Выбрать главу

Perrin se levantou de um salto quando seus ouvidos captaram o som de passos se aproximando, mas não havia para onde ir. Ainda estava de pé ao lado do leito de Mat quando a porta se abriu e Leane entrou. Ela parou, pôs os punhos cerrados nos quadris e o olhou de alto a baixo. Era quase tão alta quanto ele.

— Ora — começou ela, com a voz baixa, porém veemente —, você é quase bonito o bastante para me fazer desejar ser uma Verde. Quase. Mas se incomodou meu paciente… Bem, antes de ir para Torre, eu lidava com meus irmãos, que eram quase tão grandes quanto você, então não pense que esses ombros aí vão lhe servir de alguma coisa.

Perrin pigarreou. Não entendia o que as mulheres queriam dizer metade das vezes que falavam. Você não é como Rand, ele sempre sabe falar com garotas. Percebeu que franzia a testa e parou. Não queria pensar em Rand, mas preferia não aborrecer uma Aes Sedai, muito menos uma que já estava batendo o pé, impaciente.

— Ah… Eu não o incomodei. Ele ainda está dormindo, vê?

— Está mesmo. Que bom para você! Agora, o que está fazendo aqui? Lembro-me de ter posto você para fora uma vez. Nem pense que eu não lembro.

— Eu só queria saber como ele está.

Ela hesitou.

— Ele está dormindo, é assim que está. Ele vai sair dessa cama em algumas horas, e você vai achar que nunca houve nada de errado com ele.

A hesitação fez os pelos dele se eriçarem. Sabia que havia alguma mentira ali. Aes Sedai nunca mentiam, mas nem sempre diziam a verdade. Ele não sabia ao certo o que estava acontecendo, com Liandrin o procurando e Leane mentindo para ele, mas achou que estava na hora de sair de perto das Aes Sedai.

— Obrigado — agradeceu. — É melhor eu deixá-lo dormir, então. Com licença.

Ele tentou contornar a mulher para passar pela porta, mas as mãos dela se moveram depressa e agarraram seu rosto, inclinando-o para que ela pudesse olhá-lo bem nos olhos. Sentiu como se algo o atravessasse, uma ondulação quente que começou no topo de sua cabeça e foi até seus pés, para depois voltar. Ele tirou o rosto das mãos dela.

— Você está tão saudável quanto um filhote de animal selvagem — disse, comprimindo os lábios. — Mas, se nasceu com esses olhos, eu sou um Manto-branco.

— São os únicos olhos que já tive — grunhiu Perrin. Sentiu-se um pouco atordoado por falar com uma Aes Sedai naquele tom, mas ficou tão surpreso quanto ela quando a levantou pelos braços gentilmente e a colocou de lado, tirando-a de seu caminho. Ao se encararem, ele se perguntou se seus olhos estavam tão arregalados de choque quanto os dela. — Com licença — repetiu, e saiu quase correndo.

Meus olhos. Meus olhos amaldiçoados pela Luz! O sol da manhã bateu em seus olhos, que reluziram como ouro polido.

Rand se revirou na cama, tentando encontrar uma posição confortável no colchão ino. A luz do sol entrava por entre as seteiras, derramando-se pelas paredes de pedra nua. Ele não dormira boa parte da noite e, por mais cansado que estivesse, tinha certeza de que não conseguiria dormir agora. O colete de couro jazia no chão entre sua cama e a parede, mas, fora isso, estava completamente vestido, inclusive com as botas novas. Sua espada estava apoiada na lateral da cama, e o arco e a aljava descansavam em um canto, sobre os mantos embolados.

Não conseguia se livrar da sensação de que devia aproveitar a chance que Moiraine lhe dera e partir imediatamente. O impulso o acompanhara a noite inteira. Ele se levantou para ir embora três vezes, e em duas delas chegou até a abrir a porta. Os corredores estavam vazios, a não ser por alguns poucos serviçais que cuidavam de seus afazeres noturnos. O caminho estava livre, mas ele precisava saber.

Perrin entrou, de cabeça abaixada e bocejando, e Rand se sentou.

— Como está Egwene? E Mat?

