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— É uma longa história — disse Rand. — Longa demais para contar aqui. Talvez outra hora. — Talvez nunca, se eu tiver sorte. Talvez eu consiga escapar no meio de toda esta confusão. Não, não posso. Não até saber que Egwene está bem. E Mat. Luz, o que acontecerá com ele, sem a adaga? — Suponho que Lorde Agelmar tenha redobrado a guarda em todos os portões.

— Ele triplicou — retrucou Ingtar, em um tom satisfeito. — Ninguém passará por aqueles portões, de dentro ou de fora. Assim que Lorde Agelmar soube do acontecido, ordenou que ninguém deixasse a fortaleza sem sua permissão.

Assim que soube…?

— Ingtar, e antes? E a ordem anterior, de que ninguém deveria sair?

— Ordem anterior? Que ordem anterior? Rand, a fortaleza não estava fechada até o Lorde Agelmar ficar sabendo disso. Alguém lhe informou mal.

Rand balançou a cabeça devagar. Nem Ragan nem Temma teriam inventado uma coisa daquelas. E, mesmo que o Trono de Amyrlin tivesse dado a ordem, Ingtar saberia. Então quem? E como? Ele examinou Ingtar disfarçadamente, se perguntando se o shienarano estava mentindo. Você realmente está ficando louco, se suspeita de Ingtar.

Eles voltaram ao aposento da guarda do calabouço. As cabeças cortadas e os restos dos guardas haviam sido levados, embora ainda tivesse manchas vermelhas na palha, indicando onde haviam estado. Duas plácidas Aes Sedai de xales de franjas marrons estavam ali, estudando as palavras rabiscadas nas paredes sem se preocupar com suas saias arrastando na palha. Ambas tinham um tinteiro em uma pasta pendurada no cinturão e faziam anotações com uma pena em um livreto. Elas sequer olharam para os soldados que passaram por elas.

— Olhe aqui, Verin — disse uma delas, apontando para um trecho da pedra com linhas de escrita Trolloc. — Isto parece interessante.

A outra foi correndo, sujando a saia com manchas vermelhas.

— Sim, estou vendo. Uma caligra ia muito melhor do que as outras. Não é de um Trolloc. Muito interessante. — Ela começou a fazer anotações em seu livro, olhando para cima a todo instante, a fim de ler as letras angulares na parede.

Rand se apressou em sair. Mesmo que não fossem Aes Sedai, ele não gostaria de permanecer no mesmo aposento que alguém que considerava palavras Trolloc escritas com sangue humano algo “interessante”.

Ingtar e seus homens seguiram em frente, concentrados em suas tarefas. Rand ficou por ali, sem saber para onde ir. Voltar para a ala das mulheres não seria fácil sem a ajuda de Egwene. Luz, que ela esteja bem! Moiraine disse que ela ficaria bem.

Lan o encontrou antes que subisse as primeiras escadarias.

— Pode voltar ao seu quarto se quiser, pastor. Moiraine mandou buscar suas coisas no quarto de Egwene e levar para o seu.

— Como ela sabia…?

— Moiraine sabe de muitas coisas, pastor. Você já devia ter se acostumado. É melhor tomar cuidado, as mulheres estão todas falando sobre você disparando pelos corredores, brandindo uma espada. Chegou a encarar a Amyrlin, elas dizem.

— Luz! Lamento que elas estejam zangadas, Lan, mas eu fui convidado a entrar. E quando ouvi o alarme… que me queime, Egwene estava aqui embaixo!

Lan comprimiu os lábios, pensativo. Aquela era a única expressão no rosto dele.

— Ah, elas não estão exatamente zangadas, embora a maioria ache que você precisa de uma mão forte para colocá-lo em seu lugar. Fascinadas seria uma palavra mais adequada. Até mesmo Lady Amalisa não para de fazer perguntas a seu respeito. Algumas estão começando a acreditar que você é um príncipe disfarçado, pastor. Não é uma coisa ruim. Há um velho ditado aqui nas Terras de Fronteira: “Melhor uma mulher ao seu lado do que dez homens.” Do jeito que estão falando, parecem tentar decidir quem tem uma ilha forte o bastante para domar você. Se não tomar cuidado, pastor, vai acabar se casando em uma Casa de Shienar sem nem perceber. — Ele explodiu em gargalhadas. Era estranho, parecia uma rocha gargalhando. — Disparando pelos corredores dos apartamentos das mulheres no meio da noite, vestindo um colete de trabalhador e brandindo uma espada. Se elas não o mandarem para o açoite, no mínimo falarão de você por anos. Elas nunca viram um homem tão estranho. Independente de qual esposa escolherem, ela provavelmente fará de você o chefe de sua Casa em dez anos e ainda o faria pensar que a ideia foi sua. Que pena que precisa ir embora!

