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Ele estava se sentando quando algumas batidas na porta o fizeram se levantar de um pulo. Se fosse Perrin voltando, não bateria. As batidas recomeçaram.

— Quem é?

Lan entrou, fechando a porta com a bota ao passar. Como de costume, levava a espada sobre um casaco verde simples, que na floresta seria quase invisível. Dessa vez, no entanto, também usava um grande cordão dourado amarrado no alto do braço esquerdo, com pontas que terminavam em franjas pendendo até quase o cotovelo. Um grou dourado em pleno voo, o símbolo de Malkier, estava preso no laço do cordão com um alfinete.

— O Trono de Amyrlin quer vê-lo, pastor. E você não pode ir assim. Tire essa camisa e penteie o cabelo, está parecendo um palheiro. — Ele escancarou as portas do armário e começou a examinar as roupas que Rand deixaria para trás.

Rand ficou parado onde estava, sentindo como se tivesse sido atingido por um martelo na cabeça. De alguma forma, imaginara que aquilo fosse acontecer, mas tinha certeza de que já teria partido antes da convocação. Ela sabe. Luz, tenho certeza.

— Como assim, ela quer me ver? Estou indo embora, Lan. Você tinha razão. Eu vou para o estábulo agora mesmo, pegarei meu cavalo e partirei.

— Você devia ter feito isso ontem à noite. — O Guardião jogou uma camisa de seda na cama. — Ninguém recusa uma audiência com o Trono de Amyrlin, pastor. Nem o próprio Senhor Capitão Comandante dos Mantos-brancos. Pedron Niall pode até passar o trajeto inteiro planejando matá-la, se pudesse se safar depois, mas iria. — O homem virou-se com um dos casacos de colarinho alto nas mãos e o levantou. — Este aqui serve. — Longos galhos espinhosos e enroscados subiam por cada manga vermelha, feitos de uma linha grossa e bordada a ouro, contornando cada punho. Garças douradas se destacavam nos colarinhos, cuja borda também era dourada. — A cor também é boa. — Ele parecia estar se divertindo com algo, ou pelo menos satisfeito. — Vamos logo, pastor. Troque essa camisa. Mexa-se.

Com certa relutância, Rand tirou a rústica camisa de lã de trabalhador pela cabeça.

— Vou me sentir um idiota — resmungou. — Uma camisa de seda! Nunca vesti uma camisa de seda na vida. E também nunca usei um casaco tão elegante, nem mesmo em dia de festival. — Luz, se Perrin me vir assim… Que me queime, depois de toda essa bobagem sobre eu ser um lorde, se ele me encontrar nestas roupas nunca mais vai ouvir a voz da razão.

— Você não pode se apresentar diante do Trono de Amyrlin vestido como um cavalariço saído dos estábulos, pastor. Deixe-me ver suas botas. Elas servem. Bem, vamos lá, vamos lá. Não se pode deixar a Amyrlin esperando. Leve a espada.

— Minha espada! — A camisa de seda que Rand não tinha terminado de passar pela cabeça abafou o grito agudo. Ele terminou de vesti-la. — Na ala das mulheres? Lan, se eu for a uma audiência com o Trono de Amyrlin, o Trono de Amyrlin!, usando uma espada, ela…

— Não vai fazer nada — interrompeu Lan, em tom seco. — Se a Amyrlin temer você, não vai ser por causa de uma espada. E é mais inteligente achar que ela não o teme, porque não conheço nada que possa assustar aquela mulher. Agora lembre-se: ajoelhe-se quando chegar diante dela. Em apenas um joelho, preste atenção — acrescentou, ríspido. — Você não é nenhum mercador apanhado com a balança alterada. Talvez seja melhor praticar.

— Acho que sei como fazer. Eu vi os Guardas da Rainha se ajoelharem para a Rainha Morgase.

A sugestão de um sorriso passou pelos lábios do Guardião.

— Sim, imite-os. Isso lhes dará o que pensar.

Rand franziu a testa.

— Por que está me dizendo isso, Lan? Você é um Guardião, mas age como se estivesse do meu lado.