— Ela está dormindo, segundo me disseram. Não me deixaram entrar na ala das mulheres para visitá-la. Mat está… — De repente, Perrin olhou irritado para o chão. — Se está tão interessado, por que não foi vê-lo? Pensei que não estivesse mais interessado em nós. Você disse que não estava. — Ele abriu a porta de seu armário e começou a procurar por uma camisa limpa.

— Eu fui à enfermaria, Perrin. Havia uma Aes Sedai lá, aquela alta que está sempre com o Trono de Amyrlin. Ela disse que Mat estava dormindo e que eu estava no caminho e devia voltar outra hora. Ela lembrava o Mestre Thane dando ordens aos homens no moinho. Você sabe como o Mestre Thane é, ríspido e cheio de ordens tipo “é melhor me obedecer, e é melhor me obedecer agora mesmo”.

Perrin não respondeu, apenas tirou o casaco e a camisa.

Rand estudou as costas do amigo por um momento, então soltou uma gargalhada.

— Você quer ouvir uma coisa? Sabe o que ela me falou? A Aes Sedai da enfermaria. Você viu como ela é alta, tão alta quanto a maioria dos homens. Se fosse um pouco mais alta, quase poderia me olhar nos olhos. Bem, ela olhou para mim de cima a baixo e resmungou: “Alto você, não? Onde estava quando eu tinha dezesseis anos? Ou trinta?” Então riu, como se fosse uma piada. O que você acha disso?

Perrin terminou de vestir uma camisa limpa e lançou a Rand um olhar de soslaio. Com os ombros largos e os cachos grossos, ele lembrava um urso ferido. Um urso que não entendia por que o haviam ferido.

— Perrin, eu…

— Se quiser fazer gracinhas com as Aes Sedai — interrompeu Perrin —, é problema seu, milorde. — Ele começou a enfiar as fraldas da camisa para dentro das calças. — Eu não passo muito tempo sendo… espirituoso, é essa a palavra? Espirituoso com as Aes Sedai. Mas também sou apenas um ferreiro desajeitado que se mete no caminho dos outros. Milorde. — Pegando o casaco do chão, ele se dirigiu até a porta.

— Que me queime, Perrin, desculpe! Eu estava com medo e achei que estivesse em apuros. Talvez estivesse, talvez ainda esteja, não sei. Não queria que você e Mat se metessem nisso comigo. Luz, todas as mulheres estavam me procurando ontem à noite. Imagino que isso tenha a ver com os problemas em que estou metido. Pelo menos é o que eu acho. E Liandrin… Ela… — Ele jogou as mãos para o alto, desistindo de discutir. — Perrin, acredite em mim, você não vai querer se meter nisso.

Perrin havia parado, mas continuou encarando a porta e só virou a cabeça o suficiente para que Rand visse um dos olhos dourados.

— Procurando você? Talvez elas estivessem procurando todos nós.

— Não, elas estavam me procurando. Gostaria que não, mas sei que é verdade.

Perrin sacudiu a cabeça.

— Mas Liandrin estava me procurando, eu sei. Eu ouvi.

Rand franziu a testa.

— Por que ela…? Isso não muda nada. Escute, eu falei o que não devia. Não falei sério, Perrin. Agora, por favor, quer me falar como está Mat?

— Ele está dormindo. Leane, a Aes Sedai que você mencionou, disse que ele deve acordar em algumas horas. — Ele deu de ombros, desconfortável. — Acho que estava mentindo. Sei que Aes Sedai nunca mentem, não a ponto de você poder pegá-las na mentira, mas ela estava mentindo. Ou estava escondendo alguma coisa. — Ele hesitou, olhando de soslaio para Rand. — Você não estava falando sério, então? Vamos embora juntos? Eu, você e Mat?

— Não posso, Perrin. Não posso dizer por quê, mas eu realmente preciso ir sozi… Perrin, espere!

A porta bateu atrás de seu amigo.

Rand se jogou na cama outra vez.

— Não posso dizer — murmurou, e bateu com o punho na lateral da cama. — Não posso. — Mas agora você pode ir , disse uma voz, no fundo de sua cabeça. Egwene vai ficar bem, e Mat vai se levantar em uma ou duas horas. Você pode ir agora, antes que Moiraine mude de ideia.