Rand cavalgava com uma determinação taciturna, evitando conversar com Verin. Precisava fazer aquilo, cumprir seu dever, como Ingtar teria chamado, e então se veria livre das Aes Sedai de uma vez por todas. Perrin parecia partilhar um pouco de seu estado de espírito, olhando sempre para a frente, para o nada, enquanto cavalgavam. Quando finalmente pararam para passar a noite nos limites de uma floresta, já estava quase escuro. Perrin fez algumas perguntas a Loial, sobre os pousos. Trollocs não entrariam em um pouso, mas e lobos? Loial deu algumas respostas curtas, dizendo que apenas criaturas da Sombra relutavam em entrar naqueles lugares. E Aes Sedai, é claro, já que não conseguiam tocar a Fonte Verdadeira dentro de um, nem mesmo canalizar o Poder Único. O próprio Ogier parecia ser o mais relutante em ir ao Pouso Tsofu. Mat era o único que parecia ansioso, quase desesperado. Quem visse sua pele pensaria que ela não tomava sol havia um ano, e suas bochechas tinham começado a encovar, embora ele dissesse que se sentia pronto para disputar uma corrida. Verin colocou as mãos sobre ele para Curá-lo, antes de Mat dormir, e outra vez antes de montarem pela manhã, mas aquilo não fez diferença em sua aparência. Até mesmo Hurin franzia a testa ao olhar para Mat.
O sol já ia alto no segundo dia quando Verin se endireitou na sela, de repente, e olhou em volta. Ao lado dela, Ingtar levou um susto.
Rand não conseguia perceber nada de diferente na floresta que os cercava. A vegetação rasteira não era muito espessa, pois haviam encontrado um caminho mais fácil sob a copa de carvalhos, nogueiras e faias, pontilhadas aqui e ali por um pinheiro ou uma folha-de-couro mais altos, ou por uma pincelada branca de melaleucas. Mas, ao segui-los, sentiu um súbito calafrio percorrer seu corpo, como se tivesse pulado em uma lagoa da Floresta das Águas em pleno inverno. O arrepiou passou em um segundo, deixando para trás uma sensação de frescor, de renovação. E também havia uma leve sensação de perda, embora ele não conseguisse imaginar do quê.
Cada cavaleiro, ao chegar àquele ponto, estremecia ou soltava uma interjeição. O queixo de Hurin caiu, e Uno exclamou:
— Mas que… — Então sacudiu a cabeça, como se não conseguisse pensar e mais nada para dizer.
Havia uma expressão de reconhecimento nos olhos amarelos de Perrin. Loial soltou um longo suspiro.
— É uma sensação… boa… estar de volta em um pouso.
Franzindo a testa, Rand olhou em volta. Esperara que um pouso fosse um pouco diferente do ambiente ao redor, mas, exceto por aquele único calafrio, era a mesma floresta pela qual cavalgaram o dia todo. Havia uma súbita sensação de estar descansado, é claro. Então uma Ogier saiu de trás de um carvalho.
Ela era mais baixa que Loial, mas ainda assim a cabeça de Rand não chegava a seus ombros. Tinha o mesmo nariz largo e olhos grandes, a mesma boca larga e orelhas com tufos de pelos. No entanto, suas sobrancelhas não eram tão longas quanto as de Loial, e suas feições pareciam delicadas ao lado das dele, os tufos em suas orelhas pareciam mais macios. Ela usava um longo vestido verde e um casaco da mesma cor bordado com flores, e carregava um ramo de halesias como se estivesse ocupada em colhê-las. E os encarou com muita calma, esperando.
Loial mais do que depressa desmontou de seu cavalo alto e fez uma mesura. Rand e os outros fizeram o mesmo, embora não tão rápido. Até mesmo Verin inclinou a cabeça. Loial os apresentou de modo formal, mas não mencionou o nome de seu pouso.
Por um momento a garota Ogier, e Rand tinha certeza de que ela não era mais velha do que Loial, os analisou. Depois sorriu.
— Sejam bem-vindos ao Pouso Tsofu. — A voz dela era uma versão mais leve que a de Loial, um profundo zumbido de abelha, só que um pouco mais suave. — Sou Erith, ilha de Ila, ilha de Alar. Sejam bem-vindos. Temos tão poucos visitantes humanos desde que os Construtores deixaram Cairhien, e agora vejo tantos de uma vez! Ora, tivemos até alguns do Povo Errante, embora, é claro, eles tenham ido embora quando as… Ah, eu falo demais. Levarei vocês aos Anciões. Mas… — Ela olhou para o grupo, procurando um líder, e concluiu que devia ser Verin. — Aes Sedai, você traz tantos homens consigo, e armados… Poderia, por favor, deixar alguns lá Fora? Perdoe-me, mas é sempre inquietante ter tantos humanos armados no pouso de uma só vez.
