— Conheço. — Fain deixou uma mensagem? Rand examinou o grande salão ao redor. Mat, Verin e os outros esperavam perto da porta. Serviçais de libré aguardavam, rijos, ao longo das paredes, prontos para saltar à primeira ordem, mas parecendo não ver nem ouvir o que se passava. Os sons da festa chegavam até ele, vindos do interior da mansão. Não parecia um lugar propício a ataques de Amigos das Trevas. — Que mensagem?
— Ele diz que esperará por você na Ponta de Toman. Ele tem o que você procura, e, se quiser de volta, terá que segui-lo. Caso você se recuse, ele diz que caçará seu sangue, sua gente e os que você ama até que você o enfrente. Parece loucura, claro, um homem como aquele dizendo que vai caçar um lorde. Mas há algo estranho nele. Acho que ele é mesmo louco. Chegou a negar que você fosse um lorde, mesmo quando qualquer um pode ver a verdade… Mas ainda tinha alguma coisa. O que é que ele leva consigo, que precisa de Trollocs para guardar? O que é que você procura? — Barthanes parecia chocado com a franqueza das próprias perguntas.
— Que a luz o ilumine, Lorde Barthanes. — Rand conseguiu fazer uma reverência, mas estava com as pernas tremendo quando se juntou a Verin e aos demais. Ele quer que eu o siga? E vai ferir as pessoas do Campo de Emond e Tam, se eu não o seguir. Não tinha dúvidas de que Fain poderia fazê-lo e de que o faria. Pelo menos Egwene está a salvo na Torre Branca. Teve visões nauseantes de hordas de Trollocs marchando sobre Campo de Emond, de Desvanecidos sem olhos espreitando Egwene. Mas como segui- lo? Como?
Percebeu que já estava do lado de fora, montando Vermelho. Verin, Ingtar e os outros estavam em seus cavalos, e a escolta de shienaranos se agrupava ao redor deles.
— O que você descobriu? — exigiu saber Verin. — Onde ela está?
Hurin pigarreou alto, e Loial se remexeu na sela alta. A Aes Sedai os fitou.
— Fain usou um Portal dos Caminhos para levar a Trombeta até a Ponta de Toman — respondeu Rand, apático. — A esta altura ele já deve estar lá me esperando.
— Falaremos disso mais tarde — respondeu Verin, com tanta firmeza que ninguém mais conversou no caminho de volta à Grande Árvore.
Uno os deixou, depois de uma ordem discreta de Ingtar, levando os soldados de volta para a estalagem em Portão da Frente. Hurin precisou apenas olhar o rosto decidido de Verin, à luz do salão, para murmurar alguma coisa sobre tomar uma cerveja e recolher-se a uma mesa em um canto, sozinho. A Aes Sedai dispensou os cumprimentos solícitos da estalajadeira que esperava que ela tivesse se divertido e, em silêncio, levou Rand e os demais à sala de jantar reservada.
Perrin ergueu os olhos de As Jornadas de Jain, o Viajante quando eles entraram e franziu a testa ao notar suas expressões.
— Acho que não deu muito certo, não é? — perguntou, fechando o livro encadernado em couro.
Lampiões e velas espalhados pela sala iluminavam bem o ambiente. Madame Tiedra cobrava caro, mas não economizava.
Verin dobrou o xale com muito cuidado e o pendurou no espaldar de uma cadeira.
— Conte outra vez. Os Amigos das Trevas levaram a Trombeta por um Portal dos Caminhos? Na mansão de Barthanes?
— O terreno da mansão já foi um bosque Ogier — explicou Loial. — Quando construímos… — As palavras se perderam em sua boca, e suas orelhas baixaram sob o olhar da Aes Sedai.
— Hurin os seguiu direto até o Portal. — Rand se jogou, cansado, em uma cadeira. Agora, mais do que nunca, preciso seguir Fain. Mas como? — Eu o abri, para mostrar a ele que ainda podíamos seguir a trilha não importava onde fossem, e o Vento Negro estava lá e tentou nos alcançar. Loial conseguiu fechar o Portal antes que aquilo se libertasse completamente. — Ele ruborizou um pouco na última parte, mas era verdade: Loial fechara o Portal. Até onde sabia, Machin Shin poderia ter se libertado se o Ogier não tivesse agido. — O Vento estava de guarda.
