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— Eu seria quase capaz de acreditar em você.

— Acredite, Grão-lorde. Quanto tiver tocado a Trombeta…

— Não estrague o quanto já conseguiu ser convincente. Eu não tocarei a Trombeta de Valere. Quando retornar a Seanchan, eu a apresentarei à Imperatriz como o maior de meus troféus. Talvez a própria Imperatriz a toque.

— Mas — protestou Fain — o Grão-lorde precisa… — Ele se viu prostrado de lado, com os ouvidos zumbindo. Somente quando sua visão clareou foi que pôde ver o homem da trança loura massageando os nós dos dedos e se deu conta do que acontecera.

— Algumas palavras — disse o sujeito, com suavidade —, jamais são usadas com o Grão-lorde.

Fain decidiu como aquele homem morreria.

Turak olhou de Fain para a Trombeta com muita calma, como se não tivesse visto a cena.

— Talvez eu o entregue à Imperatriz junto com a Trombeta de Valere. Ela deve achar interessante ver um homem que a firma que a própria família permaneceu fiel enquanto todos os outros quebraram os juramentos ou os esqueceram.

Fain escondeu seu júbilo enquanto voltava a ficar de pé. Ele sequer soubera da existência de uma Imperatriz até Turak mencioná-la, mas acesso a outro governante… aquilo abriria novos caminhos, novos planos. Acesso a uma governante com o poder dos Seanchan a seus pés e a Trombeta de Valere nas mãos. Muito melhor do que transformar aquele Turak em um Grão-rei. Ele podia aguardar algumas partes de seu plano. Calma. Não deve deixá-lo ver o quanto você quer isso. Depois de tanto tempo, um pouquinho mais de paciência não vai doer.

— Como o Grão-lorde desejar — disse, tentando soar como um homem que quer apenas servir.

— Você parece quase ansioso — retrucou Turak, e Fain mal reprimiu um sobressalto. — Contarei a você por que não vou tocar a Trombeta de Valere, nem sequer ficar com ela, e talvez isso cure sua ansiedade. Não quero que um presente meu ofenda a Imperatriz com suas ações. Se essa sua ansiedade não puder ser curada, ela jamais será satisfeita, pois você jamais deixará estas terras. Você sabia que a pessoa que tocar a Trombeta de Valere estará ligada a ela a partir do momento em que a soar? Que, enquanto essa pessoa viver, ela não será mais do que uma trombeta comum para qualquer outro? — Ele não parecia esperar respostas, e, de qualquer forma, não parou para ouvi-las. — Sou o décimo segundo na linha de sucessão para o Trono de Cristal. Se eu ficasse com a Trombeta de Valere, todos entre o Trono e eu pensariam que tenho pretensões de ser o primeiro. E, embora seja claro que a Imperatriz deseja que disputemos uns com os outros para que os mais fortes e mais astutos a sucedam, por hora ela favorece sua segunda ilha, Tuon. E não ficaria feliz com qualquer ameaça a ela. Se eu a tocasse, mesmo que pusesse esta terra aos pés dela e encoleirasse todas as mulheres da Torre Branca, a Imperatriz, que ela viva para sempre, decerto pensaria que eu pretendo ser mais do que apenas um herdeiro.

Fain esteve prestes a dizer que aquilo seria possível com a ajuda da Trombeta, mas se conteve. Algo na voz do Grão-lorde sugeria, embora Fain tivesse dificuldade em acreditar, que ele realmente desejava que ela vivesse para sempre. Preciso ser paciente. Um verme nas raízes.

— Os Ouvidores da Imperatriz podem estar em qualquer lugar — continuou Turak. — Podem ser qualquer um. Huan é nascido e criado na Casa Aladon, assim como sua família, por onze gerações antes dele. Mas mesmo ele poderia ser um Ouvidor. — O homem de trança fez menção de protestar antes de voltar à imobilidade. — Até mesmo um grão-lorde ou grã-lady pode descobrir que seus segredos mais profundos são de conhecimento dos Ouvidores. Podem acordar e se ver entregues aos Inquiridores da Verdade. A verdade é sempre di ícil de encontrar, mas os Inquiridores não medem esforços na busca, e procurarão enquanto julgarem ser necessário. Eles fazem grandes esforços para que um grão-lorde ou grã-lady não morra sob seus cuidados, é claro, pois nenhuma mão pode matar alguém em cujas veias corre o sangue de Artur Asa-de-gavião. Se a Imperatriz precisa ordenar uma morte dessas, o infeliz é colocado vivo em um saco de seda, e o saco é pendurado na Torre dos Corvos e deixado lá até apodrecer. Não se tomaria tal cuidado com alguém como você. Na Corte das Nove Luas, em Seandar, alguém como você seria entregue aos Inquiridores apenas por um olhar, uma palavra mal colocada ou um capricho. Você ainda está ansioso?

