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Ela deixou o tricô cair no colo.

— Não sei por que estou tentando fazer isso esta noite. Não consigo acertar os pontos, por algum motivo. Ela desceu para ver Padan Fain. Acha que ver rostos conhecidos pode ajudá-lo.

— O meu com certeza não ajudou. Ela devia ficar longe dele. Ele é perigoso.

— Ela quer ajudá-lo — respondeu Nynaeve, muito calma. — Lembre-se, ela estava treinando para ser minha assistente, e ser uma Sabedoria não é só fazer a previsão do tempo. Curar também faz parte. Egwene tem o desejo de curar na verdade, tem essa necessidade. E, se Padan Fain fosse tão perigoso, Moiraine teria dito alguma coisa.

Ele riu.

— Vocês não perguntaram a ela. Egwene admitiu, e não consigo imaginar você pedindo permissão para alguma coisa. — A sobrancelha erguida dela apagou o riso do rosto dele, mas o rapaz se recusou a pedir desculpas. Estavam muito longe de casa, e ele não via como ela poderia continuar sendo a Sabedoria do Campo de Emond se estava indo para Tar Valon. — Eles já começaram a me procurar? Egwene não tem certeza de que vão fazer isso, mas Lan disse que o Trono de Amyrlin está aqui por minha causa, e eu acho que confio mais na opinião dele.

Por um momento, Nynaeve não respondeu. Em vez disso, revirou seus novelos de lã. Por fim, disse:

— Não tenho certeza. Uma das serviçais veio há pouco para preparar a cama, segundo ela. Como se Egwene já fosse dormir, com o banquete para a Amyrlin esta noite! Eu a mandei embora, ela não viu você.

— Ninguém prepara a cama para nós na ala dos homens. — Ela lhe lançou um olhar frio, que um ano antes o teria feito gaguejar. Ele sacudiu a cabeça. — Elas não usariam as serviçais para me procurar, Nynaeve.

— Quando fui à adega pegar uma xícara de leite mais cedo, havia mulheres demais nos corredores. As convidadas para o banquete já deveriam estar se vestindo, e as criadas deveriam estar ajudando-as, ou se preparando para o serviço, ou para… — Ela franziu a testa, preocupada. — Há trabalho mais do que o suficiente para todos, com a Amyrlin aqui. E elas não estavam só na ala das mulheres. Eu vi a própria Lady Amalisa saindo de uma das despensas perto da adega com o rosto todo coberto de pó.

— Isso é ridículo. Por que ela estaria participando da busca? Ou qualquer uma das mulheres, aliás? Elas vão usar os soldados do Lorde Agelmar e os Guardiões. E as Aes Sedai. Devem estar apenas preparando algo para o banquete. Que me queime, não faço ideia de quais são os preparativos para um banquete em Shienar!

— Às vezes você é um cabeça de lã, Rand. Os homens que vi também não sabiam o que as mulheres estavam fazendo. Ouvi alguns deles reclamando sobre terem que fazer o trabalho inteiro sozinhos. Eu sei que não faz sentido elas estarem procurando por você, nenhuma das Aes Sedai parecia minimamente interessada. Mas Amalisa não estava se preparando para o banquete enquanto sujava o vestido em uma despensa. Elas estavam procurando algo; algo importante. Mesmo que começasse a se arrumar logo depois que a vi, mal teria tempo de tomar banho e trocar de roupa. Falando nisso, se Egwene não voltar logo, ela vai ter que escolher entre se trocar ou chegar atrasada.

Só então, ele percebeu que Nynaeve não estava usando as roupas de lã de Dois Rios com as quais ele estava acostumado. Seu vestido de seda era azul-claro, bordado com botões de campainha-branca ao redor do colo e nas mangas. Cada botão tinha uma minúscula pérola no centro, e seu cinturão era trabalhado em prata, com uma fivela incrustada de pérolas. Ele nunca vira a Sabedoria usando algo parecido, nem mesmo as roupas de festival em sua terra se comparavam àquilo.

— Você vai ao banquete?

