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— Eu não mexeria com ela se fosse você. — Min se inclinou na direção das duas e baixou a voz. — Aquela Aceita magricela, a Irella, disse que ela era desastrada como uma vaca e que tinha metade dos Talentos de uma. Então Nynaeve respondeu com uma bofetada no pé da orelha dela. — Elayne fez uma careta de dor. — Exatamente — murmurou Min. — Ela foi levada para o gabinete de Sheriam em um piscar de olhos, e está de mau humor desde então.

Aparentemente Min não baixara a voz o suficiente, pois Nynaeve rosnou. De repente, a porta se abriu de supetão mais uma vez, e uma ventania uivou pelo quarto. O vento não moveu os cobertores na cama de Egwene, mas Min e o banquinho tombaram, rolando até a parede. O vento morreu no mesmo instante e Nynaeve parou de andar, com um olhar arrependido.

Egwene correu até a porta e espiou para o lado de fora. O sol do meio-dia secava os últimos vestígios da tempestade da noite anterior. Ainda úmida, a varanda que cercava o Pátio das Noviças estava vazia, e todas as portas dos quartos, dispostas em uma longa fileira, estavam fechadas. As noviças que aproveitaram o dia livre para se divertir nos jardins sem dúvida já estavam recuperando o sono atrasado. Ninguém poderia ter visto aquilo. Ela fechou a porta e voltou a seu lugar ao lado de Elayne, enquanto Nynaeve ajudava Min a se levantar.

— Me desculpe, Min — disse Nynaeve, tensa. — Às vezes meu mau humor… Não posso lhe pedir que me perdoe, não por isso. — Ela respirou fundo. — Se quiser me denunciar a Sheriam, vou entender. Eu mereço.

Egwene desejou não ter ouvido aquela admissão. Nynaeve podia ficar irritadiça por ela ter ouvido. Procurando por outra coisa para prestar atenção, uma na qual Nynaeve conseguisse acreditar que ela estivesse concentrada, a jovem percebeu que tocava saidar outra vez. Então recomeçou os malabarismos com bolas de luz. Elayne se juntou a ela mais do que depressa. Egwene viu o brilho se formar em torno na Filha-herdeira antes mesmo de as três pequenas bolas aparecerem sobre as mãos dela. As duas começaram a passar as pequenas esferas brilhantes uma para a outra, em padrões cada vez mais intrincados. Às vezes uma esfera se apagava quando uma delas não conseguia mantê-la acesa ao recebê-la, mas logo voltava com pequenas alterações na cor ou no tamanho.

O Poder Único enchia Egwene de vida. Ela sentia o leve aroma de rosas do sabão que Elayne usara em seu banho matinal. Conseguia sentir a massa áspera da parede e a pedra lisa do chão tão bem como a cama onde se sentava. E podia ouvir Min e Nynaeve respirarem, e ouvia ainda melhor as palavras discretas que trocavam…

— Se a questão é o perdão, você também precisa me perdoar. Você tem mau humor, mas eu tenho uma boca grande. Perdoo você se você me perdoar. — Com murmúrios de “perdoado”, as duas se abraçaram. — Mas, se fizer isso de novo — zombou Min, rindo —, eu é que vou lhe dar uma bofetada na orelha.

— Da próxima vez — respondeu Nynaeve —, eu jogo alguma coisa em você. — Ela também ria, mas a risada cessou assim que olhou para Egwene e Elayne. — E vocês duas parem com isso, ou alguém vai mesmo ser mandada à Mestra das Noviças. Dois alguéns.

— Nynaeve, você não faria isso! — protestou Egwene. Porém, ao notar a expressão nos olhos da Sabedoria, cortou o contato com saidar mais do que depressa. — Tudo bem. Eu acredito em você. Não precisa provar.

— Precisamos praticar — protestou Elayne. — Elas pedem cada vez mais da gente. Se não praticássemos por conta própria, não conseguiríamos acompanhar o ritmo! — A expressão em seu rosto era de uma compostura calma, mas ela abandonara saidar tão depressa quanto Egwene.

