A Amyrlin assentiu.
— Ótimo. Muita gente nas Terras da Fronteira sabe decifrar a escrita Trolloc. Não há necessidade de lhes dar mais preocupações. Eles já têm o suficiente.
— O que você entendeu? — perguntou Moiraine, dirigindo-se a Verin com cuidado. — Acha que é uma profecia?
Verin inclinou a cabeça, olhando pensativa para suas anotações.
— É possível. Segue o estilo de algumas das poucas profecias da Sombra que conhecemos. E alguns trechos são bastante óbvios, mas podem ser apenas provocações. — Ela apontou para uma das linhas. — “A Filha da Noite volta a caminhar” pode significar que Lanfear está à solta outra vez. Ou que alguém quer que pensemos isso.
— Isso seria preocupante, Filha — disse o Trono de Amyrlin —, se fosse verdade. Mas os Abandonados ainda estão presos. — Ela olhou de relance para Moiraine, parecendo perturbada por um instante, antes de controlar sua expressão. — Mesmo que os selos estejam enfraquecendo, os Abandonados ainda estão presos.
Lanfear. Na Língua Antiga, Filha da Noite. Seu nome verdadeiro não estava registrado em lugar algum, mas aquele era o nome que ela escolhera para si, diferentemente da maioria dos Abandonados, que haviam sido nomeados por aqueles a quem traíram. Alguns diziam que ela fora, depois de Ishamael, chamada de Traidora da Esperança, a mais poderosa dos Abandonados, mas mantivera seus poderes em segredo. Não restavam registros suficientes daquele tempo para qualquer estudioso afirmar com certeza.
— Com todos os falsos Dragões aparecendo, não surpreenderia que alguém tentasse trazer Lanfear também. — A voz de Moiraine soava tão imperturbável quanto o rosto, mas ela estava agitada por dentro. Só havia uma certeza sobre Lanfear, além do nome: antes de passar para a Sombra, antes de Lews Therin Telamon conhecer Ilyena, Lanfear fora sua amante. Uma complicação de que não precisávamos.
O Trono de Amyrlin franziu a testa, como se tivesse pensado o mesmo, mas Verin assentiu, como se fossem apenas palavras.
— Outros nomes também estão claros, Mãe. O Lorde Luc, é claro, era irmão de Tigraine, a então Filha-herdeira de Andor. Ele desapareceu na Praga. Entretanto, não sei quem é Isam ou qual é sua relação com Luc.
— Com o tempo, descobriremos tudo o que precisamos saber — disse Moiraine, suavemente. — Ainda não há provas de que se trata realmente de uma profecia. — Ela conhecia o nome. Isam fora filho de Breyan, esposa de Lain Mandragoran, cuja tentativa de tomar o trono de Malkier para o marido levara as hordas de Trollocs a invadirem a cidade. Breyan e seu filho, ainda bebê, desapareceram quando os Trollocs tomaram Malkier. Isam era parente de Lan. Ou ainda é? Preciso esconder isso dele até saber como vai reagir. Até estarmos longe da Praga. Se ele pensar que Isam está vivo…
— “Os Vigias aguardam na Ponta de Toman” — continuou Verin. — Alguns poucos ainda se agarram à antiga crença de que os exércitos que Artur Asa-de-gavião enviou para atravessar o Oceano de Aryth voltarão um dia, mas depois de todo esse tempo… — Ela fungou com desdém. — Os Do Miere A’vron, os Vigias das Ondas, ainda têm uma… comunidade é a melhor palavra, suponho… na Ponta de Toman, em Falme. E um dos antigos nomes de Artur Asa-de-gavião era Martelo da Luz.
— Você está sugerindo, Filha — começou o Trono de Amyrlin —, que os exércitos de Artur Asa-de-gavião, ou melhor, seus descendentes, poderiam realmente voltar, depois de mil anos?
— Há rumores de guerra na Planície de Almoth e na Ponta de Toman — falou Moiraine, devagar. — E Asa-de-gavião enviou dois de seus filhos junto com os exércitos. Se eles sobreviveram nas terras que porventura encontraram, pode ser que haja muitos descendentes de Asa-de-gavião. Ou nenhum.
