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Uma Mensagem das Trevas

— Vocês encontraram? — perguntou Rand enquanto seguia Hurin, descendo um estreito lance de escadas. As cozinhas ficavam nos andares de baixo, e os serviçais que acompanhavam os convidados haviam sido mandados para lá. — Ou Mat está machucado de verdade?

— Ah, está tudo bem com Mat, Lorde Rand. — O farejador franziu a testa. — Pelo menos ele fala como se estivesse tudo bem, e resmunga como alguém saudável. Não quis preocupá-lo, mas precisava de um motivo para trazer o senhor aqui embaixo. Encontrei o rastro. Foi fácil. Todos os homens que incendiaram a estalagem entraram em um jardim murado atrás da mansão. E os Trollocs foram com eles. Isso aconteceu ontem, eu acho. Talvez até mesmo anteontem à noite. — Ele hesitou. — Lorde Rand, eles não saíram mais. Ainda devem estar lá dentro.

Ali no pé da escada dava para ouvir o som dos serviçais se divertindo, o som de risadas e cantoria. Alguém tocava uma sabiola, tirando um som rouco que acompanhava as palmas e os passos de dança. Não havia paredes enfeitadas ou tapetes por ali, apenas pedra nua e um revestimento de madeira simples. A luz nos corredores vinha de tochas rústicas que deixavam o teto cheio de fumaça, com tanto espaço entre elas que a luz era mais fraca no meio.

— Fico feliz por você ter voltado a falar com naturalidade comigo — comentou Rand. — Depois daquele monte de reverências, estava começando a pensar que você era mais cairhieno que os próprios cairhienos.

Hurin corou.

— Bem, quanto a isso… — Ele olhou de relance na direção da origem do barulho, no fim do corredor, e pareceu querer cuspir. — Eles fingem ser tão educados, mas… Lorde Rand, todos dizem que são leais a seus mestres ou mestras, mas insinuam que estão dispostos a vender o que sabem ou o que ouviram. E depois de alguns copos, quando decidem contar as coisas baixinho, sussurrando em seu ouvido, os segredos que revelam sobre seus senhores deixariam você de cabelos em pé. Eu sei que eles são cairhienos, mas nunca ouvi falar de uma coisa dessas.

— Em breve estaremos longe daqui, Hurin. — Rand esperava que aquilo fosse verdade. — Onde ica esse jardim? — Hurin virou em um corredor lateral que levava aos fundos da mansão. — Você já trouxe Ingtar e os outros aqui embaixo?

O farejador negou com a cabeça.

— Lorde Ingtar se deixou encurralar por seis ou sete daquelas senhoras que se dizem damas. Não consegui chegar perto o bastante pra falar com ele. E Verin Sedai estava com Barthanes. Pelo olhar que ela me lançou quando cheguei perto, preferi nem tentar contar o que tinha acontecido.

Dobraram outro corredor, e lá estavam Loial e Mat. O Ogier precisava ficar um pouco curvado por causa do teto baixo.

O sorriso de Loial ia de orelha a orelha.

— Ah, aí está você! Nunca fiquei tão feliz em escapar de alguém quanto daquela gente lá em cima. Eles ficavam me perguntando se os Ogier voltariam, se Galldrian concordara em pagar o que devia. Parece que todos os construtores Ogier foram embora porque Galldrian parou de pagá-los, a não ser com promessas. Eu disse várias vezes que não sabia nada a respeito, mas metade pareceu achar que eu estava mentindo, e a outra metade, que eu estava insinuando alguma coisa.

— Logo iremos embora daqui — assegurou Rand. — Mat, você está bem? — O rosto do rapaz parecia ainda mais encovado do que ele se lembrava, mesmo na estalagem, e suas maçãs do rosto estavam mais proeminentes.

— Estou me sentindo bem — respondeu Mat, ranzinza —, mas certamente não tive problemas em deixar os outros serviçais. Os que não me perguntavam se você me deixava passar fome pensavam que eu estava doente, e aí não queriam chegar muito perto.

— Você sentiu a presença da adaga? — perguntou Rand.

Mat negou com a cabeça, carrancudo.

