— Um presente maravilhoso. — Os olhos de Turak se ergueram do baú para Fain. Um aroma de rosas emanava do Grão-lorde. — Contudo, há uma pergunta naturaclass="underline" como alguém como você se apossou de um baú pelo qual muitos lordes menores não conseguiriam pagar? Você é um ladrão?
Fain deu um puxão na túnica desgastada e não muito limpa.
— Às vezes é necessário que um homem aparente ser menos do que é, Grão-lorde. Meu presente desalinho me permitiu trazer-lhe esse presente sem ser incomodado. O baú é antigo, Grão-lorde, antigo como a Era das Lendas, e dentro dele jaz um tesouro no qual poucos já puseram os olhos. Logo, em pouquíssimo tempo, serei capaz de abri-lo e dar-lhe aquilo que o permitirá tomar estas terras até onde desejar. Até a Espinha do Mundo, o Deserto Aiel e as terras além. Nada poderá resistir, Grão-lorde, uma vez que eu… — Ele parou de falar quando Turak começou a passar os dedos com unhas longas por sobre o baú.
— Já vi baús como este, baús da Era das Lendas — falou o Grão-lorde —, embora nenhum tão re finado. São feitos para serem abertos apenas pelos que conhecem a combinação, mas eu… Ah! — Turak fez alguma pressão entre as voltas e saliências ornamentadas, até que ouviu-se um clique e ele levantou a tampa. Um vislumbre do que se poderia considerar decepção passou por seu rosto.
Fain mordeu a própria bochecha até sangrar para se impedir de rosnar. Não ter sido a pessoa a abrir o baú prejudicava seu poder de barganha. Ainda assim, tudo o mais poderia correr conforme o plano se ele conseguisse se obrigar a ser paciente. Mas já fora paciente por muito tempo.
— Estes são tesouros da Era das Lendas? — indagou Turak, erguendo a Trombeta em uma das mãos e a adaga curva com o rubi encrustado no cabo de ouro na outra. Fain cerrou os punhos ao lado do corpo para não agarrar a adaga. — A Era das Lendas — repetiu Turak, em voz baixa, percorrendo a inscrição prateada gravada no pavilhão dourado da Trombeta com a ponta da lâmina da adaga. Suas sobrancelhas se ergueram com o espanto, a primeira expressão espontânea que Fain via nele. Mas, no instante seguinte, o rosto de Turak estava inexpressivo como sempre. — Você faz alguma ideia do que isso é?
— A Trombeta de Valere, Grão-lorde — respondeu Fain, muito calmo, feliz em ver o homem de trança ficar boquiaberto.
Turak limitou-se a assentir, como se balançasse a cabeça para si mesmo.
O Grão-lorde se virou. Fain piscou, surpreso, e chegou a abrir a boca para falar. Então, diante de um gesto firme do louro, seguiu os dois em silêncio.
Era mais uma sala sem nada da mobília original, que fora substituída por biombos e uma única cadeira voltada para um armário redondo. Ainda segurando a Trombeta e a adaga, Turak olhou para o armário, e então para o lado. Não disse uma palavra, mas o outro Seanchan deu ordens rápidas, e, em instantes, apareceram homens vestindo túnicas simples de lã, vindos de uma porta atrás dos biombos, trazendo uma pequena mesa. Uma jovem de cabelos tão claro que eram quase brancos veio atrás deles, com os braços cheios de pequenos suportes de madeira polida, de diversas formas e tamanhos. A roupa dela era de seda branca, tão fina que Fain conseguia ver o corpo da jovem através do tecido, mas ele tinha olhos apenas para a adaga. A Trombeta era um meio para um fim, mas a adaga era parte dele.
Turak tocou muito brevemente um dos suportes de madeira que a garota segurava, e ela o colocou no centro da mesa. Os homens giraram a cadeira para que ficasse de frente para ela, sob a orientação do homem de trança. Os cabelos dos serviçais inferiores iam até os ombros. Eles se retiraram mais do que depressa, com reverências tão profundas que suas cabeças quase tocavam os joelhos.
Turak colocou a Trombeta no suporte de modo a deixá-la na vertical, então posicionou a adaga de frente para ela sobre a mesa e se sentou na cadeira.
Fain não conseguiu mais aguentar. Estendeu a mão para pegar a adaga.
O louro segurou seu pulso em um aperto esmagador.
— Seu cão barbado! Saiba que a mão que toca a propriedade do Grão-lorde sem autorização é cortada!
