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Rand franziu a testa. Sabia o que Mat queria dizer. Aqui em um pouso, aqui onde eu não posso canalizar.

Perrin deu um soco no ombro de Mat, mas pareceu se arrepender quando Mat lhe retribuiu com uma careta com aquele rosto cadavérico.

A primeira coisa que Rand percebeu foi a música: lautas e rabecas em algum lugar da floresta tocavam uma canção animada, e vozes graves acompanhavam os instrumentos, cantando e rindo. Limpem o campo, aplainem o chão, Não deixem uma erva nem talo de pé, Aqui trabalhamos, aqui labutamos, As árvores altas aqui crescerão. Quase no mesmo instante, Rand percebeu que a forma imensa que via entre as árvores também era uma árvore, com um tronco sulcado de cerca de vinte passos de diâmetro e raízes enormes. Boquiaberto, ele olhou até a parte de cima, através do dossel da floresta, até galhos que se espalhavam em uma forma que lembrava o topo de um cogumelo gigante, uns bons cem passos acima do solo. Acima, eram ainda mais altos.

— Que me queime — exclamou Mat. — Dava para construir dez casas só com uma dessas. Cinquenta casas.

— Cortar uma Grande Árvore? — Loial pareceu escandalizado, e até mesmo um pouco furioso. Suas orelhas estavam rígidas, e as longas sobrancelhas chegavam às bochechas. — Jamais cortamos uma das Grandes Árvores. A menos que ela morra, e elas quase nunca morrem. Poucas sobreviveram à Ruptura, mas algumas das maiores que temos eram apenas sementes durante a Era das Lendas.

— Desculpe — disse Mat. — Eu só estava comentando como elas são grandes. Não vou machucar suas árvores.

Loial assentiu, parecendo mais tranquilo.

Mais Ogier surgiram, andando em meio às árvores. A maioria parecia se concentrar no que quer que estivessem fazendo. Embora todos olhassem para os recém-chegados, e até chegassem a balançar a cabeça de forma amigável ou fazer uma leve reverência, ninguém parou ou falou com eles. Tinham um modo curioso de se mover, que, de alguma forma, combinavam um jeito cuidadoso e deliberado com uma alegria despreocupada e quase infantil. Eles sabiam quem eram e onde estavam e gostavam disso, e pareciam em paz consigo mesmos e com tudo ao redor. Rand percebeu que os invejava.

Poucos dos mais velhos eram mais altos que Loial, mas era fácil identificá-los: todos tinham bigodes tão longos quanto as sobrancelhas e barbas curtas sob o queixo. Os mais jovens tinham o rosto liso, como Loial. Muitos dos Ogier vestiam camisas de manga e carregavam pás, picaretas, serras e baldes de piche. Os demais usavam casacos simples, abotoados até o pescoço, com pregas na cintura que lembravam saiotes. As mulheres pareciam preferir bordados de flores, e muitas também usavam flores no cabelo. Nas mais jovens, os bordados eram limitados aos casacos. Já as mais velhas tinham os vestidos bordados, também. E algumas, grisalhas, tinham flores e vinhas bordadas do pescoço à bainha. Algumas Ogier, a maioria mulheres e meninas, pareciam reparar em Loiaclass="underline" ele andava olhando bem para a frente, com as orelhas tremelicando cada vez mais, conforme avançavam.

Rand se assustou ao ver um Ogier que parecia ter saído do chão, de uma das elevações cobertas de grama e flores silvestres que se espalhavam por entre as árvores. Então percebeu algumas janelas nas elevações e uma Ogier atrás de uma delas, parecendo usar um rolo para amassar a massa de uma torta, e entendeu que estava olhando para moradias Ogier. As esquadrias das janelas eram de pedra, mas além de parecem formações naturais, também tinham o aspecto de algo esculpido pelo vento e pela água por gerações.

As Grandes Árvores, com seus troncos enormes e raízes que se espalhavam, grossas como cavalos, precisavam de muito espaço entre elas, mas várias cresciam no meio da cidadezinha. Rampas de terra batida davam nas próprias raízes. Na verdade, além das trilhas, a única coisa que diferenciava a cidadezinha da floresta, à primeira vista, era um grande espaço aberto no centro, em volta do que só podia ser o toco de uma das Grandes Árvores. Com quase cem passos de largura, a super ície do toco era tão polida quanto qualquer assoalho, com escadas levando a diversos pontos do interior. Rand estava tentando imaginar quão alta deveria ter sido aquela árvore quando Erith falou, alto o suficiente para que todos escutassem:

— Aí vêm nossas outras hóspedes.