— E o que vai acontecer quando você for longe demais — perguntou Nynaeve — e não houver ninguém para impedir? Queria que vocês tivessem mais medo. Eu tenho. Acham que não sei como se sentem? Está sempre lá, e você quer se preencher com aquilo. Às vezes eu mal consigo parar, quero tudo. Eu sei que viraria torrada, mas quero assim mesmo. — Ela estremeceu. — Só gostaria que vocês tivessem mais medo.

— Eu tenho medo — respondeu Egwene. — Estou aterrorizada. Mas não adianta de nada. E você, Elayne?

— A única coisa que me aterroriza — respondeu a Filha-herdeira, em um tom despreocupado — é lavar a louça. Parece que tenho que fazer isso todo dia. — Egwene atirou o travesseiro nela. Elayne o levantou acima da cabeça e atirou de volta, mas depois disso baixou os ombros, desanimada. — Ah, tudo bem. Estou com tanto medo que não sei como meus dentes não estão batendo. Elaida disse que eu ficaria tão assustada que ia ter vontade de fugir com o Povo Errante, mas na época eu não havia entendido. Todos olhariam torto para um homem que conduzisse seus bois com o mesmo rigor com que nos tratam aqui. Passo o tempo todo cansada. Acordo cansada e vou para a cama exausta, e às vezes tenho tanto medo de sem querer canalizar mais do que consigo controlar que… — Olhando para o colo, ela não completou a frase.

Egwene sabia o que ela deixara de falar. Seus quartos ficavam um ao lado do outro, e, como em muitos dos outros quartos das noviças, tinha um pequeno buraco na parede que os separava, aberto havia muito. Era pequeno demais para ser notado, a menos que a pessoa soubesse onde procurar, mas era útil para conversar depois que os lampiões se apagavam, quando as noviças não podiam mais deixar seus quartos. Mais de uma vez, Egwene ouvira Elayne chorar até dormir. E não tinha dúvidas de que Elayne também ouvira o seu choro.

— Fugir com o Povo Errante é uma opção tentadora — concordou Nynaeve —, mas não importa aonde vá, isso não vai mudar o que você é capaz de fazer. Não se pode fugir de saidar. — Ela não parecia gostar do que estava dizendo.

— O que você vê, Min? — perguntou Elayne. — Nós seremos Aes Sedai poderosas, passaremos o resto da vida lavando louça, como noviças, ou… — Ela deu de ombros, desconfortável, como se não quisesse enunciar a terceira alternativa que lhe viera à mente.

Ser mandada para casa. Expulsa da Torre. Duas noviças haviam sido expulsas desde a chegada de Egwene, e todas falavam delas aos sussurros, como se tivessem morrido.

Min mudou de posição no banco.

— Não gosto de ler amigos — murmurou. — A amizade atrapalha a leitura, me faz tentar interpretar o que vejo da melhor forma possível. É por isso que não leio mais vocês três. De qualquer forma, nada mudou. Pelo menos, nada que eu possa… — Ela semicerrou as pálpebras, fitando-as e franziu a testa de repente. — Isso é novo — disse, quase em um sussurro.

— O quê? — perguntou Nynaeve, ríspida.

Min hesitou antes de responder.

— Perigo. Vocês estão em algum tipo de perigo. Ou estarão, muito em breve. Não consigo distinguir, mas é perigo.

— Estão vendo? — ralhou Nynaeve, falando com as duas meninas sentadas na cama. — Vocês precisam tomar cuidado. Todas nós precisamos. E quero que as duas prometam que não vão canalizar de novo sem alguém como guia.

— Não quero mais falar sobre isso — disse Egwene.

Elayne assentiu veementemente.

— Isso. Vamos falar de outra coisa. Min, se você colocasse um vestido, aposto que Gawyn a chamaria para um passeio. Sabe que ele anda olhando para você, mas eu acho que pensa duas vezes ao ver essas calças e esse casaco de homem.

— Eu me visto do jeito que gosto, não vou mudar por causa de um lorde. Mesmo que ele seja seu irmão — respondeu Min, distraída, ainda com as pálpebras semicerradas e a testa franzida. Já tinham conversado sobre aquilo antes. — Às vezes é útil se passar por garoto.