Quando Rand perguntou a Verin por que ela iria, ela se limitou a sorrir e responder:
— Para manter vocês longe de problemas.
Enquanto subiam a escada, Mat murmurou:
— Ainda não entendo por que tenho que fingir ser um serviçal. — Ele e Hurin caminhavam atrás dos demais. — Que me queime. Se Rand pode ser um Lorde, eu também posso colocar um casaco metido a besta desses.
— Um serviçal — respondeu Verin, sem olhar para trás —, pode entrar em muitos lugares que outros homens não conseguiriam, e muitos nobres sequer vão reparar em sua presença. Você e Hurin têm objetivos a cumprir.
— Fique quieto agora, Mat — acrescentou Ingtar —, a menos que queira nos entregar.
Estavam chegando às portas, onde havia meia dúzia de guardas com a Árvore e a Coroa da Casa Damodred estampada no peitoral, e mais meia dúzia de homens vestindo uniformes verde-escuros com a Árvore e a Coroa na manga.
Respirando fundo, Rand apresentou o convite.
— Sou Lorde Rand, da Casa al’Thor — recitou, bem depressa, para acabar logo com aquilo. — E estes são meus convidados. Verin, Aes Sedai da Ajah Marrom. Lorde Ingtar, da Casa Shinowa, de Shienar. Loial, filho de Arent, filho de Halan, do Pouso Shangtai. — Loial pedira para deixarem seu pouso fora daquilo, mas Verin insistira que precisavam apresentar toda a formalidade que conseguissem.
O serviçal, que recebera o convite com a reverência exigida pela situação, sobressaltou-se de leve ao ouvir o nome de cada acompanhante. No de Verin, seus olhos se arregalaram. Com uma voz abafada, ele respondeu:
— Sejam bem-vindos à Casa Damodred, milordes. Seja bem-vinda, Aes Sedai. Seja bem-vindo, amigo Ogier.
Ele gesticulou para que os outros serviçais abrissem bem as portas e fez uma reverência enquanto Rand e os outros entravam. Lá dentro, ele se apressou em entregar o convite a outro homem uniformizado, sussurrando algo em seu ouvido.
O homem tinha a Árvore e a Coroa em um grande bordado no peito do casaco verde.
— Aes Sedai — disse, usando o longo cajado para fazer a reverência, quase levando a cabeça aos joelhos a cada cumprimento que fazia. — Milordes. Amigo Ogier. Me chamo Ashin. Por favor, sigam-me.
No salão externo havia apenas serviçais, mas Ashin os levou até um grande aposento repleto de nobres, com um malabarista se apresentando em uma ponta e acrobatas na outra. Vozes e música vinham de outros lugares, indicando que aqueles não eram os únicos convidados, nem o único entretenimento. Os nobres conversavam em pares, trios ou quartetos. Às vezes os grupos eram compostos tanto de homens quanto de mulheres, às vezes apenas de um ou de outro sexo. No entanto, sempre havia um espaço calculado com muito cuidado entre eles, para que ninguém pudesse entreouvir a conversa de outro grupo. Os convidados usavam as roupas escuras típicas dos cairhienos, a maioria com listras brilhantes que iam até pelo menos a metade do peito, uns poucos com listras que iam até a cintura. As mulheres usavam os cabelos presos em altas torres de cachos, cada uma diferente da outra, e suas saias escuras eram tão armadas nas laterais que elas precisariam se virar de lado para passar por portas mais estreitas que as da mansão. Nenhum dos homens tinha a cabeça raspada característica dos soldados. Todos usavam chapéus de veludo preto sobre os cabelos longos, alguns com formato de sino, outros de topo reto. E, assim como as mulheres, tinham as mãos parcialmente ocultas por camadas de renda que lembrava marfim negro.
Ashin bateu seu cajado no chão e os anunciou em voz alta, começando por Verin.