— É claro, Erith — respondeu Verin. — Ingtar, pode providenciar isso?
Ingtar deu ordens a Uno, de forma que ele e Hurin foram os únicos shienaranos a seguir Erith pouso adentro.
Conduzindo o cavalo pela rédea, como os demais, Rand olhou para cima quando Loial se aproximou. O Ogier olhava bastante para Erith, que ia na frente com Verin e Ingtar. Hurin andava entre os dois grupos, olhando, maravilhado, embora Rand não soubesse ao certo para quê. Loial se curvou para falar em voz baixa.
— Ela não é linda, Rand? E a voz dela canta.
Mat riu, mas, quando Loial olhou interrogativamente para ele, apenas disse:
— É muito bonita, Loial. Meio alta demais para o meu gosto, entende? Mas muito bonita, tenho certeza.
Loial franziu a testa, incerto, mas assentiu.
— Sim, ela é. — A expressão dele ficou mais suave. — É mesmo uma sensação boa, estar de volta a um pouso. Não que a Saudade estivesse me afetando, sabe como é.
— A Saudade? — perguntou Perrin. — Não entendi, Loial.
— Nós, Ogier, somos ligados aos pousos, Perrin. Dizem que, antes da Ruptura do Mundo, podíamos ir aonde quiséssemos e passar quanto tempo desejássemos, assim como vocês humanos. Mas isso mudou. Os Ogier ficaram dispersos, assim como todos os outros povos, e não conseguiram encontrar nenhum dos pouso de novo. Tudo tinha se movido, tudo havia mudado. Montanhas, rios, até mesmo os mares.
— Todos sabem sobre a Ruptura — cortou Mat, impaciente. — O que isso tem a ver com essa… Saudade?
— Foi durante o exílio, quando vagávamos perdidos, a primeira vez que a Saudade se abateu sobre nós. O desejo de voltar aos pousos, de encontrar nossos lares outra vez. Muitos morreram por causa disso. — Loial sacudiu a cabeça, triste. — Tivemos mais mortos do que sobreviventes. Quando finalmente começamos a reencontrar os pousos, um de cada vez, durante os anos do Pacto das Dez Nações, parecia que havíamos finalmente derrotado a Saudade. Mas ela tinha nos modi ficado, deixado sementes em nós. Agora, se um Ogier ica do Lado de Fora por muito tempo, a Saudade retorna: ele começa a enfraquecer, e morre se não voltar.
— Você precisa ficar por aqui um tempo? — perguntou Rand, ansioso. — Não precisa se matar para vir conosco.
— Eu vou saber quando ela chegar — disse Loial, rindo. — Vai demorar bastante até ela ficar forte o suficiente para me causar qualquer mal. Ora, Dalar passou dez anos com o Povo do Mar, sem ver um único pouso, e voltou sã e salva para casa.
Uma Ogier apareceu em meio às árvores, parando um momento par falar com Erith e Verin. Ela olhou Ingtar de cima a baixo e pareceu desconsiderá-lo, o que o fez piscar, confuso. Os olhos dela passaram por Loial e relancearam para Hurin e todos de Campo de Emond, antes de ela voltar à floresta. Loial parecia estar tentando se esconder atrás do cavalo.
— Além disso — continuou ele, olhando para a Ogier com cautela, de trás da sela —, a vida é chata nos pousos, comparada a viajar com três ta’veren.
— Se você for começar com essa história de novo… — resmungou Mat, e Loial se corrigiu depressa:
— Três amigos, então. Vocês são meus amigos, espero.
— Eu sou — respondeu Rand, apenas, e Perrin assentiu.
Mat riu.
— Como eu poderia não ser amigo de alguém tão ruim nos dados? — Ele jogou as mãos para o alto com impaciência quando Rand e Perrin o fitaram. — Ah, tudo bem. Eu gosto de você, Loial. Você é meu amigo. Só não saia por aí… Aaagh! Às vezes é tão ruim ficar perto de você quanto de Rand. — A voz dele baixou a um murmúrio. — Pelo menos estamos a salvo aqui, em um pouso.