Выбрать главу

Egwene podia completar o resto. Já ouvira a conversa na ala das mulheres acerca de uma esposa adequada para Rand. No começo, aquilo lhe provocara algumas pontadas de ciúme e raiva. Eles estavam praticamente prometidos desde crianças. Mas ela iria se tornar uma Aes Sedai, e ele era o que era: um homem capaz de canalizar. Ela até poderia se casar com ele e vê-lo enlouquecer até a morte. A única maneira de impedir isso seria amansá-lo. Não posso fazer isso com ele. Não posso!

— Não sei — respondeu com tristeza.

Nisura assentiu.

— Ninguém vai tomar o que é seu, mas você está indo para a Torre, e ele dará um bom marido. Assim que estiver treinado. Lá está ele.

As mulheres estavam aglomeradas ao redor da entrada para a ala das mulheres, do lado de dentro e de fora, observando os três homens no corredor externo. Rand, com a espada presa por cima do casaco vermelho, era confrontado por Agelmar e Kajin. Nenhum deles usava espada, mesmo depois do que acontecera à noite, pois aquela ainda era a ala das mulheres. Egwene parou atrás da multidão.

— Você sabe por que não pode entrar — explicava Agelmar. — Sei que as coisas são diferentes em Andor, mas você entende, não?

— Eu não tentei entrar — explicou Rand, como se não fosse a primeira vez que se explicasse. — Eu disse à Lady Nisura que queria ver Egwene, ao que ela respondeu que Egwene estava ocupada, e eu teria que esperar. Apenas gritei por ela aqui da porta. Não tentei entrar. Do jeito que elas vieram para cima de mim, parece até que eu estava chamando o Tenebroso.

— As mulheres têm o jeito delas — respondeu Kajin. Ele era alto para um shienarano, quase tanto quanto Rand, além de bem magro e de pele amarelada. Seu rabo de cavalo era negro como piche. — Elas definiram as regras para a ala das mulheres, e nós as seguimos, mesmo as mais tolas. — Diversas sobrancelhas se ergueram entre as mulheres, e ele mais do que depressa pigarreou. — Você precisa enviar uma mensagem se deseja falar com uma delas, mas essa mensagem só será enviada quando elas quiserem. Até lá, precisa aguardar. Este é o nosso costume.

— Preciso vê-la — repetiu Rand, com teimosia. — Partiremos em breve. Não acho que seja breve o bastante, mas preciso vê-la mesmo assim. Vamos recuperar a Trombeta de Valere e a adaga, e então será o fim. O fim. Mas quero vê-la antes de partir. — Egwene franziu a testa. Ele parecia estranho.

— Não precisa ficar tão nervoso — respondeu Kajin. — Você e Ingtar encontrarão a Trombeta, ou não. E, se não encontrarem, outros a encontrarão. Há de ser o que a Roda tecer, nós somos apenas fios no Padrão.

— Não deixe a Trombeta se apoderar de você, Rand — disse Agelmar. — Ela pode exercer uma forte influência sobre os homens, eu sei disso, e não é assim que vai capturá-la. Um homem deve procurar o dever, não a glória. O que tiver de acontecer, acontecerá. Se a Trombeta de Valere tiver de soar para a Luz, então assim será.

— Aí está sua Egwene — disse Kajin, avistando-a.

Agelmar olhou ao redor e assentiu, ao vê-la com Nisura.

— Eu o deixarei nas mãos dela, Rand al’Thor. Lembre-se de que aqui as palavras dela são lei, não as suas. Lady Nisura, não seja muito dura com ele: Rand só queria ver sua garota e não conhece nossos costumes.

Egwene acompanhou Nisura quando a shienarana abriu caminho por entre as mulheres que assistiam à cena. A mulher inclinou a cabeça brevemente para Agelmar e Kajin, fazendo questão de não incluir Rand. Seu tom de voz era rígido.

— Lorde Agelmar, Lorde Kajin. Ele já devia conhecer pelo menos esse costume, a esta altura. Mas é grande demais para levar umas palmadas, então deixarei que Egwene cuide dele.

Agelmar deu uma palmadinha paternal no ombro de Rand.

— Está vendo? Você vai falar com ela, mesmo que não seja exatamente do jeito que queria. Vamos, Kajin: ainda temos muito a resolver. A Amyrlin insiste que… — Sua voz foi morrendo quando os dois homens partiram. Rand ficou parado ali, olhando para Egwene.

