Выбрать главу

Quando seus olhos encontraram a mesa, ele ficou paralisado. Sua respiração e até seu pensamento estavam congelados. De cada lado do lampião ainda aceso, como se ele fosse um enfeite central, estavam as cabeças dos guardas, com duas poças de sangue. Os olhos deles o encaravam, arregalados de medo, e suas bocas estavam escancaradas em um último grito que ninguém podia ouvir. Tomado pela náusea, Rand se curvou e vomitou na palha. Por fim, conseguiu se levantar, limpando a boca com a manga. Sua garganta ardia.

Lentamente, ele foi se dando conta do que havia no restante do aposento, antes visto apenas de relance quando entrou desesperado atrás de um agressor. Pedaços de carne ensanguentada jaziam espalhados pelo chão coberto de palha. Não reconhecia outros restos humanos; apenas as duas cabeças. Alguns dos pedaços pareciam mastigados. Então foi isso o que aconteceu com os corpos. Ele ficou surpreso com a calma de seus pensamentos, quase como se tivesse conjurado o vazio sem tentar. Era o choque, percebeu vagamente.

Não reconheceu nenhuma das cabeças: os guardas haviam sido trocados desde que estivera ali mais cedo. Ficou feliz por isso. Conhecê-los, mesmo que fosse Changu, teria sido ainda pior. O sangue cobria as paredes também, mas em garranchos, palavras soltas e frases inteiras espalhadas por todos os lados. Algumas eram duras e angulosas, em um idioma que ele não entendia, embora reconhecesse a escrita Trolloc. Outras, ele conseguia decifrar, e preferiu não ter conseguido. Blasfêmias e obscenidades ruins o bastante para fazer um cavalariço ou um guarda de mercador empalidecer.

— Egwene. — A calma desapareceu. En fiando a bainha no cinturão, ele arrancou o lampião da mesa, mal reparando quando as cabeças tombaram. — Egwene! Cadê você?

Ele começou a seguir na direção da porta interna e parou após dar dois passos. As palavras na porta, escuras e reluzentes, parecendo molhadas à luz de seu lampião, eram claras o bastante. Vamos nos reencontrar na Ponta de Toman. Nunca Termina, Al’Thor. Sua mão, subitamente dormente, largou a espada. Sem tirar os olhos da porta, ele se abaixou para pegá-la, mas, em vez disso, agarrou um punhado de palha e começou a esfregar com força as palavras escritas na porta. Ofegante, esfregou até transformá-las em uma mancha sangrenta, mas não conseguia parar.

— O que você está fazendo?

Ao ouvir a voz ríspida atrás de si, ele deu meia-volta, abaixando-se para pegar a espada.

Uma mulher estava parada no umbral externo, com as costas rígidas de indignação. Seus cabelos eram como ouro claro, presos em uma dezena de tranças ou mais, porém tinha olhos escuros e aguçados. Ela não parecia muito mais velha do que ele e era bonita de um modo mal-humorado, mas sua boca estava contraída de um jeito que ele não gostou. Então, viu o xale que ela mantinha bem amarrado ao corpo, com as longas franjas vermelhas.

Aes Sedai. E que a Luz me ajude, ela é da Ajah Vermelha.

— Eu… Eu estava só… É uma coisa suja. Vil.

— Tudo deve ser deixado exatamente como está, para ser examinado. Não toque em nada. — Ela deu um passo à frente, olhando bem para ele, que deu um passo para trás. — Sim. Sim, como pensei. Um dos que estão com Moiraine. O que você tem a ver com isso? — Ela gesticulou, indicando as cabeças em cima da mesa e os rabiscos sangrentos nas paredes.

Por um momento, ele apenas olhou para ela com os olhos arregalados.

— Eu? Nada! Vim procurar… Egwene!

Ele se virou para abrir a porta interna, mas a Aes Sedai gritou:

— Não! Você vai me responder!

De repente, ele quase não conseguiu se manter de pé, segurando o lampião e a espada. Um frio gelado que vinha de todas as direções o pressionou. Parecia que sua cabeça estava presa a um bloco de gelo. Mal conseguia respirar com a pressão que sentia no peito.

— Responda, garoto. Diga seu nome.