Fain conseguiu fazer seus joelhos tremerem.

— Desejo apenas servir e aconselhar, Grão-lorde. Sei de muito que pode ser útil. — Aquela corte de Seandar parecia ser o tipo de lugar onde seus planos e habilidades encontrariam solo fértil.

— Até que eu retorne a Seanchan, você me divertirá com as histórias sobre sua família e sua tradição. É um alívio encontrar outro homem interessante nesta terra abandonada pela Luz, ainda que você e o primeiro estejam mentindo, como suspeito. Você pode ir. — Não foi dita qualquer outra palavra, mas a garota de cabelos quase brancos apareceu, com passos rápidos, para se ajoelhar de cabeça baixa ao lado do Grão-lorde, oferecendo-lhe um único copo sobre uma bandeja laqueada.

— Grão-lorde — disse Fain. O homem de trança segurou seu braço, mas ele o libertou com um puxão. Os lábios de Huan se crisparam, furiosos, quando Fain fez a reverência mais profunda que já fizera até então. Vou matá-lo devagar, sim. — Grão-lorde, há pessoas me perseguindo. Eles querem tomar a Trombeta de Valere. São os Amigos das Trevas e coisas piores, Grão-lorde, e não devem estar a mais de um ou dois dias atrás de mim.

Turak bebericou o líquido negro do copo ino, equilibrado nas pontas de seus dedos de unhas longas.

— Restam poucos Amigos das Trevas em Seanchan. Os que sobrevivem aos Inquiridores da Verdade encontram o machado do carrasco. Pode ser divertido conhecer um Amigo das Trevas.

— Grão-lorde, eles são perigosos. Trazem Trollocs consigo. São liderados por um homem que se chama Rand al’Thor. É jovem, porém mais vil na Sombra do que se pode acreditar, com uma língua mentirosa e diabólica. Em muitos lugares, a firmou ser muitas coisas, mas os Trollocs sempre aparecem quando ele está lá, Grão-lorde. Os Trollocs sempre vêm… e matam…

— Trollocs — disse Turak, pensativo. — Não havia Trollocs em Seanchan. Mas os Exércitos da Noite tinham outros aliados. Outras coisas. Já me perguntei muitas vezes se um grolm seria capaz de matar um Trolloc. Mandarei montarem guarda para evitar seus Trollocs e Amigos das Trevas, se é que eles não são outra mentira. Esta terra me deixa entediado. — Ele suspirou e inalou a fumaça do copo.

Fain deixou que Huan, carrancudo, o tirasse da sala, mal escutando os rosnados sobre o que aconteceria caso ele não saísse da presença do Grão-lorde Turak quando recebesse a permissão. Mal notou que foi empurrado para a rua com uma moeda e instruções para voltar no dia seguinte. Rand al’Thor era dele, agora. Finalmente o verei morto. E então o mundo vai pagar pelo que fizeram a mim.

Rindo baixinho, entre dentes, ele conduziu os cavalos, descendo pela cidade em busca de uma estalagem.

35

Pouso Tsofu

Depois de meio dia de cavalgada, as colinas à margem do rio onde se erguia a cidade de Cairhien deram lugar a terras mais planas e florestas. Os shienaranos continuavam a deixar as armaduras nos cavalos de carga, e Verin os pressionava para irem mais rápido. Ingtar cedia aos apelos da Aes Sedai, resmungando o tempo inteiro sobre estarem sendo enganados, afirmando que Fain nunca diria para onde estava indo de verdade, embora também reclamasse que estavam cavalgando no sentido oposto à Ponta de Toman como se parte dele achasse que o lugar ficava a meses de viagem apenas pelo caminho que haviam escolhido. O estandarte da Coruja Cinzenta tremulava ao vento enquanto seguiam, velozes.