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Nynaeve correu para a seteira mais próxima e espiou o pátio externo. Havia cavalos por toda parte, de carga e de sela, e homens correndo ao redor deles gritando uns com os outros. O único espaço aberto era onde estava o palanquim da Amyrlin, com o par de cavalos esperando pacientemente, desacompanhados. Alguns dos Guardiões estavam lá, cuidando de suas montarias, e do outro lado do pátio estava Ingtar, cercado por um grupo de shienaranos usando armadura. Às vezes um Guardião ou um dos homens de Ingtar cruzavam o calçamento de pedra para trocar algumas palavras.

— Eu devia ter levado os garotos para longe de você — disse, sem olhar para a outra mulher. Egwene também, se eu tivesse como fazer isso sem matá-la. Luz, por que ela nasceu com esse dom maldito? — Eu devia ter levado todos de volta para casa.

— Eles já passaram da idade de estar debaixo das saias de qualquer mulher — respondeu Moiraine, seca. — E você sabe muito bem por que não poderia ter feito isso. Pele menos para um deles. Além disso, isso significaria deixar Egwene ir para Tar Valon sozinha. Ou você desistiu de ir? Se não treinar o uso do Poder, jamais poderá usá-lo contra mim.

Nynaeve se virou para encarar a Aes Sedai, boquiaberta. Não pôde evitar.

— Não sei do que você está falando.

— Achava que eu não sabia, criança? Bem, como quiser… Suponho que você vai para Tar Valon, então? Sim, eu imaginei que iria.

Nynaeve queria dar um soco para tirar o breve sorriso que surgiu no rosto da mulher. Aes Sedai não eram capazes de usar suas habilidades abertamente desde a Ruptura, muito menos o Poder Único; mas tramavam e manipulavam, puxando cordas como se controlassem marionetes, movendo tronos e nações como pedras em um tabuleiro. Ela também quer me usar de algum jeito. Se usaria um rei ou rainha, por que não uma Sabedoria? Assim como está usando Rand. Eu não sou uma criança, Aes Sedai.

— O que você está fazendo com Rand agora? Você já não o usou o bastante? Não sei por que não mandou amansá-lo, agora que a Amyrlin está aqui com todas essas Aes Sedai, mas deve haver um motivo. Deve ser parte de alguma trama que você está tecendo. Se a Amyrlin soubesse o que você está planejando, aposto que…

Moiraine a interrompeu.

— Por que a Amyrlin estaria interessada em um pastor? É claro que, se ele despertar sua atenção do modo errado, poderia acabar amansado ou até mesmo morto. A final, ele é o que é. E a noite de ontem deixou todos com bastante raiva, à procura de alguém para culpar. — A Aes Sedai se calou, deixando o silêncio se estender.

Nynaeve a encarou, rangendo os dentes.

— Sim — continuou Moiraine, por fim. — É muito melhor deixar que um leão adormecido continue a dormir. Você devia arrumar suas coisas agora. — Ela partiu na mesma direção de Lan, parecendo deslizar pelo chão.

Com uma careta, Nynaeve socou a parede, e o anel machucou a palma de sua mão. Ela abriu a mão para vê-lo: o anel parecia irradiar o calor de sua raiva e concentrar seu ódio. Eu vou aprender. Você pensa que, por já saber, pode escapar de mim. Mas eu aprenderei mais do que você imagina e acabarei com você, pelo que fez. Pelo que fez a Mat e a Perrin. Por Rand, que a Luz o ajude e o Criador o proteja! Especialmente por Rand. Sua mão se fechou ao redor do pesado anel de ouro. E por mim.

* * *

Egwene observava a serviçal de libré dobrar seus vestidos em um baú de viagem revestido de couro. Ainda ficava um pouco incomodada, mesmo depois de um mês de prática, com outra pessoa fazendo o que ela conseguia fazer muito bem sozinha. Eram roupas muito bonitas, presentes da Lady Amalisa, assim como o vestido de seda cinza para cavalgadas que usava naquele momento. Era uma peça simples, com alguns poucos botões de lírio costurados no peito, mas muitos dos vestidos eram bem mais elaborados. Qualquer um deles se destacaria no Dia do Sol ou no Bel Tine. Ela suspirou, lembrando-se de que estaria em Tar Valon no próximo Dia do Sol, e não em Campo de Emond. Do pouco que Moiraine lhe contara sobre o treinamento de noviça, que era quase nada, na verdade, ela imaginava que não estaria em casa a tempo do Bel Tine, na primavera, ou mesmo para o Dia do Sol seguinte.

