— Uma de nós tem que ser o serviçal — explicara, rindo. — Mulheres vestidas como vocês sempre estão acompanhadas de pelo menos um. E vocês vão ficar com inveja das minhas calças, se precisarmos correr. — Ela carregava quatro conjuntos de alforjes abarrotados de roupas quentes, pois certamente o inverno chegaria antes de voltarem. Também levavam pacotes de comida afanados das cozinhas, apenas o suficiente para sobreviveram até poderem comprar mais.
— Tem certeza de que não posso carregar alguns deles, Min? — perguntou Egwene, com gentileza.
— Eles só são ruins de carregar — respondeu Min, com um sorriso —, não estão pesados. — Ela parecia achar que era tudo uma brincadeira, ou ao menos fingia que achava. — E com certeza as pessoas se perguntariam por que uma lady re finada como você estaria carregando os próprios alforjes. Você pode levar os seus, e os meus também, se quiser, quando a gente… — O sorriso sumiu, e ela sussurrou com urgência: — Aes Sedai!
Egwene olhou depressa para a frente. Uma Aes Sedai de cabelo liso, longo e preto e de pele cor de mar fim envelhecido seguia pelo corredor na direção delas, ouvindo os pedidos de uma mulher com roupas rústicas de fazenda e um manto remendado. A Aes Sedai ainda não as vira, mas Egwene a reconheceu: Takima, da Ajah Marrom, que ensinava História da Torre Branca e das Aes Sedai. E que era capaz de reconhecer uma de suas pupilas a cem passos de distância.
Nynaeve entrou em um corredor transversal sem diminuir o passo, mas uma das Aceitas, uma mulher magricela com o rosto sempre franzido, passou apressada por elas, puxando uma noviça de rosto vermelho pela orelha.
Egwene precisou engolir em seco antes de conseguir falar.
— Era Irella. E Else. Será que elas viram a gente? — Ela não conseguia se forçar a olhar para trás para ter certeza.
— Não — respondeu Min, um instante depois. — Tudo o que viram foram nossas roupas.
Egwene deu um longo suspiro de alívio. Pôde ouvir Nynaeve fazer o mesmo.
— Acho que meu coração vai explodir antes de chegarmos aos estábulos — murmurou Elayne. — As aventuras são assim o tempo todo, Egwene? A gente fica sempre com o coração na boca e um frio na barriga?
— Imagino que sim — respondeu Egwene, devagar.
Era di ícil lembrar da época em que estava ansiosa para viver uma aventura, para fazer algo perigoso e emocionante como as pessoas das histórias. Naquele momento, achava que a parte empolgante era o que você recordava e relatava aos outros, e que as histórias deixavam de fora vários detalhes desagradáveis. Foi o que disse a Elayne.
— Ainda assim — a firmou a Filha-herdeira, com firmeza —, nunca me senti empolgada de verdade antes. E nunca me sentiria assim se dependesse da minha mãe. Sei que vai depender dela até eu assumir o trono.
— Quietas, vocês duas — ralhou Nynaeve. Elas estavam sozinhas em um corredor, para variar, sem ninguém à vista. Ela apontou para uma escadaria estreita que levava a um andar inferior. — Deve ser a que procuramos, se é que eu não fiquei completamente desorientada com todas essas curvas e desvios.
Ela desceu a escada mesmo assim, agindo como se tivesse certeza, e as outras a seguiram. E estava certa, pois a pequena porta no fim da descida as levou ao pátio empoeirado do Estábulo Sul. Era lá que ficavam os cavalos que chegavam com algumas noviças até que elas precisassem deles, o que geralmente não acontecia até se tornarem Aceitas ou serem mandadas para casa. O vulto reluzente da Torre se assomava atrás delas. O terreno da Torre era muito grande, e as muralhas, mais altas do que as de muitas cidades.
Nynaeve entrou no estábulo como se fosse dona do lugar, que cheirava a feno e cavalos, e duas longas fileiras de baias se estendiam pelas sombras, iluminadas aqui e ali pela luz que entrava pelas claraboias. Por incrível que parecesse, Bela e a égua cinzenta de Nynaeve estavam em baias próximas à porta. O focinho de Bela apareceu por cima da porta e a égua relinchou baixinho para Egwene. Havia apenas um cavalariço à vista, um sujeito de aparência agradável, com a barba um pouco grisalha, mascando uma palhinha.