— A única coisa que senti foi que havia alguém me observando quase o tempo todo. Essa gente é tão ruim quanto os Desvanecidos, em matéria de espreitar. Que me queime! Meu coração quase saiu pela boca quando Hurin disse que tinha encontrado o rastro dos Amigos das Trevas. Rand, eu não consigo sentir nada, e procurei do porão ao sótão desse prédio maldito.

— Isso não signi ica que ela não está aqui, Mat. Eu a coloquei no baú junto com a Trombeta, lembra? Talvez isso o impeça de senti-la. Acho que Fain não sabe abrir o baú, ou não teria se dado ao trabalho de carregar aquele peso, mesmo quando fugiu de Fal Dara. Todo aquele ouro é insignificante perto da Trombeta de Valere. Quando a encontrarmos, também encontraremos a adaga. Você vai ver.

— Desde que eu não precise mais que fingir que sou seu serviçal… — resmungou Mat. — E desde que você não enlouqueça e… — Ele apertou os lábios e não terminou a frase.

— Rand não está louco, Mat — respondeu Loial. — Os cairhienos jamais o deixariam entrar aqui se ele não fosse um Lorde. Eles é que são os loucos.

— Eu não estou louco — retrucou Rand, ríspido. — Ainda não. Hurin, me mostre esse jardim.

— Por aqui, Lorde Rand.

Eles saíram para a noite, atravessando uma porta tão pequena que Rand precisou se curvar para passar, e Loial foi forçado a se agachar e encolher os ombros. Havia luz amarelada suficiente vindo das janelas acima para que Rand conseguisse divisar paredes de tijolos entre os canteiros de flores quadrados. As sombras dos estábulos e de outros prédios próximos se confundiam na escuridão, dos dois lados. Fragmentos de música chegavam até ali, tanto vinda dos serviçais se divertindo, abaixo, quanto das pessoas que entretinham a nobreza, acima.

Hurin os guiou pelos rastros do jardim até não haver resquício nem mesmo da luz mais pálida, e eles precisavam da luz do luar para divisar o caminho, enquanto as botas raspavam suavemente nos tijolos. Os arbustos, que teriam parecidos exuberantes e cheios de flores à luz do dia, eram montes de formas estranhas no escuro. Rand mantinha mão na espada e não permitia que seus olhos se detivessem em qualquer ponto. Uma centena de Trollocs podia estar ao redor deles, sem ser vista. Ele sabia que Hurin teria sentido o cheiro dos Trollocs, se eles estivessem próximos, mas saber aquilo não era de muita ajuda. Se Barthanes era um Amigo das Trevas, então pelo menos alguns de seus serviçais e guardas também eram, e Hurin nem sempre conseguia farejá-los. Não seria muito melhor se os Amigos das Trevas saíssem das sombras, em vez dos Trollocs.

— Ali, Lorde Rand — sussurrou Hurin, apontando.

À frente, erguia-se um muro de pedra um pouco mais alto que a cabeça de Loial, formando um quadrado de no máximo cinquenta passos de lado. Rand não conseguia ter certeza no escuro, mas parecia que os jardins se estendiam além da construção. Perguntou-se por que Barthanes teria uma seção murada no meio do próprio jardim. Não se via qualquer telhado nas paredes. Por que eles entrariam e ficariam ali?

Loial se curvou para falar no ouvido de Rand.

— Eu disse a você que isso aqui já foi um bosque Ogier, um dia. Rand, o Portal dos Caminhos fica atrás desse muro. Eu posso sentir.

Rand ouviu Mat suspirar, perdendo as esperanças.

— Não podemos desistir, Mat — disse.

— Não estou desistindo. Só sou inteligente o bastante para não querer viajar outra vez pelos Caminhos.

— Pode ser que a gente precise fazer isso — retrucou Rand. — Vá atrás de Ingtar e Verin. Dê um jeito de falar com eles a sós, não importa como, e avise que acho que Fain fugiu por um Portal dos Caminhos com a Trombeta. Não deixe mais ninguém ouvir. E lembre-se de mancar: todos acham que você sofreu uma queda.

Ficava admirado por alguém se arriscar pelos caminhos, até mesmo Fain, mas aquela parecia ser a única resposta. Eles não ficariam um dia e uma noite simplesmente sentados ali, a céu aberto.

Mat curvou-se em uma grande reverência, e sua voz estava carregada de sarcasmo.