As mulheres ainda estavam olhando, percebeu Egwene. Observando-a tanto quanto a Rand. Esperando para ver o que ela faria. Então elas querem que eu cuide dele, não é? Mas ela se sentia solidária. Os cabelos do rapaz precisavam de um pente, e sua expressão era de raiva, rebeldia e cansaço.

— Me acompanhe — disse ela. Um murmúrio começou atrás deles quando ele seguiu pelo corredor ao seu lado, distanciando-se da ala das mulheres. Rand parecia em um conflito interno, em busca do que dizer.

— Eu ouvi falar de suas… façanhas — disse ela, por fim. — Correndo pela ala das mulheres ontem à noite com uma espada. Usando uma espada em uma audiência com o Trono de Amyrlin. — Ele continuou sem dizer nada, apenas caminhando com ela, franzindo a testa e olhando para o chão. — Ela não… machucou você, machucou? — Egwene não conseguiu perguntar se ele fora amansado. Ele parecia tudo, menos manso, mas ela não fazia ideia de que aspecto tinha um homem depois de amansado.

Ele estremeceu.

— Não. Ela não… Egwene, a Amyrlin… — Ele sacudiu a cabeça. — Ela não me machucou.

Ela teve a sensação de que ele iria dizer algo completamente diferente. Em geral, conseguia arrancar o que ele tentava esconder dela, mas, quando ele realmente queria ser teimoso, era mais fácil tirar um tijolo da parede com as unhas. Pelo modo como seu maxilar estava travado, ele devia estar no ápice da teimosia.

— O que ela queria com você, Rand?

— Nada importante. Ta’veren. Ela queria ver ta’veren. — As feições dele se suavizaram quando ele a olhou. — E você, Egwene? Você está bem? Moiraine disse que ficaria bem, mas você nem se mexia. No começo achei que estivesse morta.

— Bem, não estou morta. — Ela riu. Não conseguia se lembrar de nada do que aconteceu depois de pedir a Mat para acompanhá-la aos calabouços, nada até acordar em sua própria cama naquela manhã. Pelo que ouvira falar da noite, ficou quase feliz por não se lembrar. — Moiraine disse que teria me deixado com uma dor de cabeça, por ser tão tola, se pudesse Curar apenas o restante, mas não podia.

— Eu avisei que Fain era perigoso — resmungou o rapaz. — Eu avisei, mas você não quis me ouvir.

— Se é desse jeito que vamos conversar — respondeu ela, com a voz firme —, vou levá-lo de volta a Nisura. Ela não vai falar com você do mesmo jeito que eu. O último homem que tentou entrar à força na ala das mulheres passou um mês enfiado até os cotovelos em água com sabão, ajudando a lavar as roupas das mulheres. E ele estava só tentando encontrar a noiva para fazer as pazes depois de uma discussão. Pelo menos foi inteligente o bastante para não aparecer usando uma espada. Só a Luz sabe o que fariam com você!

— Todo mundo quer fazer alguma coisa comigo — grunhiu. — Todo mundo quer me usar para alguma coisa. Bem, eu não serei usado. Assim que encontrarmos a Trombeta e a adaga de Mat, nunca mais serei usado.

Com um grunhido exasperado, ela o pegou pelos ombros e o virou, de forma que ele a encarasse. Ela lançou um olhar furioso a ele.

— Se você não começar a falar algo que faça sentido, Rand al’Thor, juro que vou lhe dar um tabefe.

— Agora você está falando como Nynaeve. — Ele riu. Ao olhar para ela, entretanto, seu riso foi desaparecendo. — Eu suponho… suponho que nunca mais a verei. Sei que você precisa ir a Tar Valon, sei disso. E você vai se tornar uma Aes Sedai. Já estou cheio de Aes Sedai, Egwene. Eu não serei um marionete delas, nem de Moiraine, nem de nenhuma outra.

Ele parecia tão perdido que ela teve vontade de pegar a cabeça dele e encostá-la em seu ombro, e parecia ao mesmo tempo tão teimoso que ela realmente quis dar-lhe um tabefe.

— Me escute bem, seu grande boi. Eu vou ser, sim, uma Aes Sedai e vou encontrar um meio de ajudar você. Eu vou.

— Da próxima vez que me encontrar, é mais provável que queira me amansar.