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Que me queimem, pensou Perrin, se eu não o conhecesse, também não acreditaria. Mat observava Rand com a cabeça inclinada, franzindo a testa como se olhasse para algo que nunca vira antes. Agora ele também enxerga.

— Você consegue, Rand — respondeu Perrin. — Eu sei que consegue.

— Vai ajudar — retrucou Verin — se você parar de dizer a todos o que não é. As pessoas veem o que esperam ver. Além disso, olhe-os nos olhos e fale com firmeza. Assim como você está falando comigo — acrescentou, seca, e Rand ruborizou, mas sustentou o olhar. — O que você dirá não tem importância. Eles vão atribuir qualquer comportamento estranho ao fato de você ser estrangeiro. Também vai ajudar se você se lembrar de como se comportou perante a Amyrlin. Se for arrogante daquele jeito, eles vão acreditar que você é um Lorde mesmo que esteja vestindo trapos.

Mat riu, baixinho.

Rand jogou as mãos para o alto, em um gesto de desistência.

— Tudo bem. Eu vou. Mas ainda acho que vão descobrir cinco minutos depois de eu abrir a boca. Quando?

— Barthanes lhe ofereceu cinco datas diferentes, e uma delas é amanhã à noite.

— Amanhã! — explodiu Ingtar. A Trombeta já pode estar cinquenta milhas rio abaixo amanhã à noite, ou…

Verin o interrompeu.

— Uno e seus soldados podem vigiar a mansão. Se eles tentarem levar a Trombeta para qualquer lugar, podemos segui-los sem dificuldade, e talvez possamos recuperá-la ainda mais facilmente do que de dentro das muralhas de Barthanes.

— Talvez — concordo Ingtar, a contragosto. — Só não gosto de esperar sabendo que a Trombeta está quase em minhas mãos. Eu vou encontrá-la. Eu devo! Eu preciso!

Hurin encarou o lorde.

— Mas não é assim, Lorde Ingtar. O que acontece, acontece, e o que deve ser se… — O olhar furioso de Ingtar o interrompeu, mas o farejador ainda assim resmungou, entre dentes cerrados: — Não é assim, com essa história de “devo”.

Ingtar voltou-se outra vez para Verin, rígido.

— Verin Sedai, os cairhienos são muito rigorosos com suas formalidades. Se Rand não enviar uma resposta, Barthanes pode ficar insultado a ponto de não nos deixar entrar, mesmo com esse pergaminho em mãos. Mas se Rand… Bom, Fain, pelo menos, o conhece. Poderíamos estar mandando um alerta para montarem uma armadilha.

— Vamos surpreendê-los. — O breve sorriso que ela deu não foi agradável. — Mas eu acho que Barthanes vai querer encontrar Rand de qualquer jeito. Amigo das Trevas ou não, duvido que ele tenha desistido de tramar contra o trono. Rand, ele disse que você se interessou por um dos projetos do Rei, mas não disse qual. O que ele quer dizer?

— Não sei — respondeu Rand, pensando bem. — Não fiz absolutamente nada desde que cheguei. Espere. Talvez ele esteja falando da estátua. Viemos por uma aldeia onde estavam desenterrando uma estátua gigantesca. Disseram que foi construída na Era das Lendas. O Rei quer transportá-la para Cairhien, embora eu não saiba como ele pode mover algo daquele tamanho. Mas tudo o que fiz foi perguntar o que era.

— Passamos por ela durante o dia, e não paramos para fazer perguntas. — Verin deixou o convite cair no colo. — Talvez não seja muito sábio da parte de Galldrian desenterrar aquilo. Não que haja qualquer perigo real, mas, para os que não sabem o que estão fazendo, nunca é sábio mexer com coisas da Era das Lendas.

— O que é aquilo? — perguntou Rand.

— Um sa’angreal. — Ela falava como se aquilo não tivesse muita importância, mas Perrin teve a súbita sensação de que os dois haviam começado uma conversa particular, dizendo coisas que mais ninguém podia ouvir. — Ele tem um par, foram os dois maiores já feitos que se tem notícia. E também é um par estranho. Um deles ainda está enterrado em Tremalking, e só pode ser usado por mulheres. Esse aqui só pode ser usado por homens. Eles foram feitos durante a Guerra dos Poderes, para serem usados como armas. Mas, se há algo pelo que podemos ser gratos sobre o fim daquela Era ou a Ruptura do Mundo, é que o fim veio antes que eles pudessem ser usados. Juntos, eles devem ser poderosos o bastante para Romper o mundo outra vez, talvez de um jeito ainda pior do que a primeira Ruptura.

