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Perrin deu um cascudo no amigo.

— Ninguém nunca disse que Mat era bonito. Ele só está com ciúmes.

— Não é verdade — retrucou Mat, endireitando-se de repente. — Marisa Ayellin me acha bonito. Ela me disse mais de uma vez.

— Marisa é bonita? — perguntou Loial.

— Ela tem cara de bode — respondeu Perrin, inexpressivo.

Mat se engasgou com a pressa em protestar.

Rand não conseguiu se impedir de sorrir. Marisa era quase tão bonita quanto Egwene. E aquilo era quase como nos velhos tempos, quase como estar de volta em casa, fazendo piadas, quando nada era mais importante do que rir e tirar sarro dos companheiros.

Enquanto seguiam pela cidadezinha, diversos Ogier cumprimentaram Alar, fazendo reverências e mesuras, e olhavam para os humanos com interesse. Mas a expressão decidida da Mais Velha impedia qualquer um de parar para fazer perguntas. Quando deixaram o povoado, só perceberam pela ausência de elevações. Ainda havia alguns Ogier examinando árvores, às vezes trabalhando com piche e serra ou com um machado, quando precisavam podar galhos mortos ou ajudar alguma árvore que precisava de sol. Eles cumpriam suas tarefas com dedicação.

Juin se juntou a eles, trazendo os cavalos. Hurin chegou a cavalo com Uno, os outros soldados e os cavalos de carga logo antes de Alar apontar e dizer:

— É ali na frente.

As piadas cessaram.

Rand sentiu uma surpresa momentânea. O Portal dos Caminhos precisava ficar do Lado de Fora do pouso. Eles haviam sido criados com o Poder Único, então não poderiam ter sido feitos do lado de dentro. Mas não havia nada que indicasse que haviam ultrapassado os limites do pouso. Até que Rand percebeu que havia uma diferença: a sensação que lhe acompanhava desde que chegara de que havia perdido algo se fora. Aquilo lhe deu outro tipo de calafrio. Saidin estava ali novamente, à espera.

Alar os levou além de um carvalho alto, e ali, em uma pequena clareira, estava a grande placa de pedra do Portal dos Caminhos. A frente era delicadamente esculpida com densas vinhas e folhas de centenas de plantas diferentes. Nos limites da clareira, os Ogier haviam construído uma mureta de pedra que quase parecia ter crescido ali, ostentando o que poderia ser um círculo de raízes. A aparência deixava Rand desconfortável. Ele levou um momento para perceber que aquelas raízes eram de espinheiros, urzes, folhardente e sumagre-venenoso. Não eram o tipo de planta em que gostaria de tropeçar.

A Mais Velha parou um pouco antes da mureta.

— Esta parede foi feita para avisar qualquer um que venha aqui para se afastar. Não são muitos que o fazem. Eu mesma não a cruzarei. Mas vocês podem seguir. — Juin não se aproximou tanto quanto ela. O Ogier ficou esfregando as mãos na frente do casaco, sem olhar para o Portal dos Caminhos.

— Obrigada — respondeu Verin. — A necessidade é grande, ou eu não teria pedido.

Rand ficou tenso quando a Aes Sedai pulou a mureta e se aproximou do Portal. Loial respirou fundo e murmurou baixinho. Uno e os outros soldados ficaram inquietos em suas selas e soltaram as espadas nas bainhas. Uma espada não tinha serventia nos Caminhos, mas o gesto os ajudava a se convencer de que estavam prontos. Apenas Ingtar e a Aes Sedai pareciam calmos: até mesmo Alar segurou a saia com as duas mãos, bem firme.

Verin puxou a folha de Avendesora e Rand se inclinou para a frente, observando a cena. Teve um impulso de buscar o vazio, de ir para um lugar onde poderia alcançar saidin, caso fosse necessário.

A vegetação entalhada no Portal dos Caminhos se agitou com uma brisa que ninguém sentiu, e as folhas se sacudiram para formar uma linha no centro. Então as duas metades começaram a se abrir.

Rand encarou a fresta fixamente. Não havia um re flexo opaco e prateado atrás dela, apenas um negror mais escuro que piche.

— Feche! — gritou. — É o Vento Negro! Feche!

Verin olhou, assustada, e colocou a folha de três pontas em seu lugar. A folha de pedra permaneceu lá quando ela retirou a mão e recuou até a mureta. O Portal dos Caminhos havia começado a fechar assim que Verin colocou a folha no lugar. A fenda desapareceu. Vinhas e folhas se fundiam, ocultando o negror de Machin Shin, e o Portal dos Caminhos virou, outra vez, um bloco pedra, ainda que o enfeite esculpido parecesse mais vivo do que era possível.

