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— Isso sim é pensar como um cairhieno, milorde — retrucou Hurin, sorrindo.

Rand lhe lançou um olhar azedo, então pôs os pergaminhos no bolso, junto às cartas de Selene.

— Vamos, Loial. Talvez Ingtar tenha chegado.

Quando ele e Loial entraram no salão, nenhum homem ou mulher olhou para Rand. Cuale polia uma bandeja de prata como se sua vida dependesse de deixá-la brilhando. As serviçais corriam de um lado a outro, entre as mesas, como se Rand e o Ogier não existissem. Cada pessoa sentada fitava a própria caneca como se os segredos do poder estivessem no vinho e na cerveja. O silêncio era total.

Depois de um instante, Rand puxou os dois convites do bolso e estudou os selos. Cuale quase deu um salto quando o rapaz foi em direção à porta. Antes que ela se fechasse, ouviu a conversa recomeçar.

Rand andava pela rua tão rápido que Loial nem precisava dar passos curtos para acompanhá-lo.

— Precisamos achar um jeito de sair dessa cidade, Loial. Esse truque com os convites não vai durar mais que dois ou três dias. Se Ingtar não chegar, precisamos ir embora assim mesmo.

— Concordo — respondeu Loial.

— Mas como?

Loial começou a enumerar os problemas com os dedos grossos.

— Fain está lá fora, ou não haveria Trollocs em Portão da Frente. Se sairmos, eles cairão sobre nós assim que estivermos fora das vistas da cidade. Se viajarmos com a comitiva de um mercador, eles certamente vão atacá-lo. Nenhum mercador teria mais do que cinco ou seis guardas, e eles fugiriam assim que vissem um Trolloc. Se soubéssemos quantos Trollocs estão com Fain… ou quantos Amigos das Trevas… Você ajudou a diminuir o número deles. — Ele não mencionou o Trolloc que matara, mas, pela testa franzida e longas sobrancelhas caídas até as bochechas, estava lembrando-se daquilo.

— Não importa quantos ele tenha — retrucou Rand — Dez é tão ruim quanto cem. Acho que não conseguiríamos escapar de novo, se dez Trollocs nos atacassem.

Ele tentou não pensar em como poderia, quem sabe, derrotar dez Trollocs. Afinal, não tinha funcionado quando tentara ajudar Loial.

— Também acho que não conseguiríamos. E acho que não temos dinheiro para uma passagem para muito longe, mas, mesmo que tivéssemos, se tentássemos chegar às docas de Portão da Frente… Bem, Fain deve ter Amigos das Trevas vigiando. Se ele achasse que partiríamos de navio, não creio que se importaria se as pessoas veriam os Trollocs ou não. Mesmo que os enfrentássemos e escapássemos, teríamos que nos explicar para a guarda da cidade, e eles certamente não acreditariam que não sabemos abrir o baú, então…

— Não vamos deixar nenhum cairhieno ver aquele baú, Loial.

O Ogier assentiu.

— Também não conseguiríamos escapar pelas docas da cidade. — As docas da cidade eram reservadas para as barcaças de grãos e os barcos de veraneio de lordes e ladies. Ninguém ia lá sem permissão. Dava para ver as docas lá embaixo, da muralha, mas era uma queda que quebraria até mesmo o pescoço de Loial. O Ogier mexia o polegar como se procurasse um último motivo para então levantá-lo também. — Acho que é uma pena não conseguirmos ir para o Pouso Tsofu. Os Trollocs jamais entrariam em um pouso. Mas acho que não chegaríamos tão longe sem sofrer um ataque.

Rand não respondeu. Haviam chegado à grande guarita logo na entrada, no portão por onde haviam entrado em Cairhien pela primeira vez. Do lado de fora, Portão da Frente se agitava e fervilhava, enquanto uma dupla de guardas os vigiava. Rand pensou ver um homem, vestido no que já haviam sido boas roupas shienaranas, misturar-se à multidão ao vê-lo, mas não conseguiu ter certeza. Havia gente demais usando roupas de muitas terras diferentes, todas andando apressadas. Ele subiu a escada e entrou na parte superior da guarita, passando por guardas com armaduras de placas posicionados dos dois lados da porta.