— É claro. Mesmo que Moiraine não tivesse dito que eu deveria ir, nunca a deixaria pensar que eu…

Seus olhos se iluminaram com um brilho feroz por um momento, e ele soube a que ela se referia. Nynaeve jamais deixaria que alguém pensasse que ela estava com medo, mesmo que fosse verdade. Muito menos Moiraine, e Lan menos ainda. Esperava que ela não desconfiasse que ele sabia de seus sentimentos pelo Guardião.

Depois de um momento, ela fitou as mangas de seu vestido e seu olhar se suavizou.

— Lady Amalisa me deu isto — comentou, tão baixo que Rand se perguntou se ela estava falando sozinha. A mulher acariciou a seda, sentindo as flores bordadas e sorrindo, perdida em pensamentos.

— Fica muito bonito em você, Nynaeve. Você está bonita hoje. — Ele fez uma careta assim que disse isso.

Toda Sabedoria era muito sensível com relação à sua autoridade, mas Nynaeve era mais do que a maioria. O Círculo das Mulheres sempre tentava cuidar dela porque era jovem e talvez porque fosse bonita, e suas brigas com o Prefeito e o Conselho da Aldeia eram assunto de muitas histórias.

Ela tirou a mão do bordado bruscamente e olhou para ele, irritada, franzindo as sobrancelhas. Ele falou depressa, para evitar que ela dissesse algo.

— Eles não podem manter os portões fechados para sempre. Assim que forem abertos, irei embora e, então, as Aes Sedai nunca mais vão me encontrar. Perrin diz que existem lugares nas Colinas Negras e na Planície de Caralain onde é possível andar por dias sem encontrar ninguém. Talvez… talvez eu possa descobrir o que fazer sobre… — Ele deu de ombros, incomodado. Não havia necessidade de dizer aquilo, não para ela. — E se eu não conseguir, não vou machucar ninguém.

Nynaeve ficou em silêncio por um instante, então falou, devagar:

— Não tenho tanta certeza, Rand. Não posso dizer que você parece mais do que um rapaz de aldeia para mim, mas Moiraine insiste que você é ta’veren, e acho que ela não acredita que a Roda já fez tudo o que podia com você. O Tenebroso parece…

— Shai’tan está morto — interrompeu, ríspido, e o quarto pareceu se inclinar de repente. Ele levou as mãos à cabeça quando uma onda de tontura se abateu sobre ele.

— Seu tolo! Seu tolo, cego e idiota! Nomeando o Tenebroso, atraindo a atenção dele! Já não tem problemas o suficiente?

— Ele está morto — murmurou Rand, esfregando a cabeça. Engoliu em seco. A tontura estava passando. — Está certo, está certo. Ba’alzamon, se você prefere assim. Mas ele está morto: eu o vi morrer, eu o vi queimar.

— E acha que eu não vi sua reação quando o olho do Tenebroso caiu sobre você, agora mesmo? Não me diga que não sentiu nada que lhe dou um tabefe! Eu vi seu rosto.

— Ele está morto — insistiu Rand. A lembrança dos olhos invisíveis e do vento no topo da torre passou pela sua cabeça, e ele estremeceu. — Coisas estranhas acontecem assim tão perto da Praga.

— Você é um tolo, Rand al’Thor. — Ela sacudiu um punho em sua direção. — Eu lhe daria um tabefe se achasse que isso o ajudaria a ter bom sen…

O resto da frase foi engolida quando sinos soaram por toda a fortaleza.

Ele se levantou de um salto.

— Isso é um alarme! Eles estão procurando…

Nomeie o Tenebroso, e o mal cairá sobre você.

Nynaeve se levantou mais devagar, sacudindo a cabeça, incomodada.

— Não, acho que não. Se estivessem procurando por você, tudo o que os sinos fariam seria alertá-lo. Não. Se é um alarme, não é por sua causa.

— Então por quê?

Ele correu até a seteira mais próxima e espiou o lado de fora.

Luzes disparavam como vagalumes pela fortaleza coberta pelo manto da noite, lampiões e tochas carregados de um lado para o outro. Algumas iam até as muralhas externas e as torres, mas a maioria seguia pelo jardim abaixo e o único pátio que ele podia vislumbrar. O que quer que tivesse provocado o alarme estava dentro da fortaleza. Os sinos silenciaram, e Rand pôde ouvir os gritos de homens, mas era impossível entender o que estavam gritando.

Se não é por minha causa…