Ele soltou um grunhido involuntário, tentando responder apesar do ar frio que parecia pressionar seu rosto para dentro do crânio, apertando seu peito como faixas de ferro geladas. Trincou os maxilares para abafar o som. Lutando contra a dor, voltou os olhos para encará-la, furioso, através de um borrão de lágrimas. Que a Luz a queime, Aes Sedai! Não direi uma palavra, a Sombra que a carregue!

— Responda-me, garoto! Agora!

Agulhas de gelo o afligiram, perfurando seu cérebro, raspando em seus ossos. O vazio se formou sem que Rand se desse conta de que tinha pensado nele, mas não foi suficiente para conter a dor. Aos poucos, sentiu luz e calor em algum lugar distante. Algo tremeluzia de forma nauseante, mas a luz era quente, e ele sentia frio. Estavam além do conhecimento, mas de algum modo logo ao seu alcance. Luz, está tão frio. Eu preciso alcançar… O quê? Ela está me matando. Preciso alcançar ou ela vai me matar. Desesperado, ele lutou para alcançar a luz.

— O que está acontecendo aqui?

De repente, o frio, a pressão e as agulhas desapareceram. Seus joelhos quase cederam, mas ele os forçou a ficarem firmes. Ele não cairia de joelhos, não lhe daria aquela satisfação. O vazio também desaparecera, de forma tão súbita quanto surgira. Ela estava tentando me matar . Ele levantou a cabeça, ofegante. Moiraine estava parada na porta.

— Eu perguntei o que está acontecendo, Liandrin — repetiu ela.

— Encontrei este garoto aqui — respondeu calmamente a Aes Sedai Vermelha. — Foram assassinados os guardas, e aqui está ele. Um dos seus. E o que você está fazendo neste lugar, Moiraine? A batalha é lá em cima, não aqui.

— Eu poderia fazer a mesma pergunta, Liandrin. — Moiraine analisou o aposento, apenas comprimindo um pouco os lábios ao notar a carnificina. — Por que você está aqui?

Rand deu as costas às duas, puxou desajeitadamente as trancas da porta interna e a abriu.

— Egwene desceu por aqui — anunciou para quem quisesse saber e foi em frente, segurando o lampião bem alto. Seus joelhos continuavam querendo ceder, ele não sabia ao certo como ainda estava de pé, só que precisava encontrar Egwene. — Egwene!

Um gorgolejo e o som de algo se debatendo vieram da sua direita, e ele ergueu o lampião na direção do barulho. O prisioneiro do casaco bonito estava caído contra a grade de ferro de sua cela, uma ponta do cinturão amarrada entre as barras e a outra enlaçando seu pescoço. Diante dos olhos de Rand, ele deu um último chute, raspando a ponta do pé no chão coberto de palha, e ficou parado com a língua e os olhos saltando de seu rosto quase preto. Seus joelhos quase tocavam o chão, e ele podia ter se levantado a qualquer momento.

Com um calafrio, Rand espiou a cela seguinte. O homem grande com as mãos machucadas estava encolhido no fundo da cela, com os olhos completamente arregalados. Ao ver Rand, ele gritou e lhe deu as costas, arranhando desesperado a parede de pedra.

— Eu não vou machucar você — disse Rand.

O homem continuava a gritar e arranhar. Suas mãos estavam ensanguentadas, e seus dedos riscavam manchas escuras de sangue coagulado. Aquela não era sua primeira tentativa de escavar a rocha com as mãos nuas.

Rand lhe deu as costas, aliviado por seu estômago já estar vazio. Não havia nada que pudesse fazer por nenhum dos dois.

— Egwene!

A luz finalmente chegou ao fim das celas. A porta da cela de Fain estava escancarada, e a cela estava vazia, mas foram as duas figuras inertes no chão de pedra em frente à cela que fizeram Rand avançar com um pulo e cair ajoelhado entre elas.

Egwene e Mat estavam caídos no chão como bonecos de trapo, inconscientes… ou mortos. Então percebeu, aliviado, que ainda respiravam. Não parecia haver sequer uma marca neles.

— Egwene? Mat? — Colocando a espada no chão, ele sacudiu Egwene com delicadeza. — Egwene? — Ela não abriu os olhos. — Moiraine! Egwene está ferida! E Mat também! — Mat parecia respirar com dificuldade, e seu rosto estava mortalmente pálido. Rand quase sentiu vontade de chorar. Era para vir atrás de mim. Fui eu quem nomeou o Tenebroso. Eu!