— Eu disse para ouvir, pastor — rugiu o Guardião. — Chegará o momento em que você precisará atingir um objetivo a qualquer custo. Pode ser durante um ataque ou uma defesa. E a única maneira será embainhar a espada em seu próprio corpo.
— Isso é loucura — disse Rand. — Por que eu faria…?
O Guardião o interrompeu.
— Você saberá quando chegar a hora, pastor, quando o preço valer a pena e não lhe restar outra escolha. Isto se chama Embainhar a Espada. Lembre-se.
A Amyrlin surgiu, atravessando o pátio cheio de gente a passos largos, com Leane, carregando seu cajado, e Lorde Agelmar ao lado. Mesmo usando um casaco de veludo verde, o Senhor de Fal Dara não parecia deslocado entre tantos homens de armadura. Ainda não havia sinal das outras Aes Sedai. Quando passaram por Rand, ele ouviu parte da conversa.
— Mas, Mãe — protestava Agelmar. — A senhora não teve tempo para descansar da jornada até aqui. Fique pelo menos mais alguns dias. Prometo que lhe oferecerei um banquete esta noite, um banquete como a senhora dificilmente verá em Tar Valon.
A Amyrlin negou com a cabeça, sem parar de caminhar.
— Não posso, Agelmar. Você sabe que eu ficaria se pudesse. Não tinha planos de ficar por muito tempo, e questões urgentes exigem minha presença na Torre Branca. Eu deveria estar lá agora.
— Mãe, é uma vergonha para mim que a senhora chegue em um dia e parta no seguinte. Prometo-lhe, não haverá repetição da noite passada. Tripliquei a guarda nos portões da cidade, assim como na fortaleza. Mandei virem malabaristas da cidade, e há um bardo chegando de Mos Shirare. Ora, o Rei Easar deve estar a caminho, vindo de Fal Moran. Mandei notícias assim que…
As vozes foram sumindo quando eles atravessaram o pátio, engolidas pelo burburinho dos preparativos. A Amyrlin sequer olhou na direção de Rand.
Quando Rand procurou Lan, o Guardião já havia ido, e não estava mais à vista. Loial voltou com seu cavalo para perto dele.
— É um homem di ícil de agarrar ou manter por perto, não é mesmo? Não está aqui, depois está, então some, e você não o vê nem chegar nem partir.
Embainhar a Espada. Rand estremeceu. Os Guardiões devem ser loucos.
O Guardião com o qual a Amyrlin estava falando pulou na sela de repente. Ele já estava galopando depressa antes mesmo de chegar aos grandes portões. Ela ficou ali parada, observando-o partir, e sua postura parecia exigir que ele fosse mais rápido.
— Para onde ele vai com tanta pressa? — perguntou-se Rand em voz alta.
— Ouvi dizer — comentou Loial — que ela estava mandando alguém partir hoje, para chegar depressa a Arad Doman. Há notícias de algum problema na Planície de Almoth, e o Trono de Amyrlin quer saber exatamente o que é. O que não entendo é: por que agora? Pelo que ouvi, os rumores desse problema vieram de Tar Valon com as Aes Sedai.
Rand sentiu um calafrio. O pai de Egwene tinha um grande mapa, lá na sua terra, um mapa que Rand examinara mais de uma vez e com o qual sonhara antes de descobrir como são os sonhos, quando se realizaram. O mapa era velho, mostrava algumas terras e nações que os mercadores de fora diziam não existir mais, no entanto, a Planície de Almoth estava marcada, encostada na Ponta de Toman. Nos encontraremos outra vez na Ponta de Toman . Era do outro lado do mundo que conhecia, no Oceano de Aryth.
— Não tem nada a ver conosco — murmurou. — Nada a ver comigo.
Loial pareceu não ouvir. Esfregando a lateral do nariz com um dedo que mais parecia uma salsicha, o Ogier olhava para o portão por onde o Guardião havia desaparecido.
— Se queria saber a verdade, por que não mandou alguém antes de deixar Tar Valon? Mas vocês, humanos, são sempre bruscos e facilmente instigados, ficam pulando por aí e gritando. — Suas orelhas se levantaram de vergonha. — Me desculpe mesmo, Rand. Você entendeu o que eu quis dizer com falar antes de pensar. Eu mesmo sou ousado e facilmente instigado às vezes, como você bem sabe!
