Os corredores estavam bastante movimentados: serviçais iam e vinham, cumprindo suas tarefas matinais, e guerreiros levavam suas espadas presas sobre os mantos compridos. Alguns meninos com pequenas espadas de treinamento mantinham-se perto dos meninos maiores, imitando a maneira como andavam. Não restava sinal algum da luta do dia anterior, mas permanecia no ar uma sensação de alerta, até mesmo nas crianças. Homens crescidos pareciam gatos à espera de um bando de ratos.
Ingtar lhes lançou um olhar estranho, quase perturbado, e chegou a abrir a boca quando Rand e Lan passaram por ele, mas não falou nada. Kajin, alto, magro e encovado, ergueu os punhos acima da cabeça e gritou:
— Tai’shar Malkier! Tai’shar Manetheren! — O verdadeiro sangue de Malkier. O verdadeiro sangue de Manetheren.
Rand deu um pulo. Luz, por que ele falou isso? Não seja tolo, disse a si mesmo. Todos aqui sabem de Manetheren. Eles conhecem cada história antiga que fale sobre lutas. Que me queime, preciso me conter!
— Tai’shar Shienar! — disse Lan, erguendo os punhos em resposta.
Se ele saísse correndo, será que a multidão conseguiria escondê-lo por tempo suficiente para chegar a seu cavalo? Se ela enviar rastreadores atrás de mim… A cada passo, ele ficava mais nervoso.
Ao se aproximarem da ala das mulheres, Lan disse de repente, com rispidez:
— Gato Cruza o Pátio!
Pego de surpresa, Rand assumiu instintivamente a postura de caminhada que aprendera, mantendo as costas retas e cada músculo do corpo relaxado, como se pendesse de um fio no topo de sua cabeça. Caminhava como se passeasse, em uma postura tranquila e quase arrogante. Embora estivesse relaxado por fora, é certo que não se sentia dessa forma por dentro. Mas não teve tempo para se perguntar o que fazia, pois os dois já percorriam o último corredor, lado a lado.
As mulheres na entrada da ala levantaram a cabeça, tranquilas, quando eles se aproximaram. Umas estavam sentadas atrás de mesas inclinadas, conferindo enormes livros-caixa e, volta e meia, fazendo anotações. Outras tricotavam ou bordavam com agulhas e aros de costura. Damas com vestidos de seda e mulheres de libré mantinham a vigília, juntas. As portas em arco estavam abertas, guardadas apenas pelas mulheres. Não precisavam de mais do que isso. Nenhum shienarano entraria sem ser convidado, mas qualquer um deles estaria pronto para defender aquela porta, se necessário, e ficaria perplexo com a necessidade.
O estômago de Rand se revirou, ardendo, irritado. Elas verão nossas espadas e nos mandarão embora. Bem, era o que eu queria, não era? Se nos mandarem embora, talvez eu ainda consiga escapar. Isso se não chamarem os guardas. Ele se agarrou à postura que Lan recomendara como teria se agarrado a um galho flutuante em uma enchente. Concentrar-se em manter a posição era a única coisa que o impedia de dar meia-volta e sair correndo.
Nisura, uma mulher de rosto redondo, que era uma das aias de Lady Amalisa, pôs o bordado de lado e se levantou assim que eles pararam diante das portas. Ela olhou de relance para as espadas e comprimiu os lábios, mas não falou nada. Todas as mulheres pararam o que estavam fazendo para olhá-los com atenção, em silêncio.
— Honrados sejam os dois — disse Nisura, inclinando um pouco a cabeça. Ela olhou de relance para Rand, tão depressa que ele quase não teve certeza do que vira, o que o fez lembrar-se do que Perrin dissera. — O Trono de Amyrlin os aguarda.
A um gesto seu, duas outras mulheres se adiantaram para acompanhá-los. Duas damas, em vez de serviçais. Era uma honra. Elas fizeram uma mesura quase imperceptivelmente mais profunda do que a de Nisura e gesticularam para que os dois passassem pelo arco da entrada. Ambas olharam para Rand de soslaio, mas não voltaram seus olhos para ele.
Elas estavam procurando por todos nós ou apenas por mim? Por que estariam atrás de todos?