— Ela é minha — rosnou Fain. Paciência! Tanto tempo…
Turak, reclinando em sua cadeira, ergueu uma unha pintada de azul. Com isso, Fain foi retirado do caminho, para que o Grão-lorde pudesse ver a Trombeta sem obstruções.
— Sua? — indagou Turak. — Dentro de um baú que você não conseguia abrir? Se achá-lo interessante, posso lhe dar a adaga. Mesmo que ela seja da Era das Lendas, não, esse tipo de coisa não me chama a atenção. Antes de mais nada você vai me responder uma pergunta. Por que trouxe a Trombeta de Valere para mim?
Fain olhou desejosamente para a adaga uma última vez, então libertou seu pulso e o massageou ao fazer uma reverência.
— Para que o Grão-lorde a toque. Então, poderá conquistar toda esta terra, se desejar. Todo o mundo. Poderá destruir a Torre Branca e transformar as Aes Sedai em pó, pois mesmo os poderes delas não são capazes de deter os heróis que voltarem dos mortos.
— Eu devo tocá-la. — A voz de Turak não traía qualquer sentimento. — E destruir a Torre Branca. Mais uma vez, por quê? Você a firma obedecer, aguardar e servir, mas esta é uma terra de traidores. Por que me entrega sua terra? Você tem alguma desavença especial com essas… mulheres?
Fain tentou tornar sua voz convincente. Paciente, como um verme vindo de dentro.
— Grão-lorde, minha família tem uma tradição, passada de geração em geração. Servimos ao Grão-rei Artur Paendrag Tanreall, e, quando ele foi assassinado pelas bruxas de Tar Valon, não abandonamos nossos juramentos. Enquanto outros guerreavam e despedaçavam o que Artur Asa-de-gavião construiu, nos agarramos a nossas promessas e sofremos por isso, mas ainda assim as respeitamos. Esta é nossa tradição, Grão-lorde, passada de pai para filho e de mãe para ilha ao longo dos anos, desde que Artur Asa-de-gavião foi assassinado. Aguardamos o retorno dos exércitos que Artur Asa-de-gavião enviou ao outro lado do Oceano de Aryth, aguardamos o retorno do sangue de Artur Asa-de-gavião para destruir a Torre Branca e recuperar o que foi do Grão-rei. E, quando o sangue de Asa-de-gavião retornar, serviremos e aconselharemos, como fizemos pelo Grão-rei. Grão-lorde: exceto pela borda, o estandarte que tremula sobre este telhado é o de Luthair, o filho de Artur Paendrag Tanreall, enviado com seus exércitos para o outro lado do oceano. — Fain caiu de joelhos, em uma boa imitação de alguém arrebatado. — Grão-lorde, desejo apenas servir e aconselhar o sangue do Grão-rei.
Turak ficou em silêncio por tanto tempo que Fain começou a se perguntar se ele precisava de mais convencimento. Estava pronto para mais, tanto quanto fosse necessário. Finalmente, contudo, o Grão-lorde falou.
— Você parece saber o que ninguém, nem ilustre, nem humilde, pôde nos dizer desde que avistamos esta terra. Aqui, fala-se disso como um rumor entre dez outros, mas você sabe. Posso ver em seus olhos, ouvir em sua voz. Eu quase poderia acreditar que você foi enviado aqui para me fazer cair em uma armadilha. Mas quem, de posse da Trombeta de Valere, a usaria dessa forma? Nenhum dos do Sangue que vieram com o Hailene poderia possuir a Trombeta, pois a lenda diz que ela estava escondida nesta terra. E certamente qualquer lorde daqui a usaria contra mim em vez de colocá-la em minhas mãos. Como você se apossou da Trombeta de Valere? Você a firma ser um herói, como na lenda? Já realizou feitos valorosos?
— Não sou herói, Grão-lorde. — Fain arriscou um sorriso modesto, mas a expressão de Turak não se alterou, e ele desistiu. — A Trombeta foi encontrada por um ancestral meu durante o tumulto após a morte do Grão-rei. Ele sabia abrir o baú, mas esse segredo morreu com ele na Guerra dos Cem Anos, que fragmentou o império de Artur Asa-de-gavião. De modo que tudo que nós, seus descendentes, sabíamos era que a Trombeta jazia ali dentro. E que deveríamos mantê-la em segurança até que o sangue do Grão-rei retornasse.