Três humanas se aproximaram, contornando o imenso toco. A mais jovem carregava uma tigela de madeira.

— Aiel — disse Ingtar. — Donzelas da Lança. Foi bom mesmo eu ter deixado Masema com os outros. — Ainda assim, ele se afastou de Verin e Erith e levou a mão às costas, para desembainhar a espada.

Rand estudou as Aiel com uma curiosidade desconfortável. Elas eram o que muita gente, gente demais, tentara a firmar que ele era. Duas das mulheres eram mais maduras, a outra, pouco mais que uma menina, mas as três eram altas para mulheres. Seus cabelos curtos iam do castanho-acobreado até quase o dourado, com uma mecha fina que ia até a altura dos ombros nas costas. Usavam calças folgadas enfiadas em botas macias, e todas as roupas eram em tons de marrom, cinza ou verde. Ele achou que aqueles trajes se camuflariam em pedras ou na floresta quase tão bem quanto um manto de Guardião. Arcos curtos despontavam acima dos ombros, aljavas e facas longas pendiam de seus cinturões, e cada uma carregava um pequeno escudo redondo de couro e um feixe de lanças com cabos curtos e pontas longas. Mesmo a mais jovem se movia com uma graciosidade que indicava que sabia usar as armas que portava.

De repente, as mulheres os notaram: pareceram tão assustadas por estarem assustadas quanto por terem visto Rand e os outros, mas se moveram como um raio. A jovem gritou:

— Shienaranos! — E se virou para depositar a tigela no chão atrás de si com muito cuidado. As outras duas se levantaram depressa os panos marrons pendurados no pescoço, envolvendo a cabeça com eles, então cobriram o rosto com um véu negro, deixando apenas os olhos visíveis, e a outra se preparou para fazer o mesmo. Abaixadas, elas avançaram em um passo decidido, com os escudos cobrindo todas as lanças, a não ser as que empunhavam com a outra mão.

A espada de Ingtar deixou a bainha.

— Afaste-se, Aes Sedai. Erith, afaste-se. — Hurin sacou a quebra-espadas e ficou indeciso entre pegar o porrete e a espada com a outra mão. Então, depois de mais uma olhada nas lanças das Aiel, optou pela espada.

— Vocês não podem! — protestou a Ogier. De mãos unidas, ela se virava de Ingtar para as Aiel, e delas para ele. — Vocês não podem!

Rand percebeu que a lâmina com a marca da garça estava em suas mãos. Perrin já estava com metade do machado para fora do cinturão e hesitava, sacudindo a cabeça.

— Vocês dois são malucos? — indagou Mat. O arco dele permanecia preso em suas costas. — Não me importo se elas são Aiel. Elas são mulheres.

— Parem com isso! — ordenou Verin. — Parem com isso imediatamente! — As Aiel não se detiveram, e a Aes Sedai cerrou os punhos, frustrada.

Mat recuou, colocando um pé no estribo.

— Estou indo embora — anunciou. — Vocês estão me ouvindo? Eu não vou ficar para deixar que elas enfiem aquelas coisas em mim, e também não vou atirar em uma mulher!

— O Pacto! — gritava Loial. — Lembrem-se do Pacto!

Aquilo não teve mais efeito do que os apelos de Verin e Erith.

Rand percebeu que tanto a Aes Sedai quanto a Ogier se mantinham fora do caminho das Aiel. Ficou se perguntando se Mat tomara a melhor atitude. Não sabia ao certo se conseguiria ferir uma mulher, mesmo que ela estivesse de fato tentando matá-lo. O que o fez decidir foi o fato de que, mesmo que conseguisse chegar à sela de Vermelho, as Aiel já não estavam a mais de trinta passos. Ele suspeitava que aquelas lanças curtas podiam ser arremessadas àquela distância. Enquanto as mulheres se aproximavam, ainda agachadas, com as lanças a postos, ele parou de se preocupar em não feri-las e começou a se preocupar em como impedi-las de feri-lo.