— O Vento Negro — Mat suspirou, parando a meio caminho de uma cadeira.
Perrin também fitava Rand, assim como Verin e Ingtar. Mat caiu na cadeira com um estrondo.
— Você deve estar enganado — respondeu Verin, por fim. — Machin Shin não poderia ser usado como guarda. Ninguém pode forçar o Vento Negro a fazer o que quer que seja.
— Aquilo é uma coisa do Tenebroso — retrucou Mat, entorpecido. — E eles são os Amigos das Trevas. Talvez saibam como pedir a ajuda dele ou fazê-lo ajudar.
— Ninguém sabe bem o que é Machin Shin — respondeu Verin —, a não ser, talvez, que é a essência da loucura e da crueldade. Não se pode argumentar com ele, Mat, nem negociar nem falar. Ele não pode sequer ser forçado a fazer algo. Nenhuma Aes Sedai viva conseguiria, e talvez nem mesmo qualquer uma que já tenha vivido. Você realmente acha que Padan Fain conseguiria fazer o que dez Aes Sedai não conseguem?
Mat negou com a cabeça.
Um clima de desesperança pairava na sala, um ar de fracasso. Agora que o objetivo desaparecera, até mesmo Verin tinha uma expressão hesitante.
— Nunca imaginei que Fain teria a coragem necessária para se aventurar pelos Caminhos. — Ingtar parecia quase sereno, mas socou a parede de repente. — Não me importa como, ou mesmo se, mas sei que Machin Shin trabalha a favor de Fain. Eles levaram a Trombeta de Valere pelos Caminhos, Aes Sedai. A esta altura já podem estar na Praga, a meio caminho de Tear ou Tanchico, ou do outro lado do Deserto Aiel. A Trombeta está perdida. Eu estou perdido. — Ele deixou as mãos caíram junto ao corpo, e seus ombros se curvaram. — Estou perdido.
— Fain está levando a Trombeta para a Ponta de Toman — disse Rand, tornando-se outra vez o centro das atenções.
Verin o estudou com um olhar de desconfiança.
— Você disse isso antes. Como sabe?
— Ele deixou uma mensagem com Barthanes — respondeu Rand.
— Um truque — disse Ingtar, com desdém. — Ele não nos diria para onde segui-lo.
— Não sei o que o resto de vocês planeja fazer — interrompeu-o Rand —, mas eu vou para a Ponta de Toman. Preciso ir. Parto com a primeira luz do dia.
— Mas Rand — retrucou Loial —, levaremos meses para chegar à Ponta de Toman. O que o faz pensar que Fain nos esperará por lá?
— Ele vai esperar. — Mas quanto tempo vai levar para pensar que eu não estou a caminho? Por que ele deixou aquilo de guarda se queria que eu seguisse? — Loial, pretendo cavalgar o mais rápido que puder, e, se Vermelho morrer, comprarei outro cavalo, ou roubarei um, se for preciso. Tem certeza de que quer vir comigo?
— Fiquei com você esse tempo todo, Rand. Por que o abandonaria agora? — Loial puxou o cachimbo e a bolsa e começou a encher a cuia de tabaco.— Sabe, eu gosto de você. E gostaria de você mesmo que não fosse ta’veren. Talvez eu goste de você apesar disso. Várias vezes até parece que você me deixa até o pescoço em água fervente. De qualquer forma, eu vou junto. — Ele sugou o pito para testar, então pegou um palito de um jarro de pedra sobre a lareira e o mergulhou na chama de uma vela, para acender o cachimbo. — E acho que você não pode me impedir.
— Bem, eu vou — acrescentou Mat. — Fain ainda está com a adaga, então eu vou. Mas essa história de serviçal acaba hoje.
Perrin suspirou, com uma expressão pensativa nos olhos amarelos.
— Acho que também vou. — Depois de um momento, sorriu. — Alguém precisa manter o Mat longe de problemas.
— E nem foi um truque inteligente — murmurou Ingtar. — Vou dar um jeito de me encontrar a sós com Barthanes, então descobrirei a verdade. Meu objetivo é recuperar a Trombeta de Valere, não perseguir uma história furada.