Lá dentro, receberam os olhares que Rand esperava que dois homens na ala das mulheres receberiam. Suas espadas provocaram mais de um erguer de sobrancelhas, mas nenhuma das mulheres protestou em voz alta. Os dois deixavam um rastro de burburinhos por onde passavam; murmúrios baixos e suaves demais para Rand poder entendê-los. Lan caminhava como se sequer reparasse neles, mas o rapaz, que se mantinha um passo atrás das acompanhantes, desejou ser capaz de compreendê-los.
E então chegaram aos aposentos do Trono de Amyrlin, onde três Aes Sedai estavam paradas no corredor, ao lado da porta. A mais alta, Leane, segurava seu cajado de chama dourada. Rand não conhecia as outras duas, uma da Ajah Branca e uma Amarela, de acordo com suas franjas. Mas se lembrava de seus rostos, que o encararam quando passou correndo por aqueles mesmos salões. Eram rostos sem rugas de Aes Sedai, com olhos experientes. Elas o analisaram com as sobrancelhas arqueadas e os lábios comprimidos. As mulheres que os trouxeram fizeram uma mesura, deixando-os com as Aes Sedai.
Leane analisou Rand de alto a baixo com um pequeno sorriso. Apesar disso, sua voz tinha um tom áspero.
— O que você trouxe para o Trono de Amyrlin hoje, Lan Gaidin? Um jovem leão? É melhor não deixar nenhuma Verde vê-lo, ou uma delas vai vinculá-lo como Guardião antes que o rapaz possa falar alguma coisa. Verdes gostam de vinculá-los quando ainda são jovens.
Rand se perguntou se era realmente possível suar por dentro da pele, pois era assim que se sentia. Queria olhar para Lan, mas lembrou-se das instruções do Guardião para aquele momento.
— Eu sou Rand al’Thor, filho de Tam al’Thor, de Dois Rios, que um dia foi Manetheren. Fui convocado pelo Trono de Amyrlin, Leane Sedai, por isso vim. Eis-me aqui. — Ele ficou surpreso por sua voz não ter tremido uma vez sequer.
Leane piscou, e seu sorriso desapareceu, transformando-se em uma expressão pensativa.
— Era para esse menino ser um pastor, Lan Gaidin? Ele não estava assim tão seguro hoje de manhã.
— Ele é um homem, Leane Sedai — respondeu Lan, com firmeza. — Nem mais nem menos. Nós somos o que somos.
A Aes Sedai balançou a cabeça.
— O mundo ica mais estranho a cada dia. Imagino que o ferreiro vai aparecer usando uma coroa e falando em Alto Canto. Espere aqui. — Ela atravessou a porta e entrou no aposento, a fim de anunciá-los.
A mulher só se ausentou por alguns instantes, mas Rand estava consciente dos olhares das Aes Sedai remanescentes, que o deixavam desconfortável. Tentou retribuí-los com a mesma intensidade, como Lan lhe instruíra a fazer. Então, elas se aproximaram umas das outras e começaram a sussurrar. O que estão dizendo? O que sabem? Luz, será que vão me amansar? Era isso o que Lan queria dizer com “enfrentar o que vier”?
Leane retornou e fez um gesto para que Rand entrasse. Quando Lan fez menção de segui-lo, ela bloqueou a passagem com o cajado, encostando-o no peito do guardião.
— Você não, Lan Gaidin. Moiraine Sedai tem uma tarefa para você. Seu filhote de leão ficará bem sozinho.
A porta se fechou atrás de Rand, mas ele teve tempo de ouvir a voz, forte e feroz do guardião, dizer apenas para seus ouvidos:
— Tai’shar Manetheren!
Moiraine estava sentada em uma ponta do aposento, e uma das Aes Sedai que ele vira no calabouço, na outra, mas foi a mulher na cadeira de espaldar alto atrás da enorme mesa que chamou sua atenção. As cortinas estavam parcialmente fechadas sobre seteiras, mas ainda deixavam passar luz o bastante por trás da mulher, dificultando a visão de seu rosto com clareza. Ainda assim, ele a reconheceu: o Trono de Amyrlin.
Ele caiu sobre um dos joelhos mais do que depressa, mantendo a mão esquerda no cabo da espada e o punho direito sobre o tapete adornado, então abaixou a cabeça.
— A senhora me convocou, Mãe, então eu vim. Eis-me aqui. — Ele levantou a cabeça a tempo de ver as sobrancelhas dela se erguerem.