A grande antessala tinha bancos duros de madeira, para as pessoas com negócios a resolver ali, a maioria esperando com uma paciência humilde, usando as roupas simples e escuras que indicavam os plebeus mais pobres. Havia algumas pessoas de Portão da Frente entre eles, distintas pelo desalinho e pelas cores brilhantes, sem dúvida aguardando permissão para procurar emprego no interior das muralhas.

Rand seguiu direto para a longa mesa no fundo da sala. Havia um único homem, que não era soldado, sentado atrás dela. Usava uma faixa de tecido verde atravessada no casaco. Era um sujeito gordo, cuja própria pele lhe parecia apertada demais, e ajustou os documentos sobre a mesa e mudou a posição do tinteiro duas vezes antes de erguer o olhar para Rand e Loial com um sorriso falso.

— Como posso ajudá-lo, milorde?

— Da mesma forma que eu esperava que pudesse me ajudar ontem — respondeu Rand, com mais paciência do que realmente tinha —, e anteontem, e antes. Lorde Ingtar chegou?

— Lorde Ingtar, milorde?

Rand deu um longo suspiro.

— Lorde Ingtar, da Casa Shinowa, de Shienar. O mesmo homem pelo qual perguntei todos os dias, desde que cheguei.

— Ninguém com este nome entrou na cidade, milorde.

— Você tem certeza? Não precisa nem olhar suas listas?

— Milorde, a lista dos estrangeiros que chegam a Cairhien é compartilhada entre as guaritas ao amanhecer e ao pôr do sol, e eu as examino assim que chegam a mim. Nenhum lorde shienarano entra em Cairhien há muito tempo.

— E Lady Selene? Antes que me pergunte outra vez, não, eu não sei a Casa dela. Já lhe dei seu nome e a descrevi três vezes. Não é o bastante?

O homem ergueu as mãos abertas ao lado do rosto.

— Desculpe-me, milorde. Não saber a Casa dela dificulta muito. — Ele permanecia inexpressivo. Rand se perguntava se ele responderia, mesmo se soubesse.

Um movimento em uma das portas atrás da mesa chamou a atenção de Rand, um homem fizera menção de entrar na antessala, mas dera meia-volta, apressado.

— Talvez o capitão Caldevwin possa me ajudar — disse Rand ao funcionário sentado.

— Capitão Caldevwin, milorde?

— Acabei de vê-lo atrás de você.

— Perdão, milorde. Se houvesse um capitão Caldevwin em minha guarita, eu saberia.

Rand encarou o homem até Loial tocar-lhe o ombro.

— Rand, acho que depois disso podemos ir embora.

— Obrigado pela ajuda — disse Rand, com dificuldade. — Voltarei amanhã.

— É um prazer fazer o que está ao meu alcance — respondeu o homem, com um sorriso falso.

Rand saiu da guarita tão depressa que Loial teve de correr para alcançá-lo na rua.

— Ele estava mentindo, Loial, você sabe. — Ele não desacelerou, apressando-se, em vez disso, como se pudesse queimar sua frustração com o esforço ísico. — Caldevwin estava lá. Ele podia estar mentindo sobre tudo. Ingtar pode já estar aqui, procurando por nós. Aposto que ele também conhece Selene.

— Talvez, Rand. Daes Dae’mar

— Luz! Estou cansado de ouvir falar desse Grande Jogo. Não quero jogá-lo. Não quero ter nada a ver com isso. — Loial andava a seu lado, sem dizer uma palavra. — Eu sei — soltou Rand, por fim. — Eles acham que sou um Lorde, e, em Cairhien mesmo os Lordes de terras estrangeiras são parte do jogo. Queria nunca ter posto este casaco. — Moiraine, pensou, amargo. Ela ainda está me arrumando problemas. Porém, quase na mesma hora, mesmo com relutância, ele admitiu que aquilo dificilmente poderia ser culpa dela. Sempre houvera algum motivo para Rand fingir ser quem não era. Primeiro, para manter o moral de Hurin. Depois, para tentar impressionar Selene. Depois dela, não parecia haver escapatória. Diminuiu o ritmo de seus passos até parar. — Quando Moiraine me deixou partir, achei que as coisas seriam fáceis de novo. Mesmo no encalço da Trombeta, mesmo… mesmo com tudo, eu achei que seria fácil. — Mesmo com saidin dentro da sua cabeça? — Luz, o que eu não daria pra fazer com que tudo voltasse a ser fácil…