Выбрать главу

É mesmo? provocou uma vozinha. Você abandonou o Campo de Emond para cuidar de si. Ainda pode se considerar a Sabedoria deles?

Eu não os abandonei, respondeu a si mesma, incisiva. Eu chamei Mavra Mallen, de Cavalgada de Deven, para cuidar das coisas até eu voltar. Ela consegue se virar com o Prefeito e com o Conselho da Aldeia e se dá bem com o Círculo das Mulheres.

Mavra precisará voltar para sua própria aldeia. Nenhum lugar consegue ficar sem sua Sabedoria por muito tempo. Nynaeve estremeceu por dentro. Ela estava há meses longe de Campo de Emond.

— Eu sou a Sabedoria de Campo de Emond! — exclamou em voz alta.

Um serviçal de libré que carregava um rolo de tecido a olhou de um modo estranho, então fez uma mesura antes de sair correndo. Em seu rosto, era possível perceber que desejava ardentemente estar em qualquer outro lugar.

Corando, Nynaeve olhou ao redor para ver se mais alguém notara. Havia apenas alguns homens no salão, entretidos com suas próprias conversas, e algumas mulheres vestidas de preto e dourado ocupadas com seus afazeres, que se curvavam ou faziam uma mesura quando ela passava. Nynaeve já tivera essa discussão consigo mesma uma centena de vezes, mas era a primeira vez que chegava ao ponto de falar sozinha em voz alta. Ela resmungou baixinho, então comprimiu os lábios com força ao perceber o que fazia.

Começava, finalmente, a se dar conta de que sua busca era inútil quando viu Lan, virado de costas para ela, observando o pátio externo através de uma seteira. O ruído que vinha do pátio era de cavalos e homens, que relinchavam e gritavam. Lan estava tão concentrado que, para variar, sequer pareceu ouvi-la. Ela detestava o fato de não conseguir se aproximar dele sem ser percebida, por mais leves que fossem seus passos. Era considerada boa em sobrevivência na floresta, lá em Campo de Emond, embora não fosse uma habilidade em que muitas mulheres estivessem interessadas.

Ela parou onde estava, levando as mãos ao estômago para tentar acalmar o frio na barriga. Eu devia tomar uma dose de ranel e raiz de língua-de-ovelha, pensou com amargura. Era a mistura que ela dava a qualquer um que se lamentasse por aí que estava doente ou que se comportasse como um idiota. Ranel e raiz de língua-de-ovelha levantavam um pouco o ânimo e não faziam mal algum, mas o gosto era terrível e ficava o dia inteiro na boca. Era a cura perfeita para quem agia como um tolo.

Longe dos olhos dele, ela o analisou de alto a baixo. Ele se inclinava sobre a rocha, tocando o queixo com os dedos enquanto observava o que se passava lá embaixo. Ele é muito alto, para começar. E tem idade para ser meu pai, além disso. Um homem com um rosto desses deve ser cruel. Não, ele não é assim. Nunca será. E ele era um rei. Sua terra fora destruída quando era criança, e ele não reivindicara uma coroa, mas mesmo assim era rei. O que um rei iria querer com uma aldeã? E ele também é um Guardião. Tem um elo com Moiraine. Ela tem a lealdade dele até a morte e laços mais íntimos do que qualquer amante. E ela o tem. Ela tem tudo o que eu quero, que a Luz a queime!

Ele se afastou, voltando-se para a seteira, e Nynaeve se virou para ir embora.

— Nynaeve. — A voz dele a prendeu como um laço. — Eu queria falar com você a sós. Você sempre parece estar na ala das mulheres ou acompanhada.

Ela teve que se esforçar para encará-lo, mas tinha certeza de que suas feições pareciam tranquilas quando levantou a cabeça e olhou para ele.

— Estou procurando Rand. — Não admitiria que o estava evitando. — Já conversamos sobre tudo o que precisávamos há muito tempo, eu e você. Eu me humilhei, o que não farei outra vez, e você me disse para ir embora.

— Eu nunca disse… — Ele respirou fundo. — Eu disse que nada tinha a lhe oferecer como dote, a não ser roupas de viúva. Não é um presente que um homem possa dar a uma mulher. Não se ele se considerar um verdadeiro homem.

