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— Sinta só o cheiro desse ar, Lorde Rand — comentou Hurin, enchendo os pulmões com um sorriso. Os pés dele pendiam de uma das cadeiras à mesa, e o farejador os balançava, como um menino. — Eu nunca pensei que os lugares onde passei cheirassem mal, mas isso aqui… Lorde Rand, acho que nunca aconteceu um assassinato aqui. Nem mesmo agressões, a não ser por acidente.

— Os pousos são seguros para qualquer um — respondeu Rand. Estava observando Loial. — É o que as histórias dizem, de qualquer forma. — Ele engoliu o último pedaço de queijo branco e foi até o Ogier. Mat o seguiu com um cálice na mão. — O que houve, Loial? — perguntou. — Você está nervoso como um gato no canil desde que chegamos aqui.

— Não é nada — respondeu Loial, inseguro, olhando de relance para a porta.

— Você está com medo de que descubram que você deixou o Pouso Shangtai sem a permissão dos seus Anciões?

Loial olhou em volta, alarmado, com os tufos das orelhas tremendo.

— Não diga isso! — sibilou. — Não onde qualquer um poderia ouvir. Se eles descobrissem… — Com um longo suspiro, ele se deixou afundar na cadeira, olhando de Rand para Mat. — Não sei como vocês humanos fazem isso, mas, entre os Ogier… Se uma garota vê um garoto de quem gosta, ela fala com a mãe. Ou, às vezes, a mãe vê alguém que julga adequado. De qualquer forma, se elas concordarem, a mãe da garota vai à mãe do garoto, e quando ele se dá conta, está com o casamento arranjado.

— E o rapaz não tem voz nisso, não? — perguntou Mat, incrédulo.

— Nenhuma. As mulheres sempre dizem que, se deixassem por nossa conta, passaríamos a vida casados com as árvores. — Loial mudou de posição, carrancudo. — Metade dos nossos casamentos acontece entre pouso diferentes: grupos de Ogier jovens visitam diversos pouso para ver e serem vistos. Se descobrirem que estou aqui sem permissão, é quase certo que os Anciões decidam que eu preciso de uma esposa para sossegar. Quando eu der por mim, já terão enviado uma mensagem ao Pouso Shangtai, para minha mãe, e ela virá aqui me casar antes mesmo de tirar a poeira da viagem. Ela sempre disse que sou apressado demais e que preciso de uma esposa. Acho que ela já estava procurando quando eu saí. Qualquer esposa que ela escolha para mim… bem, qualquer esposa que seja não vai me deixar ir para o Lado de Fora até minha barba ficar grisalha. As mulheres dizem que não se deveria deixar um homem ir para o Lado de Fora até ele sossegar o suficiente para controlar o próprio temperamento.

Mat deu uma gargalhada alta o bastante para atrair todos os olhares, mas, com um gesto frenético de Loial, continuou, falando em voz baixa.

— Entre nós, os homens escolhem. E esposa alguma pode impedir um homem de fazer o que quer.

Rand franziu a testa, lembrando-se de como Egwene começara a segui-lo quando ambos eram pequenos. Fora nessa época que a Senhora al’Vere começara a se interessar por ele, mais do que pelos outros meninos. Nos últimos tempos, algumas garotas dançavam com ele nos festivais e outras não, e as que dançavam eram sempre amigas de Egwene. As que não dançavam eram garotas de quem Egwene não gostava. Também parecia se lembrar da Senhora al’Vere puxando Tam de lado… Reclamando que Tam não tinha uma esposa com quem ela pudesse falar!… E, depois disso, Tam e todos os outros passaram a agir como se ele e Egwene estivessem prometidos, mesmo não tendo se ajoelhado ante o Círculo das Mulheres para fazer os votos. Jamais havia pensado no que acontecera daquele jeito antes: as coisas entre ele e Egwene pareciam simplesmente sempre ter sido como eram, e pronto.

— Acho que fazemos do mesmo jeito — murmurou, e, quando Mat riu, acrescentou: — Você se lembra do seu pai já ter feito alguma coisa que sua mãe realmente não queria que ele fizesse?

Mat abriu a boca com um sorriso, então franziu a testa, pensativo, e voltou a fazer silêncio.

Juin entrou, descendo a escada.

