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— Barthanes deve ter tomado a terra em alguma trama — Rand olhou em volta, nervoso. Todo mundo ainda estava envolvido nas conversas, mas não eram poucos os que observavam Loial e ele. Não conseguia ver Ingtar. Verin estava no centro de um aglomerado de mulheres. — Queria que pudéssemos permanecer juntos.

— Verin disse que não é uma boa ideia, Rand. Ela explicou que isso deixaria todos desconfiados e furiosos, achando que somos esnobes. Precisamos evitar suspeitas até que Mat e Hurin encontrem o que quer que seja.

— Eu ouvi o que ela disse tão bem quanto você, Loial. Mas ainda acho que, se Barthanes é um Amigo das trevas, ele deve saber por que estamos aqui. Passear por aí sozinho é quase pedir para levar uma pancada na cabeça e acabar desacordado.

— Verin falou que Barthanes não fará nada até descobrir se podemos ser úteis. Só faça o que ela mandou, Rand. As Aes Sedai sabem o que fazem.

Dizendo isso, Loial adentrou a multidão, e alguns nobres já se agrupavam a seu redor antes mesmo que conseguisse avançar dez passos.

Outros vieram em direção a Rand, assim que ele ficou sozinho, mas ele se virou para o outro lado e se afastou depressa. As Aes Sedai até podem saber o que fazem, mas eu não, e gostaria de saber. Não gosto nada disso. Luz, eu queria conseguir perceber se ela está falando a verdade. Aes Sedai nunca mentem, mas a verdade pode não ser a que você pensa que ouviu.

Ele continuou andando pela mansão, para evitar ter que conversar com os nobres. Havia muitos outros aposentos, todos cheios, e todos com atrações: três menestréis em seus mantos, outros malabaristas, acrobatas e mais: músicos tocavam lautas, sabiolas, saltérios e alaúdes, cinco tamanhos diferentes de rabeca, seis tipos de trombeta, retas curvas ou enroladas, e dez tamanhos de tambores, de surdos a tamboretes. Ele parou para olhar alguns dos trombeteiros, em especial os que tocavam trombetas enroladas, mas os instrumentos eram todos simples, de bronze.

Eles não deixariam a Trombeta de Valere às vistas de todos, seu tolo , pensou. A não ser que Barthanes queira convocar heróis mortos para fazerem parte do entretenimento.

Havia até mesmo um bardo, usando botas tairenas trabalhadas em prata e um casaco amarelo, que circulava os salões dedilhando sua harpa e, às vezes, parando para declamar em Alto Canto. Ele olhava os menestréis com desdém e não se demorava nos aposentos em que eles estavam, mas Rand notou pouca diferença entre eles, além das roupas.

De repente, Rand percebeu que Barthanes andava a seu lado. Na mesma hora, um serviçal de libré ofereceu sua bandeja de prata com uma reverência. Barthanes pegou uma taça de cristal cheia de vinho. Andando de costas à frente deles, ainda curvado, o serviçal manteve a bandeja erguida na direção de Rand até ele negar com um gesto de cabeça, então desapareceu na multidão.

— Você parece inquieto — comentou Barthanes, bebericando seu vinho.

— Gosto de andar. — Rand pensou em como seguir o conselho de Verin, e lembrando-se do que a Aes Sedai dissera sobre sua visita à Amyrlin, assumiu a postura Gato Cruza o Pátio. Não conhecia jeito mais arrogante que aquele de andar. Barthanes comprimiu os lábios, e Rand achou que o lorde talvez achasse o andar arrogante demais, mas o conselho de Verin era tudo o que ele tinha para se guiar, então continuou. Para quebrar um pouco a tensão, disse, em um tom amigáveclass="underline" — Uma festa excelente. Você tem muitos amigos, e nunca vi tantas atrações.

— Muitos amigos — concordou Barthanes. — Você pode contar a Galldrian quantos, e quem são. Alguns dos nomes poderiam surpreendê-lo.

— Nunca conheci o Rei, Lorde Barthanes, e não acredito que isso vá acontecer.

— Mas é claro. Você passou por aquela aldeiazinha suja apenas por acaso. Decerto não estava avaliando o progresso da recuperação da estátua. Uma grande empreitada, aquela.