— Entendo — respondeu, fria. — De qualquer jeito, um rei não dá presentes a aldeãs. E esta aldeã não os aceitaria. Você viu Rand? Preciso falar com ele. Ele foi ver a Amyrlin, sabe o que ela queria com ele?

Os olhos do homem faiscaram como pedras de gelo azuis ao sol. Ela firmou as pernas, para resistir ao impulso de recuar, e o encarou com firmeza.

— Que o Tenebroso carregue Rand al’Thor e o Trono de Amyrlin! — praguejou, colocando algo nas mãos dela. — Eu lhe darei um presente e você vai aceitar, nem que eu tenha que amarrá-lo em seu pescoço.

Ela desviou os olhos. Quando se zangava, o olhar do homem era penetrante como o de um gavião de olhos azuis. Em sua mão, estava um anel de sinete, era de ouro, pesado, gasto pelo tempo, e nele quase cabiam seus dois polegares. Continha a marca de um grou voando sobre uma lança e uma coroa, detalhados com primor. Ela ficou sem ar. O anel dos reis malkieris. Esquecendo-se de parecer irritada, levantou o rosto.

— Não posso aceitar isto, Lan.

Ele deu de ombros, sem cerimônia.

— Não é nada. Agora é apenas algo velho e inútil, mas ainda há quem o reconheça. Mostre-o e será recebida. Assim, terá a ajuda de qualquer lorde nas Terras da Fronteira, caso precise. Mostre-o a um Guardião, e ele lhe dará auxílio ou trará uma mensagem para mim. Mande-o para mim, ou envie uma mensagem com a marca do anel, e eu irei até você sem demora e sem falta. Eu juro.

A visão dela começou a ficar borrada nos cantos. Se chorar agora, me mato.

— Não posso… Não quero um presente seu, al’Lan Mandragoran. Aqui, tome.

Ele se esquivou das tentativas de devolver o anel. Sua mão envolveu a dela, gentil, mas firme como um grilhão.

— Então aceite-o por mim, como um favor. Ou jogue-o fora, se a desagrada. Não tenho utilidade melhor para isso. — Ele passou um dedo pela bochecha dela, que se sobressaltou. — Preciso ir agora, Nynaeve mashiara. A Amyrlin deseja partir antes do meio-dia e ainda há muito a ser feito. Talvez tenhamos tempo de conversar na jornada a Tar Valon. — Ele se virou e partiu, seguindo pelo corredor.

Nynaeve levou a mão à bochecha. Ainda podia sentir onde ele a tocara. Mashiara. Signi ficava “amada de coração e alma”. Mas também indicava um amor perdido. Perdido antes mesmo de ser ganho. Sua mulher tola! Pare de agir como uma garotinha com o cabelo ainda sem tranças. De nada adianta deixar que ele faça você se sentir…

Agarrando o anel com força, ela se virou e deu um pulo ao se ver face a face com Moiraine.

— Há quanto tempo você está aqui? — indagou.

— Não o bastante para ouvir algo que não devesse — respondeu a Aes Sedai, em um tom de voz suave. — Mas partiremos em breve. Isso, eu ouvi. Você precisa arrumar suas coisas.

Partir. Ela não havia registrado a palavra quando Lan a dissera.

— Precisarei me despedir dos rapazes — murmurou, então lançou um olhar ríspido para Moiraine. — O que você fez com Rand? Ele foi levado para a Amyrlin. Por quê? Você contou a ela sobre… sobre…? — A mulher não conseguia falar. Ele era de sua aldeia, e ela era pouco mais velha do que ele, o suficiente para ter tomado conta do rapaz uma ou duas vezes quando pequeno, mas sequer conseguia pensar no que ele se tornara sem sentir o estômago revirar.

— A Amyrlin verá todos os três, Nynaeve. Ta’veren não são tão comuns a ponto de ela perder a oportunidade de ver três juntos no mesmo lugar. Talvez ela lhes dê algumas palavras de incentivo, já que eles vão cavalgar com Ingtar na caçada pelos que roubaram a Trombeta. Eles partirão mais ou menos na mesma hora que nós, então é melhor você se apressar com as despedidas.