Rand estivera olhando boquiaberto para o Guardião, mas acabou soltando um grunhido.

— Eu tentei. Os portões estavam sendo vigiados e ninguém podia partir. Eu tentei enquanto ainda era dia, mas não consegui nem tirar o Vermelho do estábulo.

— Agora não importa. Moiraine me pediu para lhe contar. Você pode partir a hora que quiser. Até mesmo agora. Moiraine pediu a Agelmar para que a ordem não se aplicasse a você.

— Por que agora, e não antes? Por que eu não podia sair antes? Foi ela quem mandou barrar os portões, então? Ingtar disse que não estava sabendo de nenhuma ordem de antes de hoje à noite sobre ninguém poder sair.

Rand achou que o Guardião pareceu preocupado, mas tudo o que disse foi:

— Quando alguém lhe dá um cavalo, pastor, não reclame que ele não é tão rápido quanto gostaria.

— E Egwene? E Mat? Eles estão mesmo bem? Não posso ir embora até saber se eles estão bem.

— A garota está bem. Ela vai acordar pela manhã e provavelmente nem vai se lembrar do que aconteceu. Pancadas na cabeça fazem isso.

— E quanto a Mat?

— A escolha é sua, pastor. Você pode partir agora ou amanhã, ou mesmo na semana que vem. A escolha é sua. — Ele se afastou, deixando Rand parado em pé no corredor, nos subterrâneos da fortaleza de Fal Dara.

7

Sangue Chama Sangue

Quando a liteira que levava Mat deixou os aposentos do Trono de Amyrlin, Moiraine pegou o angreal, uma pequena escultura envelhecida de mar fim representando uma mulher envolta em mantos esvoaçantes, e o embrulhou com muito cuidado em um quadrado de seda, para então guardá-lo de volta na bolsa. Trabalhar com outras Aes Sedai, reunir suas habilidades e canalizar o luxo do Poder Único para uma tarefa era algo muito exaustivo mesmo nas melhores condições, ainda que com a ajuda de um angreal. E fazê-lo durante a noite, sem dormir, não era das melhores condições. Além disso, o trabalho com o garoto não havia sido fácil.

Leane orientou os homens que carregavam a liteira com alguns gestos ríspidos e poucas palavras duras. Os dois abaixavam a cabeça a todo instante, nervosos por estarem na presença de tantas Aes Sedai ao mesmo tempo, uma delas a própria Amyrlin. Ainda por cima, Aes Sedai que tinham acabado de usar o Poder. Eles haviam aguardado no corredor, agachados junto à parede enquanto as mulheres trabalhavam, e agora estavam ansiosos para sair da ala das mulheres. Mat jazia de olhos fechados, com o rosto pálido, mas seu peito subia e descia no ritmo regular de um sono profundo.

Como isso afetará a situação? , perguntou-se Moiraine. Ele não é mais necessário, agora que a Trombeta foi levada, mas ainda assim…

A porta se fechou atrás de Leane e dos homens com a liteira, e a Amyrlin respirou fundo, ligeiramente trêmula.

— Que coisa horrível! Horrível! — Sua expressão estava tranquila, mas ela esfregou as mãos como se quisesse lavá-las.

— Mas muito interessante — comentou Verin. Ela era a quarta Aes Sedai que a Amyrlin escolhera para ajudá-las. — É uma pena que não tivéssemos a adaga, para realizar uma Cura completa. Apesar de tudo o que fizemos esta noite, ele não viverá muito tempo. Restam-lhe alguns meses, talvez, na melhor das hipóteses.

As três Aes Sedai estavam sozinhas nos aposentos da Amyrlin. Por trás das seteiras, a aurora cobria o céu com uma camada perolada.