Alar soltou a respiração, ofegante.

Machin Shin. Tão perto.

— Ele não tentou sair — disse Rand.

Juin soltou um som engasgado.

— Eu disse a vocês — a firmou Verin. — O Vento Negro é uma criatura dos Caminhos. Não pode sair deles. — Ela parecia calma, mas ainda assim limpou as mãos na saia. Rand abriu a boca para falar e desistiu. — Ainda assim — prosseguiu —, ico intrigada por ele estar aqui. Primeiro em Cairhien, agora aqui. Eu me pergunto…

Ela olhou para Rand de soslaio, de um jeito inquietante. Foi tão rápido que ele achou que ninguém mais tivesse notado, mas, para Rand, ela parecia ver alguma ligação entre ele e o Vento Negro.

— Nunca ouvi falar disso — a firmou Alar, lentamente. — Machin Shin à espera diante de um Portal dos Caminhos. Ele sempre vagou pelos Caminhos. Mas faz muito tempo. Talvez o Vento Negro tenha fome e espere pegar algum desavisado que entre por um portal. Verin, tenho certeza de que vocês não podem usar este Portal. E, apesar da sua grande necessidade, não posso dizer que lamento. Os Caminhos pertencem à Sombra agora.

Rand olhou para o Portal e franziu a testa. Será que ele está me seguindo? Tinha perguntas demais a fazer. Será que, de algum modo, Fain dera uma ordem ao Vento Negro? Verin dizia que era impossível. E por que Fain exigiria que ele o seguisse e depois tentaria detê-lo? Só sabia que acreditava na mensagem. Precisava ir à Ponta de Toman. Mesmo que encontrassem a Trombeta de Valere e a adaga de Mat embaixo de uma moita no dia seguinte, ainda teria que ir.

Verin permaneceu com o olhar perdido, pensativa. Mat estava sentado na mureta com a cabeça enterrada nas mãos, e Perrin o observava, preocupado. Loial parecia aliviado por não poderem usar o Portal, e envergonhado por isso.

— Terminamos aqui — anunciou Ingtar. — Verin Sedai, eu a segui, contrariando minha própria razão, mas não posso mais continuar. Pretendo voltar a Cairhien. Barthanes pode me dizer para onde foram os Amigos das Trevas, e vou encontrar uma forma de fazê-lo falar.

— Fain foi para a Ponta de Toman — respondeu Rand, cansado. — E a Trombeta foi com ele. Assim como a adaga.

— Suponho… — Perrin deu de ombros, relutante. — Suponho que possamos tentar usar outro Portal dos Caminhos. Em outro pouso?

Loial esfregou os dedos no queixo e falou depressa, como se para compensar pelo alívio ao ver o plano falhar.

— O Pouso Cantoine ica logo acima do rio Iralell, e o Pouso Taijing é a leste da Espinha do Mundo. Mas o Portal em Caemlyn, onde ficava o bosque, é mais perto. E o do Bosque de Tar Valon é o mais próximo de todos.

— Temo que, independente do portal escolhido — comentou Verin, distraída —, encontraremos Machin Shin à espera.

Alar dirigiu um olhar curioso à Verin, mas a Aes Sedai não disse mais qualquer palavra alto o suficiente para outra pessoa ouvir. Em vez disso, passou a murmurar sozinha, balançando a cabeça, como se discutisse consigo mesma.

— O que precisamos — sugeriu Hurin, timidamente — é de uma daquelas Pedras-portais. — Ele olhou para Alar, depois para Verin, e, como nenhuma das duas lhe mandou ficar quieto, continuou a falar, parecendo cada vez mais con fiante: — Lady Selene disse que as Aes Sedai de antigamente estudaram aqueles mundos, e que foi assim que souberam como fazer os Caminhos. E o lugar onde fomos parar… Bem, levamos apenas dois dias, talvez menos, para viajar cem léguas. Se conseguíssemos usar uma Pedra-portal para ir para aquele mundo ou algum como aquele… Ora, a gente não levaria mais que uma ou duas semanas para chegar ao Oceano de Aryth, e acho que dá pra sair bem na Ponta de Toman. Talvez não seja tão rápido quanto os Caminhos, mas é muito mais rápido do que cavalgar para o oeste. O que vocês acham, Lorde Ingtar, Lorde Rand?