— Mas pelo menos agora ele terá esses meses — respondeu Moiraine, de forma brusca. — E, se recuperarmos a adaga, o vínculo ainda pode ser quebrado. Se conseguirmos recuperá-la. Sim, é claro.
— Ainda pode ser quebrado — concordou Verin. Era uma mulher rechonchuda, de rosto quadrado e, mesmo com o dom das Aes Sedai de aparentar uma idade indefinida, uns poucos fios grisalhos se espalhavam por seus cabelos castanhos. Era o único sinal de envelhecimento, mas, em uma Aes Sedai, indicava que era de fato muito velha. Sua voz se mantinha firme, em harmonia com o rosto sem rugas. — Entretanto, não podemos esquecer que ele está ligado à adaga há bastante tempo. E ficará ainda mais tempo, seja ela encontrada ou não. Pode ser que ele já esteja além do alcance da Cura total, mesmo que não o suficiente para contaminar outros. É tão pequena aquela adaga — comentou —, mas é capaz de corromper quem a carregar por tempo o bastante. E quem carregá-la, por sua vez, corromperá aqueles com quem entrar em contato, que vão corromper outros, e o ódio e a desconfiança que destruíram Shadar Logoth correrão pelo mundo outra vez, fazendo com que a mão de cada homem e de cada mulher se volte contra os outros. Eu me pergunto quantas pessoas ela pode macular em, digamos, um ano. Deve ser possível fazer um cálculo aproximado.
Moiraine lançou um olhar seco à irmã Marrom. Mais um perigo se apresenta, e ela fala como se fosse um enigma de um livro. Luz, as Marrons realmente não prestam atenção ao restante do mundo.
— Então precisamos encontrar a adaga, Irmã. Agelmar enviará homens para perseguir os que pegaram a Trombeta e mataram seus sacramentados, que são os mesmos que pegaram a adaga. Se a Trombeta for encontrada, a adaga também será.
Verin assentiu, mas franziu a testa ao mesmo tempo.
— Mas, mesmo que seja encontrada, quem poderá devolvê-la em segurança? Quem a tocar corre o risco de se macular, se ficar com ela por muito tempo. Talvez em um baú, bem embrulhada e almofadada… só que, ainda assim, ela seria perigosa para quem ficar perto por tempo demais. Sem a própria adaga para estudar, não podemos ter certeza de quantas barreiras de proteção ela precisa. Mas você a viu. E mais, Moiraine: você lidou com ela, fez o suficiente para aquele jovem sobreviver carregando-a sem infectar outros. Você deve ter uma boa ideia da força dessa influência.
— Há alguém — disse Moiraine — que pode recuperar a adaga sem ser ferido. Alguém a quem já protegemos e isolamos do efeito da mácula o máximo possíveclass="underline" Mat Cauthon.
A Amyrlin assentiu.
— Sim, é claro. Pode ser ele. Se viver o bastante. Só a Luz sabe até onde ela será levada antes que os homens de Agelmar a encontrem. Se a encontrarem. E se o rapaz morrer antes… Bem, se a adaga ficar à solta por tanto tempo, teremos outra preocupação. — Ela esfregou os olhos, cansada. — Acho que também precisamos encontrar esse tal de Padan Fain. Por que esse Amigo das Trevas é tão importante para se arriscarem daquele jeito a fim de resgatá-lo? Teria sido muito mais fácil apenas roubar a Trombeta. Entrar na fortaleza como fizeram seria, de qualquer forma, tão arriscado quanto um temporal de inverno no Mar das Tempestades, mas eles se arriscaram ainda mais para libertar o Amigo das Trevas. Se os Espreitadores o consideram tão importante… — Ela hesitou, e Moiraine sabia que a mulher estava se perguntando se ainda era apenas o Myrddraal que dava as ordens. — Então também devemos considerá-lo.