A Amyrlin lançou um olhar cauteloso para Moiraine, obviamente desejando que estivessem a sós, para que pudesse exigir que a amiga contasse o que estava tramando. Moiraine fez um gesto apaziguador, e sua velha amiga fez uma careta.
Verin, com o nariz ainda enfiado nas anotações, não reparou em nada do que se passava.
— Não sei, Mãe. Mas duvido. Nada sabemos a respeito das terras que Artur Asa-de-gavião partiu para conquistar. É uma pena que o Povo do Mar se recuse a atravessar o Oceano de Aryth. Dizem que as Ilhas dos Mortos ficam do outro lado. Gostaria de saber o que isso quer dizer, mas esse maldito silêncio do Povo do Mar… — Ela suspirou, ainda de cabeça baixa. — Tudo o que temos é uma referência a “terras sob a Sombra, além do sol poente e do Oceano de Aryth, onde os Exércitos da Noite reinam”. Não há nada que nos diga se os exércitos enviados por Asa-de-gavião foram suficientes para derrotar esses “Exércitos da Noite” sozinhos, ou se ao menos sobreviveram à morte de Asa-de-gavião. Assim que a Guerra dos Cem Anos começou, todos estavam tão decididos a conquistar sua parte do império que nem pensaram nos exércitos de além-mar. Me parece, Mãe, que, se esses descendentes ainda estivessem vivos e pretendessem voltar algum dia, não esperariam tanto.
— Então você acredita que não seja uma profecia, Filha?
— Agora, “a árvore ancestral” — continuou Verin, imersa em seus pensamentos. — Sempre houve rumores, nada mais, de que, enquanto a nação de Almoth ainda vivia, lá se cultivava um ramo de Avendesora, talvez até um broto. E o estandarte de Almoth era “azul como o céu acima, preto como a terra abaixo e com a Árvore da Vida para uni-las”. Bem, os tarabonianos se autodenominam “a Árvore do Homem”, e a firmam descender de governantes e nobres da Era das Lendas. E os domaneses a firmam descender daqueles que criaram a Árvore da Vida, na Era das Lendas. Existem outras possibilidades, mas a senhora pode ver, Mãe, que pelo menos três giram em torno da Planície de Almoth e da Ponta de Toman.
A voz da Amyrlin se tornou falsamente gentil.
— Você quer se decidir, Filha? Se a semente de Artur Asa-de-gavião não está voltando, então isso não é uma profecia e não vale uma cabeça de peixe podre saber a que árvore ancestral ela se refere.
— Eu só posso lhe dizer o que sei, Mãe — respondeu Verin, tirando os olhos de suas anotações — e deixar a decisão em suas mãos. Acredito que o último dos exércitos estrangeiros de Artur Asa-de-gavião se extinguiu há muito tempo, mas só porque acredito nisso não signi ica que seja verdade. O Tempo da Mudança, naturalmente, se refere ao fim de uma Era, e o Grande Senhor…
A Amyrlin deu um tapa no tampo da mesa, que soou como um trovão.
— Eu sei muito bem quem é o Grande Senhor, Filha. Acho melhor você ir agora. — Ela respirou fundo, e o esforço que fez para se conter foi visível. — Vá logo, Verin. Não quero me zangar com você. Não quero destratar quem mandava as cozinheiras me deixarem bolinhos à noite quando eu era noviça.
— Mãe — disse Moiraine —, não há nada no texto que indique uma profecia. Qualquer um com um mínimo de inteligência e de conhecimento pode entender isso, e nunca disseram que os Myrddraal não podem ser ardilosos.
— E, naturalmente — continuou Verin, com calma —, o homem que canaliza deve ser um dos três jovens que viajam com você, Moiraine.
Moiraine a encarou, chocada. Não prestam atenção no restante do mundo? Eu sou uma idiota. Antes de se dar conta do que fazia, tocou o brilho pulsante que sempre sentia ali, à sua espera: a Fonte Verdadeira. O Poder Único correu por suas veias, energizando-a, abafando o brilho do Poder do Trono de Amyrlin, que fazia o mesmo. Moiraine nunca sequer pensara em usar o Poder contra outra Aes Sedai. Vivemos tempos perigosos, e o mundo pende em um equilíbrio frágil. O que tem de ser feito tem de ser feito. Precisa ser. Ah, Verin, por que você tinha que meter o nariz onde não devia?