— Eu estou do seu lado, pastor. Um pouco. O suficiente para ajudá-lo um pouquinho. — O rosto do Guardião era como uma pedra, e palavras de compaixão soavam estranhas naquela voz áspera. — Eu lhe dei o pouco treinamento que teve e não admito que fique se arrastando por aí, choramingando. A Roda tece todos nós dentro do Padrão, conforme desejar. Você tem menos liberdade do que a maioria, mas, pela Luz, ainda pode encará-la dignamente. Lembre-se de quem é o Trono de Amyrlin, pastor, e mostre-lhe o devido respeito, mas faça como eu digo e a olhe nos olhos. Bem, não fique aí parado de boca aberta. E ponha a camisa para dentro das calças.

Rand fechou a boca e pôs a camisa para dentro das calças. Lembrar-me de quem ela é? Que me queime, o que eu não daria para esquecer quem ela é!

Lan continuou a dar uma série de instruções enquanto Rand vestia o casaco vermelho e afivelava a espada. O que dizer, e a quem, e o que não dizer. O que fazer e o que não fazer. Explicou até mesmo como ele deveria se mover. Rand não tinha certeza de que conseguiria se lembrar de tudo, pois a maioria das instruções soava estranha e fácil de esquecer, e tinha certeza de que o que esquecesse seria exatamente aquilo que deixaria as Aes Sedai irritadas com ele. Se já não estiverem. Se Moiraine contou ao Trono de Amyrlin, a quem mais pode ter contado?

— Lan, por que não posso apenas ir embora como planejei? Quando ela souber que não vou, já estarei a uma légua das muralhas.

— Então ela mandará rastreadores atrás de você antes que percorra duas léguas. A Amyrlin sempre consegue o que quer, pastor. — Ele ajustou o cinturão de Rand, para que afivela pesada ficasse no centro. — Estou fazendo o melhor que posso por você, acredite.

— Mas para que tudo isso? O que isso tudo signi ica? Por que colocar a mão sobre o peito se o Trono de Amyrlin se levantar? Não que eu queira fazer uma refeição com ela ou coisa do tipo, mas por que recusar qualquer coisa exceto água, que depois terei que derramar um pouco no chão, dizendo “A terra tem sede”? E, se ela perguntar minha idade, por que tenho que dizer há quanto tempo me deram a espada? Não entendi metade do que você falou.

— Três gotas, pastor, e não é para derramar. É pingar três gotas, apenas. Você pode entender mais tarde, desde que se lembre agora. Pense nisso como uma forma de manter uma tradição. A Amyrlin lidará com você como deve. Se você acredita que pode evitá-la, então acredita que pode voar até a lua, como Lenn. Você não pode fugir dela, mas talvez possa se defender um pouco, e quem sabe manter sua dignidade, pelo menos. Que a Luz me queime, provavelmente estou perdendo meu tempo, mas não tenho nada melhor para fazer. Fique quieto. — O Guardião tirou um longo cordão dourado com franjas na ponta do bolso e o amarrou ao redor do braço esquerdo de Rand com um nó complicado. No laço, ele prendeu um alfinete vermelho esmaltado com a figura de uma águia de asas abertas. — Mandei fazer isso para dar a você, e agora é tão bom quanto qualquer outro momento. Isso lhes dará o que pensar. — Não havia dúvidas agora: o Guardião estava sorrindo.

Rand olhou para o alfinete, preocupado. Caldazar, a Águia Vermelha de Manetheren.

— Um espinho no pé do Tenebroso — murmurou — e um arbusto cheio de espinhos nas mãos dele. — Ele olhou para o Guardião. — Manetheren já morreu e foi esquecida há muito tempo, Lan. Agora é apenas um nome em um livro. Restou apenas Dois Rios. Não importa o que mais eu seja, sou um pastor e um fazendeiro. E só.

— Bem, a espada que não podia ser quebrada acabou se estilhaçando no final, pastor, mas combateu a Sombra até o fim. Existe uma regra, mais importante que todas, para ser um homem: enfrente de pé tudo o que vier. Agora, está pronto? O Trono de Amyrlin o espera.

Com um nó gelado no estômago, Rand seguiu o Guardião pelo corredor.

8

O Dragão Renascido

Rand caminhou, com as pernas rígidas e muito nervoso, ao lado do Guardião. Enfrente de pé . Para Lan, era fácil falar, ele não fora convocado pelo Trono de Amyrlin. Ele não estava se perguntando se seria amansado antes do fim do dia, ou coisa pior. Rand sentia como se tivesse algo preso na garganta, algo que não conseguia engolir, por mais que quisesse.