de Galldrian. O selo pessoal, milorde. E este aqui tem o selo pessoal do Lorde Balthanes, que é o homem mais poderoso depois do Rei. Milorde, se queimar esses convites, fará os inimigos mais poderosos que conseguirá em toda a vida. Queimar as cartas funcionou até agora porque as outras Casas estão esperando para ver o que você está tramando, pensando que você deve ter aliados muito poderosos para se arriscar a insultá-las. Mas Lorde Balthanes… e o Rei! Insulte-os, e eles com certeza vão responder à ofensa.

Rand passou as mãos pelos cabelos.

— E se eu recusar os dois?

— Não vai funcionar, milorde. Todas as casas já lhe mandaram convites. Se recusar esses… Bem, pelo menos uma das outras Casas vai deduzir que, se você não é aliado do Rei ou de Balthanes, também pode responder seu insulto de queimar o convite dela. Milorde, ouvi dizer que as Casas de Cairhien usam assassinos agora. Uma facada nas ruas. Uma flecha vinda de um telhado. Veneno em seu vinho.

— Você poderia aceitar ambos — sugeriu Loial. — Sei que não quer, Rand, mas pode até ser divertido passar uma noite na mansão de um Lorde, ou até mesmo no palácio real. Rand, os shienaranos acreditaram em você.

Rand fez uma careta de preocupação. Ele sabia que fora pura sorte os shienaranos pensarem que ele era um lorde, apenas uma coincidência sobre seu nome, um rumor entre os serviçais, e Moiraine e a Amyrlin incentivando tudo. Mas Selene também acreditara. Talvez ela esteja em algum desses lugares.

Hurin balançava a cabeça com força, contudo.

— Construtor, você não conhece o Daes Dae’mar tão bem quanto pensa. Pelo menos não o jeito que se joga em Cairhien hoje em dia. Com a maioria das Casas, isso não importaria. Mesmo quando estão tramando cravar uma faca nas costas umas contra as outras, em público agem como se nada estivesse acontecendo. Mas não essas duas. A Casa Damodred estava no trono até Laman perdê-lo, e eles o querem de volta. O Rei os esmagaria se não fossem quase tão poderosos quanto ele. Você não vai achar maiores rivais do que a Casa Riatin e a Casa Damodred. Se o senhor aceitar os dois convites, eles vão saber assim que enviar as respostas, e os dois vão achar que o senhor é parte de alguma trama do outro. Vão usar a faca e o veneno imediatamente.

— E eu suponho — grunhiu Rand — que, se eu só aceitar um, o outro vai achar que eu sou aliado da Casa do convite que aceitei. — Hurin assentiu. — E eles provavelmente vão tentar me matar para impedir qualquer coisa em que eu esteja envolvido. — Hurin assentiu outra vez. — Então você tem alguma sugestão de como evitar que qualquer um deles queira me matar? — Hurin negou com a cabeça. — Queria não ter queimado os dois primeiros.

— Sim, milorde. Mas não teria feito muita diferença, eu acho. Não importa que convite o senhor tivesse aceitado ou recusado, esses cairhienos ainda buscariam significados ocultos.

Rand estendeu a mão, e Hurin lhe entregou os dois pergaminhos dobrados. Um tinha o selo do touro avançando de Balthanes, e não da árvore e a coroa da Casa Damodred. O outro trazia o cervo de Galldrian. Selos pessoais. Pelo que parecia, ele conseguira atrair o interesse dos círculos mais altos fazendo… absolutamente nada.

— Essa gente é louca — disse, tentando pensar em uma forma de escapar.

— Sim, milorde.

— Vou deixar que me vejam no salão com isso aqui — disse, com cuidado. Qualquer coisa vista no salão ao meio-dia já era notícia em dez casas ao cair da noite, e em todas ao amanhecer. — E não vou romper os selos. Assim vão saber que ainda não respondi. Enquanto estiverem esperando para ver para que lado eu vou, talvez eu consiga ganhar mais alguns dias. Ingtar precisa chegar logo. Precisa mesmo.