O grupo atraiu todos os olhares. Verin usava seu xale de franjas marrons com bordados de parreiras. Um murmúrio percorreu a multidão de nobres quando a presença de uma Aes Sedai foi anunciada, e o malabarista deixou cair uma das argolas, mas ninguém reparou, pois ninguém mais olhava para ele. Loial recebeu quase a mesma quantidade de olhares, antes mesmo de Ashin dizer seu nome. A despeito dos bordados prateados no colarinho e nas mangas, o casaco quase completamente preto de Rand o fazia parecer quase austero perto dos cairhienos, e sua espada e a de Ingtar atraíram muitos olhares. Nenhum dos lordes parecia estar armado. Rand ouviu as palavras “marca da garça” mais de uma vez. Alguns dos olhares que recebia pareciam irritados, e ele suspeitava de que vinham de homens que insultara ao queimar seus convites.
Um homem belo e esbelto se aproximou. Tinha cabelos longos, já meio grisalhos, e listras de diversas cores cruzavam a frente de seu casaco cinza-escuro, indo do pescoço até quase a bainha, logo acima dos joelhos. Era extremamente alto para um cairhieno, apenas cerca de meia cabeça mais baixo que Rand, e sua postura o fazia parecer ainda mais alto. Ele mantinha o queixo empinado, o que dava a impressão de que sempre estava olhando a todos de cima. Seus olhos eram completamente pretos. No entanto, o homem olhou para Verin com cautela.
— A Graça me honra com sua presença, Aes Sedai. — A voz de Barthanes Damodred era grave e segura. Seu olhar passou pelos demais. — Não esperava companhia tão distinta. Lorde Ingtar. Amigo Ogier. — A mesura que fez a cada um foi pouco mais que um cumprimento com a cabeça: Barthanes sabia bem qual era a dimensão de seu poder. — E você, meu jovem Lorde Rand. Sua presença na cidade gerou muitos comentários, até mesmo nas Casas. Talvez tenhamos a oportunidade de conversar hoje à noite. — Seu tom dizia que, se a conversa não acontecesse, também não lhe faria falta, e que não se interessara pelos comentários, mas seus olhos desviaram de modo quase imperceptível antes de encontrar os de Rand, examinando Ingtar, Loial e Verin. — Sejam bem-vindos. — Ele se deixou ser levado por uma bela mulher, que pôs a mão cheia de anéis e coberta de rendas em seu braço, mas voltou a olhar para Rand enquanto se afastava.
As conversas recomeçaram, e o malabarista voltou a jogar suas argolas, em um arco estreito que quase chegava ao teto ornamentado, umas boas quatro braças acima. Os acrobatas não haviam sequer interrompido a apresentação: uma mulher saltou dos braços de um de seus companheiros. Sua pele untada com óleo brilhava à luz de cem lampiões enquanto ela girava no ar, até aterrissar com os pés bem nas mãos de um outro homem apoiado nos ombros de um terceiro. Ele a ergueu nos braços estendidos enquanto o homem abaixo o erguia da mesma forma, e ela abriu os braços como se esperasse aplausos. Nenhum dos cairhienos pareceu notar.
Verin e Ingtar se misturaram à multidão. O shienarano recebeu alguns olhares desconfiados. Algumas pessoas fitavam a Aes Sedai de olhos arregalados, e outras, com uma expressão preocupada, como se estivessem perto demais de um lobo raivoso. Estes últimos eram mais homens do que mulheres, e algumas das mulheres chegaram a conversar com ela.
Rand percebeu que Mat e Hurin já haviam sumido cozinha adentro, onde todos os serviçais que acompanhavam os convidados aguardavam até serem chamados. Torcia para que os dois não tivessem problemas em sair despercebidos.
Loial se curvou, de modo a falar apenas para os ouvidos de Rand:
— Rand, há um Portal dos Caminhos aqui por perto. Eu posso sentir.
— Você quer dizer que este lugar era um bosque Ogier? — perguntou Rand, e voz baixa, e Loial assentiu.
— O Pouso Tsofu ainda não tinha sido reencontrado quando o bosque foi plantado, ou os Ogier que ajudaram a construir Al’cair’rahienallen não precisariam de um bosque para lembrá-los dos pousos. Este lugar era uma floresta quando eu passei por Cairhien antes, e pertencia ao Rei.