Verin respondeu.
— O que você sugere pode muito bem ser possível, farejador, mas temos tanta chance de abrir este Portal outra vez e descobrir que Machin Shin se foi quanto de encontrar uma Pedra-portal. Não sei de nenhuma mais perto do que a que ica no Deserto Aiel. Mas penso que poderíamos voltar à Adaga do Fratricida se você, Rand ou Loial acharem que conseguiriam encontrar aquela Pedra outra vez.
Rand olhou para Mat. Seu amigo erguera a cabeça, esperançoso, com aquela conversa sobre as Pedras. Apenas algumas semanas, dissera Verin. Se simplesmente cavalgassem para o oeste, Mat jamais sobreviveria para ver a Ponta de Toman.
— Eu consigo encontrá-la — interveio Rand, relutante.
Ele se sentia envergonhado. Mat vai morrer. Os Amigos das Trevas estão com a Trombeta de Valere. Fain machucará as pessoas de Campo de Emond se você não segui-lo, e você está com medo de canalizar. Só uma vez para ir e outra para voltar. Mais duas vezes não vão deixá-lo louco. O que lhe deu medo, porém, foi a avidez que sentiu ao pensar em canalizar outra vez, em sentir o Poder preenchê-lo, em sentir-se verdadeiramente vivo.
— Não entendo — comentou Alar, devagar. — As Pedras-portais não são ativadas desde a Era das Lendas. Achava que não havia alguém que ainda soubesse como usá-las.
— A Ajah Marrom sabe muitas coisas — retrucou Verin, seca —, e eu sei como as Pedras podem ser usadas.
A Mais Velha assentiu.
— Há mesmo maravilhas na Torre Branca com as quais sequer sonhamos. Mas, se você consegue usar uma Pedra-portal, não há necessidade de cavalgarem até a Adaga do Fratricida. Há uma não muito longe daqui.
— Há de ser o que a Roda tecer, e o Padrão sempre provê o que é necessário. — A expressão ausente sumira por completo do rosto de Verin. — Leve-nos a ela — disse, de forma brusca. — Já perdemos muito tempo.
37
O que Poderia Ser
Alar os conduziu para longe do Portal dos Caminhos em um passo digno, embora Juin parecesse mais do que ansioso para deixar o lugar para trás correndo. Mat, pelo menos, parecia olhar à frente, ansioso, enquanto Hurin parecia con fiante. Loial, por sua vez, parecia mais preocupado com a possibilidade de Alar mudar de ideia sobre deixá-lo ir do que com qualquer outro assunto. Rand não se apressou ao levar Vermelho pelas rédeas. Não achava que Verin pretendesse ativar a Pedra em si.
A coluna de pedra cinzenta se erguia a quase quinze braças do chão, ao lado de uma faia, e tinha quase quatro passos de diâmetro. Rand teria considerado aquela faia uma árvore grande, se não tivesse visto as Grandes Árvores. Ali não havia uma mureta para alertar quem passasse pelo local, apenas algumas flores silvestres que despontavam da forragem de folhas no chão da floresta. A Pedra-portal estava desgastada, mas ainda era possível ler os símbolos que a cobriam.
Os soldados shienaranos montados formaram um círculo ao redor da Pedra e dos membros do grupo a pé.
— Nós a levantamos — comentou Alar — quando a encontramos, há muitos anos. Mas não a movemos. Ela… quase parecia… resistir a ser movida. — Seguiu direto até a pedra e pôs uma das mãos grandes nela. — Sempre a considerei um símbolo do que foi perdido, do que foi esquecido. Na Era das Lendas, ela podia ser estudada e compreendida em alguma medida. Mas, para nós, é apenas pedra.
— Bem, espero que seja mais do que isso. — A voz de Verin ficou ainda mais brusca. — Mais Velha, agradeço a ajuda. Perdoe-nos pela falta de cerimônia ao deixá-la, mas a Roda não espera por mulher alguma. Pelo menos não perturbaremos mais a paz de seu pouso.