Nynaeve enfiou a cabeça dentro do quarto.

— Está pronta? — Ela entrou. — Precisamos ir para o pátio em breve.

A outra mulher também usava um vestido para cavalgadas, mas de seda azul e com nós vermelhos no peito. Mais um presente de Amalisa.

— Quase, Nynaeve. E estou meio triste de ir embora. Não imagino que teremos muitas chances de usar os belos vestidos que Amalisa nos deu em Tar Valon. — Ela soltou uma risada, de repente. — Mesmo assim, Sabedoria, não sentirei falta de tomar um banho sem passar o tempo todo olhando por cima do ombro.

— É muito melhor tomar banho sozinha — concordou Nynaeve, bruscamente. Seu rosto não mudou, mas suas bochechas coraram um instante depois.

Egwene sorriu. Ela está pensando em Lan . Ainda era estranho pensar em Nynaeve, a Sabedoria, suspirando por um homem. Não achava uma boa ideia dizer a Nynaeve, mas ultimamente a Sabedoria agia como uma garota apaixonada às vezes. E por um homem que não é esperto o suficiente para ser digno dela, aliás. Ela o ama, e posso ver que ele a ama, então por que ele não tem o bom senso de se declarar?

— Acho que você não devia me chamar mais de Sabedoria — disse Nynaeve, de súbito.

Egwene piscou. Aquilo não era uma exigência, e Nynaeve nunca insistia que usassem o título a não ser que estivesse zangada ou em uma situação formal, mas…

— Por que não?

— Você é uma mulher, agora — Nynaeve olhou para os cabelos destrançados de Egwene, que resistiu ao impulso de prendê-los depressa para fingir uma trança. As Aes Sedai usavam os cabelos como queriam, mas usar o seu solto se tornara um símbolo do início de uma nova vida. — Você é uma mulher — repetiu Nynaeve, com firmeza. — Somos duas mulheres, muito longe de Campo de Emond, e ainda vai demorar muito até vermos nossa terra outra vez. Será melhor se me chamar apenas de Nynaeve.

— Nós veremos nossa terra novamente, Nynaeve. Veremos.

— Não tente consolar a Sabedoria, garota — respondeu Nynaeve de modo mal-humorado, mas sorriu.

Bateram à porta, mas, antes que Egwene pudesse abri-la, Nisura entrou com uma expressão muito agitada.

— Egwene, aquele seu rapaz está tentando entrar na ala das mulheres. — Ela parecia escandalizada. — E está usando uma espada. Só porque a Amyrlin o deixou entrar assim… Lorde Rand já devia saber que está provocando uma grande confusão. Egwene, você precisa falar com ele.

— Lorde Rand — disse Nynaeve com desdém. — Esse rapaz está ficando muito abusado. Quando eu puser as mãos nele, vou mostrar quem é o lorde.

Egwene segurou Nynaeve pelo braço.

— Deixe-me falar com ele, Nynaeve. A sós.

— Ah, está bem! Os melhores homens não são muito melhores do que animais domesticados. — Nynaeve hesitou, então acrescentou, meio que para si mesma: — Mas, pensando bem, talvez os melhores valham o trabalho de domesticá-los.

Egwene sacudiu a cabeça enquanto acompanhava Nisura até o corredor. Meio ano antes, Nynaeve nunca acrescentaria aquela segunda parte. Mas ela nunca vai conseguir domesticar Lan. Seus pensamentos se voltaram para Rand. Então ele estava provocando uma confusão?

— Domesticá-lo? — murmurou. — Se a essa altura ele ainda não tiver aprendido bons modos, vou esfolá-lo vivo.

— Às vezes é o que precisa ser feito — comentou Nisura, andando rápido. — Homens não são muito mais do que seres meio civilizados, até que se casem. — Ela lançou um olhar de esguelha para Egwene. — Você pretende se casar com o Lorde Rand? Não quero me meter, mas está indo para a Torre Branca, e Aes Sedai raramente se casam. Nenhuma se casa, a não ser algumas das Ajah Verdes, até onde sei, mas mesmo assim não muitas, e…