— O meu nome é Alar — apresentou-se a mulher sentada na cadeira mais alta, depois de eles finalmente irem para o lado de Verin. — Sou a Mais Velha dos Anciões do Pouso Tsofu. Verin nos contou que vocês precisam usar o Portal dos Caminhos daqui. Recuperar a Trombeta de Valere das mãos dos Amigos das Trevas é, de fato, uma grande necessidade. Mas não permitimos que ninguém viaje pelos Caminhos há mais de cem anos. Nem nós, nem os Anciões de qualquer outro pouso.
— Eu vou encontrar a Trombeta — retrucou Ingtar, irritado. — Eu preciso. Se vocês não nos deixarem usar o Portal dos Caminhos… — O homem fez silêncio ao receber um olhar de Verin, mas a expressão de desgosto permaneceu em seu rosto.
Alar sorriu.
— Não seja tão apressado, shienarano. Vocês humanos nunca param para pensar. Apenas as decisões tomadas com calma são acertadas. — O sorriso dela se desmanchou em uma expressão séria, mas sua voz manteve o tom calmo e ponderado. — Os perigos dos Caminhos não podem ser enfrentados com uma espada nas mãos, pois não são uma investida dos Aiel ou um bando de Trollocs descontrolados. Preciso informá-los de que entrar nos Caminhos é arriscar não apenas a morte e a loucura, mas talvez suas próprias almas.
— Já vimos Machin Shin — respondeu Rand.
Mat e Perrin concordaram, mas não conseguiram parecer ansiosos para encontrá-lo outra vez.
— Seguirei a Trombeta até a própria Shayol Ghul, se for preciso — afirmou Ingtar, firme.
Hurin apenas assentiu, como se incluísse a si mesmo nas palavras do shienarano.
— Traga Trayal — ordenou Alar. Então Juin, que permanecera à porta, fez uma reverência e saiu. — Não é o bastante — explicou — ouvir falar sobre o que pode acontecer. Vocês precisam ver, precisam saber no coração.
Fez-se um silêncio desconfortável até Juin retornar. Então ficou ainda mais desconfortável quando ele voltou, acompanhado por duas Ogier. Elas conduziam um Ogier de meia-idade com uma barba preta, que cambaleava entre elas como se não soubesse muito bem como as pernas funcionavam. Seu rosto estava abatido, sem qualquer expressão, e seus olhos grandes eram vazios e não piscavam. Ele não olhava para ninguém nem via nada. Sequer parecia querer enxergar. Uma das mulheres enxugou gentilmente a baba que escorria pelo canto da boca. As duas seguraram-lhe os braços, para fazê-lo parar. Seu pé continuou, incerto, e voltou para trás pisando com força. Ele parecia tão satisfeito parado quanto andando, ou, pelo menos, parecia não se importar.
— Trayal foi um dos últimos de nós a trilhar os Caminhos — comentou Alar, com a voz suave. — Ele saiu desse jeito, como o veem agora. Será que pode tocá-lo, Verin?
A Aes Sedai a encarou por um bom tempo. Então se levantou e foi até Trayal. Ele não se moveu quando ela pôs as mãos em seu peito largo, sequer fez o menor movimento com olhos que indicasse que percebia o toque. Com um sibilo agudo, ela se afastou de súbito, encarando-o. Então se virou para os Anciões.
— Ele está… vazio. O corpo está vivo, mas não há nada dentro dele. Nada.
Todos os Anciões pareceram insuportavelmente tristes.
— Nada — concordou uma das Anciãs à direita de Alar. Os olhos dela pareciam carregar toda a dor que os de Trayal não podiam mais transmitir. — Sem mente. Sem alma. Não resta nada de Trayal, além do corpo.
— Ele era um bom Cantor das Árvores. — suspirou um dos homens à esquerda da cadeira mais elevada.
Alar fez um gesto, e as duas mulheres viraram Trayal para levá-lo para fora. Elas precisaram empurrá-lo para que ele começasse a andar.
— Conhecemos os riscos — disse Verin. — Mas, quaisquer que sejam, precisamos seguir a Trombeta de Valere.
A Mais Velha assentiu.