— Chamamos de volta os Construtores que estavam em Cairhien — começou a responder Alar —, mas ainda ouvimos notícias sobre o que acontece no mundo lá Fora. Falsos Dragões. A Grande Caçada à Trombeta. Nós ouvimos, e as notícias passam direto por nós. Mas acho que Tarmon Gai’don não passará direto por nós, nem nos deixará em paz. Passe bem, Verin Sedai. Todos vocês, passem bem, e que possam se abrigar na palma da mão do Criador. Juin. — Ela fez uma pausa, apenas para fitar Loial pela última vez e dirigir a Rand um último olhar de repreensão, e então os Ogier sumiram em meio às árvores.
Ouviram-se estalos nas selas enquanto os soldados se ajeitavam. Ingtar observou o círculo que formavam.
— Isso é realmente necessário, Verin Sedai? Mesmo que seja possível… Sequer sabemos se os Amigos das Trevas realmente levaram a Trombeta para a Ponta de Toman. Ainda acho que consigo fazer Barthanes…
— Se não podemos ter certeza — respondeu Verin, em um tom calmo, interrompendo-o —, a Ponta de Toman ainda é um lugar tão bom para procurarmos quanto qualquer outro. Já o ouvi dizer mais de uma vez que iria até Shayol Ghul para recuperar a Trombeta, se for necessário. Você recua agora, diante disso? — Ela indicou a Pedra sob a árvore de casca lisa.
As costas de Ingtar ficaram eretas.
— Eu não recuo diante de nada. Não importa se nos levará à Ponta de Toman ou a Shayol Ghul. Se a Trombeta de Valere estiver no fim do caminho, vou segui-la.
— Está bem, Ingtar. Agora, Rand, você foi transportado por uma Pedra-portal há menos tempo do que eu. Venha. — Ela o chamou com um gesto, e o rapaz conduziu Vermelho até ela, perto da Pedra.
— Você já usou uma Pedra-portal? — Ele olhou por cima do ombro, para ter certeza de que não havia ninguém próximo o suficiente para ouvir. — Então acho que não espera que eu o faça. — Ele deu de ombros, aliviado.
Verin o encarou com uma expressão neutra.
— Eu nunca usei uma Pedra, e é por isso que a sua experiência é mais recente que a minha. Conheço bem meus limites. Eu seria destruída antes de chegar perto de canalizar Poder o suficiente para ativar uma Pedra-portal. Mas sei um pouco sobre elas. O bastante para ajudá-lo, pelo menos um pouquinho.
— Mas eu não sei nada. — Ele conduziu o cavalo, contornando a Pedra, olhando-a de cima a baixo. — A única coisa que me lembro é do símbolo do nosso mundo. Selene me mostrou, mas eu não o vejo aqui.
— Claro que não. Não em uma Pedra deste mundo, já que os símbolos ajudam a ir para um mundo. — Ela sacudiu a cabeça. — O que eu não daria para conversar com essa garota de quem você tanto fala. Ou, melhor ainda, para pôr as mãos nesse livro dela. Acredita-se que nenhuma cópia de Espelhos da Roda sobreviveu inteira à Ruptura. Serafelle sempre diz que há mais livros que acreditamos estar perdidos do que eu tenho fé de que possam ser encontrados. Bem, não ajuda em nada me preocupar com o que não sei. Mas sei de algumas coisas. Os símbolos na metade de cima da Pedra representam os mundos. Não todos os Mundos que Poderiam Ser, é claro. Ao que parece, nem toda Pedra se conecta a todos os mundos, e os Aes Sedai da Era das Lendas acreditavam que havia mundos que nenhuma Pedra tocava. Você não vê nenhum que seja familiar?
— Nada. — Se ele encontrasse o símbolo certo, poderia usá-lo para encontrar Fain e a Trombeta, salvar Mat e impedir que Fain fizesse mal aos habitantes de Campo de Emond. Se encontrasse o símbolo, precisaria tocar saidin. Queria salvar Mat e deter Fain, mas não queria tocar saidin. Tinha medo de canalizar, mas ansiava por aquilo como um faminto ansiava por comida. — Nenhum deles.