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— Nynaeve? Elayne?

— Nós mesmas. — O sorriso de Nynaeve foi forçado. As duas estavam com os olhos semicerrados, como se lutassem para esconder as expressões de preocupação. Min achou que nunca tivera uma visão tão maravilhosa quanto aquelas duas. — Essa cor lhe cai bem — continuou Nynaeve. — Você deveria ter começado a usar vestidos há muito tempo, embora eu até tenha pensado em usar calças quando a vi com elas. — A voz ficou mais incisiva quando a Sabedoria se aproximou o suficiente para ver o rosto de Min. — O que aconteceu? Qual o problema?

— Você andou chorando — observou Elayne. — Aconteceu alguma coisa com Egwene?

Min sobressaltou-se e olhou para trás. Uma sul’dam e uma damane desceram os mesmos degraus pelos quais ela viera e seguiram na direção dos estábulos e currais. Outra mulher usando o vestido com raios bordados estava no alto da escada, falando com alguém que ainda estava do lado de dentro. Min pegou as amigas pelo braço e as conduziu, apressada, pela rua, na direção do porto.

— Aqui é perigoso para vocês duas. Luz, Falme inteira é perigosa para vocês. Há damane por todos os lados, e se elas virem uma de vocês… Sabem o que são damane? Ah, não imaginam como é bom ver vocês duas…

— Imagino que quase tão bom quanto é ver você — respondeu Nynaeve. — Sabe onde Egwene está? Ela está em um daqueles prédios? Está bem?

Min hesitou uma fração de segundo antes de dizer:

— Ela está tão bem quanto se poderia esperar. — Min sabia que se contasse o que estava acontecendo com Egwene naquele exato momento era bem provável que Nynaeve invadisse o lugar para tentar impedir. Luz, permita que aquilo já tenha acabado. Luz, que ela baixe a cabeça ao menos uma vez antes de quase a cortarem. — Mas não sei como tirá-la de lá. Encontrei um capitão que acho que pode nos levar em seu navio, se conseguirmos chegar até lá com Egwene. Ele não vai ajudar se não conseguirmos, e não posso dizer que o culpo. Mas não tenho ideia de como fazer isso.

— Um navio — repetiu Nynaeve, pensativa. — Meu plano era apenas seguir para leste a cavalo, mas devo dizer que não estou segura dele. Tudo leva a crer que precisaríamos estar quase fora da Ponta de Toman antes de nos vermos livres das patrulhas do Seanchan. Além disso, dizem que há conflito de algum tipo na Planície de Almoth. Não tinha pensado em um navio. Nós temos cavalos, mas não temos dinheiro para a passagem. Quanto esse homem cobrou?

Min deu de ombros.

— Não cheguei a falar disso. Também não temos dinheiro. Achei que poderíamos adiar o pagamento até depois de zarpar. Depois… Bem, não acredito que ele vá nos largar em qualquer porto em que haja Seanchan. E onde quer que nos deixasse, seria melhor do que aqui. O problema é convencer o homem a ir. Querer ele quer, mas também estão patrulhando a saída do porto, e não há como dizer se haverá uma damane nos navios de patrulha até que seja tarde demais. Ele sempre diz: “Arranje uma damane para meu convés, e eu zarpo agora mesmo.” E então começa a falar sobre calado, baixios e sota-vento. Eu não entendo nada disso, mas, se sorrir e balançar a cabeça de vez em quando, ele continua falando. Acho que, se conseguir mantê-lo falando por tempo suficiente, ele vai convencer a si mesmo a partir. — Ela respirou fundo, trêmula, e seus os olhos começaram a lacrimejar outra vez. — Só que acho que não temos mais tempo para deixar que ele se convença sozinho. Nynaeve, eles vão mandar Egwene para Seanchan, e não vai demorar muito.

Elayne engasgou.

— Mas por quê?

— Ela consegue encontrar minérios — explicou Min, arrasada. — Ela disse que é uma questão de dias, e não sei se isso será o suficiente para o homem se convencer. Mesmo que seja, como vamos tirar aquele maldito colar da Sombra do pescoço dela? Como vamos tirá-la da casa?

— Queria que Rand estivesse aqui — suspirou Elayne. Quando as outras duas olharam para ela, a jovem enrubesceu e acrescentou mais do que depressa: — Bem, ele tem uma espada. Queria que tivéssemos alguém com uma espada. Dez deles. Cem.