Rand riu. Foi uma risada fraca, mas foi bom ter alguma coisa da qual rir.
— Se vivêssemos tanto quanto você, Ogier, talvez fôssemos mais tranquilos. — Loial tinha noventa anos de idade, mas, pelos padrões dos Ogier, não era velho o bastante para sair do pouso sozinho. O fato de ele ter saído mesmo assim era prova, Loial insistia, de sua ousadia. Se aquele era um Ogier facilmente instigado, Rand achava que a maioria deles devia ser feita de pedra.
— Talvez — disse Loial, em tom de quem re fletia —, mas vocês, humanos, fazem tanto com suas vidas. Nós não fazemos nada, a não ser nos recolher em nossos pousos. O plantio dos bosques e até mesmo as construções foram feitos antes do fim do Longo Exílio. — Eram os bosques que Loial adorava, não as cidades que os homens lembravam de os Ogier terem construído. Eram os bosques, plantados para lembrarem os Construtores Ogier dos pousos, que Loial deixara seu lar para visitar. — Desde que encontramos nosso caminho de volta para os pousos, nós… — Sua voz foi sumindo quando a Amyrlin se aproximou.
Ingtar e os outros homens se mexeram em suas selas, preparando-se para desmontar e se ajoelhar, mas ela fez um gesto para impedi-los. Leane estava a seu lado, com Agelmar um passo atrás. Pela expressão lúgubre em seu rosto, ele parecia ter desistido de tentar convencê-la a ficar mais tempo.
A Amyrlin olhou um a um antes de falar. Seu olhar não se demorou em Rand mais do que em qualquer outro.
— Que a paz favoreça sua espada, Lorde Ingtar — disse, por fim. — Glória aos Construtores, Loial Kiseran!
— A senhora nos honra, Mãe. Possa a paz favorecer Tar Valon! — Ingtar se curvou em sua sela, e todos os outros shienaranos o imitaram.
— Toda a honra a Tar Valon — respondeu Loial, fazendo uma mesura.
Apenas Rand e seus dois amigos, do outro lado do grupo, permaneceram eretos. Ele ficou se perguntando o que ela lhes dissera. A testa franzida de Leane era para os três, e os olhos de Agelmar se arregalaram, mas a Amyrlin pareceu não reparar.
— Vocês cavalgam em busca da Trombeta de Valere — disse ela. — E a esperança do mundo vai com vocês. A Trombeta não pode cair em mãos erradas, especialmente nas mãos de Amigos das Trevas. Aqueles que atenderem a seu chamado virão em auxílio daquele que portá-la, não importa quem seja, e obedecem a ela, não à Luz.
Os homens que escutavam se agitaram. Todos acreditavam que os heróis que viriam do túmulo lutariam pela Luz. Mas se lutassem pela Sombra…
A Amyrlin continuou a falar, mas Rand não estava mais escutando. Os olhos invisíveis estavam de volta, e os pelos de sua nuca se arrepiaram. Ele olhou para as varandas dos arqueiros acima, que davam para o pátio, lotadas, e para as fileiras de gente que se amontoava ao longo das passarelas da guarda, no topo das muralhas. Em algum lugar entre eles, estivera o par de olhos que o seguira sem ser visto. O olhar se agarrava a ele como óleo sujo. Não pode ser um Desvanecido, não aqui. Então quem? Ou o quê? Ele se virou em sua sela, conduzindo Vermelho, à procura. O cavalo baio começou a se agitar outra vez.
De repente, alguma coisa relampejou em frente ao rosto de Rand. Um homem que passava atrás da Amyrlin gritou e caiu, com uma flecha preta despontando em seu flanco. A Amyrlin permaneceu calma, olhando para o rasgo em sua manga, onde o sangue lentamente manchava a seda cinza.
Uma mulher gritou, e o pátio subitamente ecoou com clamores e gritos. As pessoas nas muralhas se agitaram, iradas, e cada homem no pátio puxou sua espada. Até mesmo Rand, que ficou surpreso ao perceber o que fizera.
Agelmar ergueu sua lâmina para o céu.
— Encontrem-no! — urrou. — Tragam-no para mim! — Seu rosto foi de vermelho a branco quando viu o sangue na manga da Amyrlin. Ele caiu de joelhos, com a cabeça abaixada. — Perdão, Mãe. Fracassei em protegê-la. É uma vergonha.