— Nossos cavalos serão selados — ordenou Nynaeve, na melhor voz de autoridade que tinha. — Esses dois. Min, vá atrás do seu cavalo e do de Elayne. — Min deixou os alforjes e saiu, puxando Elayne para o fundo do estábulo.
O cavalariço franziu a testa, olhando para elas, e tirou a palha da boca sem pressa.
— Deve haver algum engano, milady. Esses animais…
— … são nossos — declarou Nynaeve, firme, cruzando os braços de modo que o anel com a serpente ficasse evidente. — Você vai selá-los imediatamente.
Egwene prendeu a respiração. Tinham combinado que Nynaeve, como último recurso, tentaria se passar por uma Aes Sedai, caso tivessem dificuldade com alguém capaz de acreditar na mentira. Não funcionaria com Aes Sedai ou Aceitas, é claro, e talvez nem mesmo uma noviça. Mas um cavalariço…
O homem piscou, olhando para o anel de Nynaeve e, então, a encarou.
— Falaram que viriam duas — disse, por fim, sem parecer se impressionar. — Uma Aceita e uma noviça. Não falaram nada sobre quatro de vocês.
Egwene teve vontade de rir. É claro que Liandrin não acreditaria que elas eram capazes de conseguir os cavalos sozinhas.
Nynaeve pareceu desapontada, e sua voz se tornou mais ríspida.
— Você, tire esses cavalos depressa e sele-os, ou vai precisar da Cura de Liandrin, se ela estiver disposta a oferecê-la.
O cavalariço balbuciou o nome da Aes Sedai, mas bastou um olhar para a expressão de Nynaeve para se apressar em arrumar os cavalos com apenas alguns resmungos, baixos o bastante para que ninguém escutasse. Min e Elayne voltaram com suas montarias enquanto ele terminava de apertar o segundo arreio. O de Min era um capão alto cor de terra. A de Elayne, uma égua baia com um pescoço longo.
Quando já estavam montadas, Nynaeve se dirigiu uma última vez ao cavalariço.
— Sem dúvida lhe avisaram para manter isso em segredo, e nada mudou. Não importa se somos duas ou duzentas. Se pensa que isso mudou, imagine o que Liandrin fará caso você fale sobre o que o ordenaram a manter em segredo.
Enquanto saíam, Elayne jogou uma moeda para ele e murmurou:
— Pelo seu trabalho, meu bom homem. Você fez bem. — Do lado de fora, ela trocou e Egwene se entreolharam, e a Filha-herdeira sorriu. — Minha mãe sempre diz que uma vara com mel funciona melhor do que uma vara sem nada.
— Espero não precisarmos de nada disso com os guardas — respondeu Egwene. — Espero que Liandrin também tenha falado com eles.
No entanto, não havia como saber se alguém falara ou não com os guardas do Portão de Tarloman, na grande muralha meridional da área da Torre. Eles deixaram as quatro mulheres passarem sem mais do que um olhar e uma reverência obrigatória. Os guardas estavam ali para manter as pessoas perigosas do lado de fora e pareciam não ter ordens para manter alguém do lado de dentro.
Uma brisa fria do rio lhes deu uma desculpa para erguerem os capuzes dos mantos enquanto seguiam devagar pelas ruas da cidade. O som dos cascos dos cavalos nas pedras do calçamento se perdia no burburinho da multidão que enchia as ruas e na música vinda de alguns prédios pelos quais passavam. Havia gente vestida em trajes de todas as terras, das sóbrias roupas cairhienas às cores vivas e brilhantes do Povo Errante, passando por todos os estilos entre os dois extremos. As pessoas se apertavam para dar passagem a elas como um rio se abre para uma rocha, mas mesmo assim elas não conseguiam avançar em um passo mais rápido que o de uma lenta caminhada.
Egwene não prestou atenção nas fabulosas torres ligadas por pontes que cruzavam os céus e nem aos prédios que não pareciam feitos de pedra, construídos para lembrar ondas quebrando, penhascos esculpidos pelo vento ou conchas elaboradas. As Aes Sedai iam à cidade com frequência, e, naquela multidão, o grupo poderia acabar cara a cara com uma a qualquer momento. Depois de um tempo, percebeu que as outras estavam tão atentas quanto ela. Ainda assim, sentiu-se muito aliviada quando o bosque Ogier apareceu.