— Não é de espadas ou músculos que precisamos agora — retrucou Nynaeve —, mas de cérebro. Os homens costumam pensar com o cabelo do peito. — Ela tocou o seio, absorta, como se tateasse algo embaixo do casaco. — A maioria deles, pelo menos.

— E precisaríamos de um exército — completou Min. — Um exército bem grande. Os Seanchan estavam em menor número quando enfrentaram os tarabonianos e domaneses, e venceram todas as batalhas com facilidade, pelo que soube. — Ela puxou Nynaeve e Elayne depressa para o outro lado da rua, quando uma damane e uma sul’dam passaram por onde estavam. Ficou aliviada por não precisar insistir: as outras observaram as mulheres se afastarem com tanta cautela quanto ela. — Já que não temos um exército, teremos que nos virar só nós três. Espero que uma de vocês consiga pensar em algo em que eu ainda não pensei. Já quebrei a cabeça, mas sempre empaco quando chego no a’dam, com a corrente e o colar. As sul’dam não gostam que ninguém as observe quando abrem os braceletes. Acho que consigo colocar vocês lá dentro, se isso ajudar. Pelo menos uma de vocês. Elas me veem como uma serviçal, mas posso receber visitas. Desde que não saiam dos aposentos das serviçais.

Nynaeve franziu a testa, pensativa, mas sua expressão se desanuviou quase tão depressa, assumindo um semblante decidido.

— Não se preocupe, Min. Eu tenho algumas ideias. Não passei esse tempo todo sem fazer nada. Você vai me levar até esse homem. Se for mais di ícil lidar com ele do que com o Conselho da Aldeia contra a parede, eu como esse casaco.

Elayne assentiu com um grande sorriso, e Min sentiu esperança de verdade pela primeira vez desde que chegara em Falme. Por um instante, se surpreendeu lendo as auras das outras duas. Havia perigo, mas era de se esperar… E havia coisas novas entre as imagens que vira antes. Isso às vezes acontecia. Um anel de homem, feito de ouro, flutuava sobre a cabeça de Nynaeve. Sobre a de Elayne havia um ferro incandescente e um machado. Aquilo indicava problemas, Min tinha certeza, mas pareciam distantes, em algum momento futuro. A leitura durou apenas um segundo, e então tudo o que viu foi que Elayne e Nynaeve a observavam, com expectativa.

— É lá embaixo, perto do porto — disse.

Quanto mais desciam, mais movimentada ficava a ladeira. Mascates de rua esbarravam em mercadores que vinham das aldeias do interior com os carroções. Eles não partiriam até que o inverno chegasse e fosse embora. Ambulantes carregando bandejas anunciavam seus produtos para os passantes, falmenos com mantos bordados esbarravam em famílias de camponeses que vestiam casacos de lã. Muita gente fugia das aldeias mais distantes da costa para a cidade. Min não via sentido naquilo, já que haviam trocado a ameaça de uma visita dos Seanchan pela certeza de estarem cercados por eles, mas ouvira falar sobre o que aquele exército fazia quando visitava uma aldeia pela primeira vez, e não culpava os aldeões por temerem outra aparição. Todos se curvavam quando um Seanchan passava ou quando uma liteira encortinada era carregada pela ladeira íngreme.

Min ficou aliviada ao notar que Nynaeve e Elayne sabiam que deveriam fazer reverências. Os carregadores sem camisa não davam mais importância às pessoas que se curvavam do que os soldados arrogantes, em suas armaduras. Mas deixar de fazê-lo com certeza chamaria atenção.

Elas conversaram um pouco enquanto desciam a rua, e Min ficou surpresa em saber que as outras haviam chegado à cidade poucos dias depois dela e Egwene. No entanto, depois de um instante concluiu que não era de se espantar que não tivessem se encontrado. Não era fácil encontrar alguém por acaso, com aquela multidão nas ruas. Min relutava em passar mais tempo do que o necessário longe da amiga capturada. Sempre ficava com medo de chegar para a visita semanal que lhe era permitida e descobrir que a menina não estava mais lá. E agora é o que vai acontecer. A não ser que Nynaeve consiga pensar em uma solução.