— A Trombeta de Valere. Não sei se a pior notícia é que ela esteja nas mãos de Amigos das Trevas ou que tenha sido encontrada, para começar. — Ela olhou para a fileira de Anciões. Cada um deles assentiu, mas um dos homens cofiou a barba primeiro, em dúvida. — Muito bem. Verin a firma que o tempo urge. Eu mesma os levarei ao Portal dos Caminhos. — Rand se sentia um pouco aliviado e um pouco temeroso, até que ela acrescentou: — Vocês chegaram aqui com um jovem Ogier. É Loial, filho de Arent, filho de Halan, do Pouso Shangtai. Ele está longe de casa.
— Precisamos dele — disse Rand, mais do que depressa. Suas palavras perderam a velocidade sob os olhares dos Anciões e de Verin, mas ele prosseguiu, por teimosia: — Precisamos que ele venha conosco, e ele quer vir.
— Loial é um amigo — a firmou Perrin, ao mesmo tempo em que Mat dizia:
— Ele não fica no caminho e faz sua parte.
Nenhum dos três parecia confortável com o olhar dos Anciões sobre si, mas não recuaram.
— Há algum motivo para ele não vir conosco? — indagou Ingtar. — Como Mat disse, ele faz sua parte. Não sei dessa história de precisarmos dele, mas, se ele quiser vir, por que…
— Nós realmente precisamos dele — intrometeu-se Verin, com gentileza. — Poucos ainda conhecem os Caminhos, mas Loial os estudou. Ele consegue decifrar os Guias.
Alar olhou para cada um deles de uma vez, e então passou a analisar Rand. Ela parecia saber coisas. Todos os Anciões pareciam, mas ela ainda mais.
— Verin disse que você é ta’veren — falou, por fim —, e posso sentir isso. O fato de eu poder fazê-lo signi ica que você deve ser um ta’veren muito forte, já que esses Talentos aparecem cada vez mais fracos em nós, quando aparecem. Por acaso você atraiu Loial, filho de Arent, filho de Halan, para ta’maral’ailen, a Teia que o Padrão tece à sua volta?
— Eu… eu só quero encontrar a Trombeta e… — Rand não terminou a frase. Alar não mencionara a adaga de Mat. Ele não sabia se Verin contara aos Anciões ou se a omitira por algum motivo. — Ele é meu amigo, Mais Velha.
— Seu amigo — repetiu Alar. — Para nós, ele é jovem. Você também é jovem, mas é ta’veren. Cuidará dele e, quando a tessitura estiver completa, garantirá que ele volte a salvo para casa, no Pouso Shangtai.
— Eu vou — respondeu Rand.
Teve a sensação de que fizera uma promessa, um juramento.
— Então vamos para o Portal dos Caminhos.
Do lado de fora, Loial ficou de pé assim que eles apareceram, com Alar e Verin à frente. Ingtar mandou Hurin correr para buscar Uno e os outros soldados. Loial olhou para a Mais Velha, desconfiado, e então se juntou a Rand no fim da procissão. Todas as mulheres Ogier que estiveram observando-o haviam sumido.
— Os Anciões disseram alguma coisa a meu respeito? Ela…? — Ele olhou para as costas largas de Alar quando ela mandou Juin trazer os cavalos dos visitantes. Ela começou a andar à frente com Verin, curvando a cabeça para falar mais baixo, enquanto Juin ainda se retirava, fazendo reverências.
— Ela mandou Rand tomar conta de você — respondeu Mat, solene, enquanto eles seguiam o grupo — e garantir que você chegue em casa seguro como um bebê. Não vejo por que não fica aqui e se casa.
— Ela disse que você podia vir conosco. — Rand olhou com raiva para Mat, o que fez o rapaz rir baixinho. A risada soava estranha, vinda daquele rosto acabado. Loial girava o talo de um broto de coração-verdadeiro entre os dedos. — Você foi colher flores? — perguntou.
— Erith me deu. — Loial observou as pétalas amarelas girarem. — Ela é realmente muito bonita, mesmo que Mat não consiga ver.
— Isso quer dizer que você não quer vir conosco, afinal?
Loial se assustou.
— O quê? Ah, não. Quer dizer, sim. Eu quero ir. Ela só me deu uma flor. Só uma flor. — No entanto, ele tirou um livro do bolso e pôs o botão dentro, atrás da capa. Enquanto guardava o livro de volta, murmurou baixinho, quase para si mesmo, e quase baixo o bastante para que Rand não ouvisse: — E ela também disse que eu era bonito. — Mat sufocou uma risada e se dobrou ao meio, abraçando a si mesmo, e Loial enrubesceu. — Bem… Foi ela quem disse, não eu.