— Ninguém que preste atenção acredita que você seja um garoto. — Riu Elayne.
Egwene se sentia desconfortável. Elayne falava com falsa alegria, Min mal prestava atenção ao que era dito e Nynaeve parecia querer adverti-las de novo.
Quando a porta se abriu outra vez, Egwene se levantou de um pulo para fechá-la, grata por ter algo para fazer além de assistir as outras fingirem que estava tudo bem. Antes de chegar até lá, porém, entrou no quarto uma Aes Sedai com olhos escuros e o cabelo louro preso em várias pequenas tranças. Egwene piscou, tão surpresa por haver uma Aes sedai em seu quarto quanto por ela ser Liandrin. Não sabia que a mulher havia retornado à Torre Branca. E, além disso, as noviças eram chamadas se uma Aes Sedai quisesse algo com elas. Uma irmã em seu quarto não era bom sinal.
O aposento ficou pequeno demais com cinco mulheres dentro dele. Liandrin parou para ajeitar o xale de franjas vermelhas, olhando para elas. Min não se mexeu, mas Elayne se levantou. As três que estavam de pé fizeram uma mesura, embora Nynaeve mal tenha flexionado os joelhos. Egwene achava que a Sabedoria nunca ia se acostumar a outras pessoas tendo autoridade sobre ela.
O olhar de Liandrin se fixou na Aceita.
— E por que está aqui, na ala das noviças, criança? — Seu tom era gélido.
— Estou visitando minhas amigas — respondeu Nynaeve, tensa. Depois de um instante, acrescentou, tarde demais: — Liandrin Sedai.
— Elas não deveriam ter amigas entre as noviças, as Aceitas. A esta altura, isso já era para você ter aprendido. Mas é até bom que eu tenha encontrado você aqui. Você e você — ela apontou para Elayne e Min — vão embora.
— Volto mais tarde. — Min se levantou com displicência, fazendo questão de mostrar que não tinha pressa em obedecer, e passou por Liandrin com um sorriso. A Aes Sedai pareceu não perceber. Elayne dirigiu um olhar preocupado a Egwene e Nynaeve, antes de fazer uma breve reverência e sair.
Depois que Elayne fechou a porta, Liandrin ficou parada olhando para Egwene e Nynaeve. A mais jovem começou a ficar inquieta sob o escrutínio, mas Nynaeve se manteve firme, sem mostrar mais que um leve enrubescimento.
— Vocês duas são da mesma aldeia que os garotos que viajaram com Moiraine, sim? — perguntou Liandrin, de repente.
— Você tem alguma notícia do Rand? — perguntou Egwene, ávida. A mulher ergueu uma sobrancelha. — Perdoe-me, Liandrin Sedai. Esqueci minhas maneiras.
— Você tem notícias deles? — indagou Nynaeve, quase exigindo uma resposta.
As Aceitas não tinham regras sobre não falar com uma Aes Sedai até que elas lhe dirigissem a palavra.
— Vocês se preocupam com eles. Isso é bom. Eles estão em perigo, e vocês talvez sejam capazes de ajudar.
— Como sabe que eles estão com problemas? — Dessa vez, não houve dúvida sobre a exigência na voz de Nynaeve.
Liandrin comprimiu os lábios em forma de botão de rosa, mas seu tom de voz não se alterou.
— Embora vocês não saibam disso, Moiraine mandou cartas à Torre Branca sobre vocês. Moiraine Sedai se preocupa com vocês e com seus jovens… amigos. Eles estão em perigo, garotos. Vocês querem ajudar ou preferem deixá-los à própria sorte?
— Sim — respondeu Egwene, ao mesmo tempo em que Nynaeve perguntava:
— Que tipo de problema? Por que você quer ajudá-los? — A Sabedoria olhou para as franjas vermelhas do xale de Liandrin. — E achei que você não gostasse de Moiraine.
— Não presuma coisas demais, criança — respondeu Liandrin, ríspida. — Ser uma Aceita não é ser uma irmã. Aceitas e noviças ouvem quando uma irmã fala e fazem o que lhes é pedido. — Ela tomou fôlego e prosseguiu. O tom era frio e sereno, mas manchas pálidas, de raiva, eram visíveis em suas bochechas. — Algum dia, certa estou, você servirá a uma causa. Então aprenderá que para servi-la é necessário trabalhar até mesmo com as pessoas de quem não gosta. Já trabalhei com muita gente com quem não dividiria a mesma sala, se tivesse escolha, isso posso dizer. Você não se uniria àqueles que mais odeia, se fosse para salvar seus amigos?