Perrin cerrou os punhos com força. Ele evitou encarar Rand, mas mesmo olhando-o de soslaio conseguiu ver a palidez em seu rosto. Achou que o amigo devia estar com medo, e não o culpou nem um pouco.

Ingtar parecia abalado, como era de se esperar.

— Aquela coisa precisa ser enterrada de novo, tão fundo quanto é possível empilhar pedras e terra. O que aconteceria se Logain tivesse encontrado aquilo? Ou qualquer desgraçado que consiga canalizar, quanto mais um que a firme ser o Dragão Renascido. Verin Sedai, você precisa alertar Galldrian sobre o que ele está fazendo.

— O quê? Ah, não há necessidade, eu acho. Os dois precisam ser usados juntos para canalizar Poder Único o suficiente para Romper o Mundo. Era assim na Era das Lendas: um homem e uma mulher trabalhando juntos eram sempre dez vezes mais fortes do que separados. E que Aes Sedai, hoje em dia, ajudaria um homem a canalizar? Um sozinho já é poderoso o suficiente, mas consigo pensar em poucas mulheres fortes o bastante para sobreviver ao luxo, no de Tremalking. A Amyrlin, é claro. Moiraine e Elaida. Talvez mais uma ou duas. E três ainda em treinamento. Quanto a Logain, apenas evitar ser incinerado exigiria toda a força dele, sem deixar mais nada para fazer o que quer que fosse. Não, Ingtar. Não acho que você precise se preocupar. Pelo menos, não até que o verdadeiro Dragão Renascido se proclame, e a essa altura teremos coisas o bastante com que nos preocuparmos de qualquer forma. Vamos pensar agora no que faremos quando estivermos dentro da mansão de Barthanes.

Ela estava falando com Rand. Perrin sabia, e, pelo olhar incomodado de Mat, ele também. Até mesmo Loial se ajeitou, nervoso, na cadeira. Ah, luz, Rand, pensou Perrin. Luz, não deixe que ela use você.

Rand apoiava as mãos no tampo da mesa com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, mas sua voz saiu firme. Os olhos dele não se desviaram da Aes Sedai.

— Primeiro temos que recuperar a Trombeta e a adaga. Depois disso acabou, Verin. Depois, acabou.

Ao ver o sorriso de Verin, discreto e misterioso, Perrin sentiu um calafrio. Achava que Rand não sabia nem metade do que pensava saber. Nem metade.

32

Palavras Perigosas

A mansão do Lorde Barthanes parecia um enorme sapo agachado no escuro da noite, ocupando uma área quase tão extensa quanto a de uma fortaleza, com todos os anexos e muros. No entanto, não era uma fortaleza, pois janelas compridas espalhadas por todos os lados deixavam escapar a luz e o som de música e risadas do interior. Ainda assim, Rand pôde ver guardas se movendo nos topos das torres e pelas passarelas nos telhados, e nenhuma das janelas ficava perto do chão. Ele desmontou de Vermelho, ajeitou o casaco e ajustou o cinturão da espada. Os outros também desmontaram ao redor dele, ao pé de uma larga escadaria de pedra branca que levava às enormes portas da mansão, cobertas de entalhes.

Havia uma escolta de dez shienaranos, sob o comando de Uno. O caolho trocou leves acenos de cabeça com Ingtar antes de levar seus soldados para se juntarem às outras escoltas, junto a uma grande fogueira onde assava um boi inteiro preso em um espeto e cerveja era oferecida aos homens.

Os outros dez shienaranos haviam sido deixados para trás, junto com Perrin. Cada uma das pessoas presentes estaria lá com um propósito, explicara Verin, e não havia motivos para Perrin participar. Aos olhos cairhienos, uma escolta era necessária para transmitir dignidade, mas pareceria suspeita se fosse composta por mais de dez pessoas. Rand iria porque recebera o convite. Ingtar, para acrescentar o prestígio de seu título de lorde ao grupo. Loial os acompanharia porque os Ogier eram cobiçados na alta nobreza cairhiena. Hurin fingiria ser o serviçal pessoal de Ingtar, mas seu verdadeiro propósito era farejar os Amigos das Trevas e Trollocs, se pudesse, pois a Trombeta de Valere não deveria estar muito longe de onde eles estivessem. Mat, ainda resmungando, fingiria ser o serviçal pessoal de Rand, já que conseguia sentir a adaga quando ela estava por perto. Se Hurin falhasse, talvez ele conseguisse encontrar os Amigos das Trevas.