— Sim. — Começara a pensar em Verin outra vez, desejando que ela tivesse dado algum conselho sobre como se dirigir com um homem que presumia que ele estivesse mentindo. Acrescentou, sem pensar: — É perigoso mexer com as coisas da Era das Lendas quando não se sabe o que está fazendo.

Barthanes fitou o próprio vinho, re fletindo, como se Rand tivesse acabado de dizer algo muito profundo.

— Está dizendo que não apoia Galldrian nisso? — perguntou, por fim.

— Já lhe disse: nunca conheci o Rei.

— Sim, é claro. Não sabia que vocês, andorianos, jogavam tão bem o Grande Jogo. Não se vê muitos do seu povo aqui em Cairhien.

Rand respirou fundo para se impedir de responder ao homem, irritado, que não estava jogando o Jogo deles.

— Há muitas barcaças de grãos vindas de Andor, no rio.

— Mercadores e comerciantes. Quem nota gente como essa? É como notar besouros nas folhas. — A voz de Barthanes demonstrava um desprezo igual por besouros e mercadores, mas ele franziu a testa outra vez, como se Rand tivesse acabado de fazer uma alusão. — Não são muitos os que viajam em companhia de uma Aes Sedai. Você parece jovem demais para ser um Guardião. Imagino que Lorde Ingtar seja o Guardião de Verin Sedai, não?

— Somos quem dissemos ser — respondeu Rand, e fez uma careta. Menos eu.

Barthanes estudava o rosto de Rand quase sem disfarçar.

— Jovem. Jovem demais para carregar uma espada com a marca da garça.

— Tenho menos de um ano — respondeu Rand, sem pensar, e no mesmo instante desejou não tê-lo feito. A frase parecia tola a seus ouvidos, mas Verin dissera para agir como fizera com o Trono de Amyrlin, e aquela era a resposta que Lan lhe mandara dar. Um homem das Fronteiras considerava o dia do nome aquele em que recebera a espada.

— Então você é andoriano, mas foi treinado nas Terras da Fronteira. Ou foi treinado como Guardião? — Os olhos de Barthanes se estreitaram, analisando Rand. — Sei que Morgase tem apenas um filho. Ouvi dizer que se chama Gawyn. Você deve ser mais ou menos da idade dele.

— Já o conheci — respondeu Rand, com cautela.

— Esses olhos. Esse cabelo. Ouvi dizer que a linhagem real de Andor tem uma coloração quase Aiel nos cabelos e olhos.

Rand tropeçou, embora o chão fosse de mármore polido.

— Não sou Aiel, Lorde Barthanes, nem da linhagem real.

— Como queira. Você me deu muito em que pensar. Acredito que vamos nos entender quando tivermos outra oportunidade de conversar. — Barthanes balançou a cabeça e ergueu a taça em uma pequena saudação, então se virou para conversar com um homem grisalho com muitas listras coloridas no casaco.

Rand sacudiu a cabeça e continuou a andar, evitando mais conversas. Já fora ruim o bastante ter que falar com um lorde cairhieno, não queria se arriscar com mais um. Barthanes parecia encontrar significados profundos nos comentários mais triviais. Rand percebeu que acabara de aprender o suficiente sobre Daes Dae’mar para saber que não fazia ideia de como se jogava. Mat, Hurin, encontrem alguma coisa rápido, para sairmos daqui. Essas pessoas são loucas.

Até que entrou em outro aposento e reparou que o menestrel do outro lado do salão, dedilhando sua harpa e recitando uma história da Grande Caçada à Trombeta , era Thom Merrilin. Rand parou de andar. Thom não pareceu vê-lo, embora seu olhar tivesse passado por ele duas vezes. Parecia que Thom havia falado sério. Uma separação completa.

Rand se virou para se afastar, mas uma mulher se pôs em sua frente com muita graça e encostou uma das mãos em seu peito. Rendas pendiam de seu pulso delicado. A cabeça dela mal alcançava os ombros de Rand, mas o penteado alto com cachos chegava à altura de seus olhos. O colarinho alto do vestido fazia babados de renda se aglomerarem sob o queixo dela, e as listras na frente do vestido azul-escuro iam até logo abaixo dos seios.

— O meu nome é Alaine Chuliandred, e você é o famoso Rand al’Thor. Acredito que Barthanes tenha o direito de conversar com você primeiro, estando em sua própria mansão, mas ficamos todos fascinados com o que ouvimos a seu respeito. Ouvi dizer até que você toca flauta. Seria verdade?