Nynaeve assentiu, relutante.
— Mas você ainda não disse em que tipo de perigo eles estão, Liandrin Sedai.
— O perigo vem de Shayol Ghul. Eles estão sendo caçados, da mesma forma que conforme soube, foram antes. Se comigo vierem, ao menos podem ser eliminados alguns perigos. Não perguntem como, pois não posso contar, mas, sem pestanejar, afirmo que é verdade.
— Nós iremos, Liandrin Sedai — afirmou Egwene.
— Iremos para onde? — indagou Nynaeve. Egwene lhe dirigiu um olhar exasperado.
— Para a Ponta de Toman.
O queixo de Egwene caiu, e Nynaeve murmurou:
— A Ponta de Toman está em guerra. Esse perigo tem algo a ver com os exércitos de Artur Asa-de-gavião?
— Você acredita em boatos, criança? E, mesmo que fossem verdade, seriam o bastante para detê-la? Pensei que chamasse de amigos esses homens. — Havia algo nas palavras de Liandrin que sugeria que ela nunca faria o mesmo.
— Nós iremos — disse Egwene. Nynaeve abriu a boca outra vez, mas Egwene prosseguiu: — Nós iremos, Nynaeve. Se Rand precisa da nossa ajuda, assim como Mat e Perrin, temos que ajudar.
— Eu sei — respondeu Nynaeve —, mas o que quero saber é por que nós? O que podemos fazer que Moiraine ou você, Liandrin, não podem?
As palidez nas bochechas de Liandrin se intensificaram. Egwene se deu conta de que Nynaeve esquecera de acrescentar o honorí ico ao se dirigir a ela, mas a mulher apenas respondeu:
— Vocês vieram da mesma vila que os rapazes. De algum jeito que não entendo muito bem, estão conectadas a eles. Mais que isso, não posso dizer. E essas perguntas tolas, nenhuma delas será respondida. Vocês virão comigo, pelo bem deles? — Ela fez uma pausa, esperando pela concordância. Ficou visivelmente menos tensa quando as duas assentiram. — Bom. Vocês devem me encontrar na orla norte do bosque Ogier uma hora antes do pôr do sol. Levem seus cavalos e o que mais forem precisar para a viagem. Sobre isso, não devem falar com ninguém.
— Nós não podemos deixar a área da Torre sem permissão — comentou Nynaeve, medindo as palavras.
— Vocês têm minha permissão. Não contem a ninguém. Ninguém. Caminha nos salões da Torre Branca a Ajah Negra.
Egwene engasgou e ouviu um eco vindo de Nynaeve. A Sabedoria se recuperou rápido.
— Achei que todas as Aes Sedai negassem a existência da… disso.
Liandrin comprimiu os lábios com desdém.
— Muitas negam. Mas Tarmon Gai’don se aproxima, e já passou o tempo de negar isso. Ela é o oposto de tudo que a Torre representa, a Ajah Negra. Mas existe, criança. Está em todo lugar, qualquer mulher pode pertencer a ela, e trabalha a serviço do Tenebroso. Se estão sendo perseguidos pela Sombra, seus amigos acham que a Ajah Negra deixaria vocês vivas e livres para ajudá-los? Não contem a ninguém. Ninguém! Ou podem não sobreviver para chegar à Ponta de Toman. Uma hora antes do pôr do sol. Não falhem comigo. — E, com isso, ela se foi, fechando a porta com firmeza após sair.
Egwene desabou na cama com as mãos nos joelhos.
— Nynaeve, ela é uma Ajah Vermelha. Não pode saber do Rand. Se descobrir…
— Ela não pode saber — concordou Nynaeve. — Queria entender o que leva uma Vermelha a querer ajudar. Ou por que ela está disposta a trabalhar com Moiraine. Eu poderia jurar que uma negaria água se a outra estivesse morrendo de sede.
— Acha que ela está mentindo?
— Ela é uma Aes Sedai — respondeu Nynaeve, seca. — Aposto minha melhor abotoadura de prata contra um mirtilo que cada palavra que disse era verdade. Mas me pergunto se ouvimos o que achamos que ouvimos.
— A Ajah Negra. — Egwene estremeceu. — Não há dúvida sobre o que ela contou a respeito disso, que a Luz nos ajude.
— Nenhuma dúvida — concordou Nynaeve. — E ela também nos impediu de pedir conselho a qualquer pessoa, porque, depois disso, em quem podemos confiar? Que a Luz nos ajude mesmo.