— Ele precisa ser encontrado — concordou Moiraine, torcendo para que a urgência que sentia não transparecesse —, mas é provável que seja encontrado junto com a Trombeta.
— Se é o que diz, Filha. — A Amyrlin levou a mão à boca para conter um bocejo. — Agora, Verin, se você me der licença, trocarei algumas palavras com Moiraine e depois dormirei um pouco. Imagino que Agelmar insistirá em oferecer um banquete esta noite, já que o de ontem foi arruinado. Sua ajuda foi valiosa, Filha. Por favor, lembre-se de não comentar sobre a natureza do ferimento do rapaz com ninguém. Algumas de suas irmãs veriam a Sombra nele, em vez de algo feito pelos homens.
Não havia necessidade de citar a Ajah Vermelha. E talvez, pensou Moiraine, as Vermelhas não fossem mais as únicas de quem era preciso desconfiar.
— É claro que não direi nada, Mãe. — Verin fez uma mesura, mas não se moveu na direção da porta. — Imaginei que a senhora pudesse querer ver isto, Mãe. — Ela tirou do cinturão um pequeno caderno de anotações com a capa marrom de couro macio. — É o que estava escrito nas paredes do calabouço. Não tivemos muita dificuldade de traduzir. A maioria dizia as coisas de sempre: blasfêmias e a firmações arrogantes. Parece que os Trollocs não sabem dizer muito mais que isso. No entanto, havia uma parte em uma caligra ia melhor, de um Amigo das Trevas culto ou talvez de um Myrddraal. Podia ser apenas provocação, mas tem forma de poesia, ou canção, e soa como uma profecia. Pouco sabemos sobre as profecias da Sombra, Mãe.
A Amyrlin hesitou por um instante, antes de assentir. Profecias da Sombra, profecias das trevas que tinham o costume infeliz de se cumprirem com a mesma frequência que as da Luz.
— Leia para mim.
Verin folheou as páginas, então pigarreou e começou a ler calmamente:
“A filha da Noite volta a caminhar.
A guerra é antiga, e ela ainda luta.
Procura um novo amante, que a servirá e morrerá,
mas continuará a servi-la.
Quem resistirá à sua vinda?
As Muralhas Reluzentes se ajoelharão.
Sangue alimenta sangue.
Sangue chama sangue.
Sangue é, sangue foi e sangue sempre será.
O que canaliza está só.
E oferece os amigos em sacrifício.
Duas estradas se estendem à sua frente: uma leva à morte além da morte,
outra, à vida eterna.
Qual escolherá? Qual escolherá?
Que mão protegerá? Que mão matará?
Sangue alimenta sangue.
Sangue chama sangue.
Sangue é, sangue foi e sangue sempre será.
Luc chegou às Montanhas de Dhoom.
Isam aguardou nas passagens altas.
A caçada começou. Os cães da Sombra agora
caçam e matam.
Um viveu e outro morreu, mas ambos são.
O Tempo de Mudança chegou.
Sangue alimenta sangue.
Sangue chama sangue.
Sangue é, e sangue foi, e sangue sempre será.
Os Vigias aguardam na Ponta de Toman.
A semente do Martelo queima a árvore antiga.
A morte plantará, e o verão queimará antes que venha
o Grande Senhor.
A morte colherá, e corpos cairão antes que venha
o Grande Senhor.
Outra vez a semente mata o mal ancestral antes que venha
o Grande Senhor.
O Grande Senhor está vindo.
O Grande Senhor está vindo.
Sangue alimenta sangue.
Sangue chama sangue.
Sangue é, e sangue foi, e sangue sempre será.
O Grande Senhor está vindo.” Houve um longo silêncio depois que ela terminou.
Por fim, a Amyrlin disse:
— Quem mais viu isso, Filha? Quem sabe disso?
— Apenas Serafelle, Mãe. Assim que copiamos, mandei os homens limparem as paredes. Eles não questionaram, pois estavam ansiosos para se ver livres daquilo.