— Será que todos podem vir comigo, por favor? — Os Anciões gostariam de vê-los. — Ele não olhou para Loial, mas mesmo assim ele quase deixou o livro cair.

— Se os Anciões tentarem fazer você ficar — comentou Rand —, diremos que precisamos que você vá conosco.

— Aposto que isso não tem nada a ver com você — concordou Mat. — Aposto que só vão dizer que podemos usar o Portal dos Caminhos. — Ele estremeceu, e sua voz ficou ainda mais grave. — Precisamos mesmo fazer isso, não é? — Não era uma pergunta.

— Ficar e me casar ou viajar pelos Caminhos. — Loial franziu a testa, com pesar. — A vida é muito perturbadora com amigos ta’veren.

36

Entre os Anciões

Enquanto eram conduzidos por Juin pela cidade dos Ogier, Rand percebeu que a ansiedade de Loial aumentava. As orelhas do amigo estavam tão rígidas quanto as costas, e os olhos ficavam maiores cada vez que Loial percebia outro Ogier olhando para ele, especialmente as mulheres e garotas, e um grande número delas o notava, aparentemente. Ele parecia estar esperando a própria execução.

O Ogier barbado indicou uma série de largos degraus que levavam para baixo, adentrando um monte gramado que era de longe o maior de todos. Era uma colina, para todos os efeitos, quase na base de uma das Grandes Árvores.

— Por que você não espera aqui fora, Loial? — sugeriu Rand.

— Os Anciões… — começou Juin.

— … provavelmente só querem ver o restante do grupo — completou Rand.

— Por que não o deixam em paz? — acrescentou Mat.

Loial assentiu vigorosamente.

— Sim, sim, acho que… — Algumas mulheres Ogier o observavam, de avós com cabelos brancos a jovens da idade de Erith. Diversas delas conversavam entre si, mas mantinham os olhos nele. As orelhas de Loial tremelicaram, mas ele olhou para a porta larga no final da escadaria e assentiu mais uma vez. — Sim, vou me sentar e ler. É isso. Vou ler. — Remexendo no bolso do casaco, ele puxou um livro. Então se sentou no monte, ao lado da escada, com o pequeno livro nas mãos e fixou o olhar nas páginas. — Vou me sentar aqui e ler até vocês saírem. — As orelhas tremelicavam como se ele pudesse sentir os olhares das mulheres.

Juin balançou a cabeça. Então deu de ombros e indicou outra vez a escada, com um gesto.

— Por favor. Os Anciões estão esperando.

O grande aposento sem janelas que ficava dentro do monte havia sido feito para Ogier, e tinha um teto de vigas grossas a mais de quatro braças de altura. Considerando o tamanho do aposento, eles poderiam estar em um palácio. Os sete Ogier sentados na plataforma que ficava de frente para a porta fizeram o aposento parecer um pouco menor, em comparação, mas Rand ainda se sentia como se estivesse em uma caverna. As pedras escuras do piso eram bem lisas, embora grandes e de formato irregular. As paredes, no entanto, podiam pertencer à lateral de um penhasco. As vigas do teto, entalhadas de um jeito rústico, lembravam grandes raízes.

Exceto pela cadeira de espaldar alto em que Verin se sentou, diante da plataforma, a única mobília eram as pesadas cadeiras com entalhes de vinhas dos Anciões. Havia uma mulher no meio da plataforma, sentada em uma cadeira um pouco mais elevada do que as outras. Três homens barbados estavam à sua esquerda, usando longos casacos folgados, e três mulheres à sua direita, com vestidos parecidos com o dela, com bordados de flores e vinhas da bainha até o pescoço. Todos tinham rostos idosos e cabelos completamente brancos, até nos tufos das orelhas, além de um ar de dignidade colossal.

Hurin não tentou esconder o fato de estar boquiaberto, e até Rand teve vontade de apenas encará-los, pasmo. Nem mesmo Verin tinha o mesmo ar de sabedoria que ele via nos grandes olhos dos Anciões. Nem Morgase, com sua coroa, tinha o mesmo ar de autoridade. E nem Moiraine tinha a mesma serenidade calma. Ingtar foi o primeiro a se curvar, e do modo mais formal que Rand já o vira fazer. Ele se mexeu enquanto todos ainda estavam plantados em seus lugares, estupefatos.