— Bobagem, Agelmar — respondeu a Amyrlin. — Leane, pare de se preocupar comigo e cuide daquele homem. Já tive cortes piores mais de uma vez limpando peixe, e ele precisa de ajuda agora. Agelmar, levante-se! Levante-se, Lorde de Fal Dara! Você não fracassou e não tem motivos para se sentir envergonhado. No ano passado, na Torre Branca, com minhas guardas em cada portão e os Guardiões ao meu redor, um homem chegou a cinco passos de mim com uma faca. Um Manto-branco, sem dúvida, embora eu não pudesse provar. Por favor, levante-se, ou eu é que ficarei envergonhada. — Quando Agelmar se ergueu, lentamente, ela tocou a manga cortada com as pontas dos dedos. — Um péssimo disparo para um arqueiro dos Mantos-brancos, ou mesmo para um Amigo das Trevas. — Seus olhos cruzaram com os de Rand, de relance. — Se é que ele estava mirando em mim. — Seu olhar se desviou dele antes que o rapaz pudesse ler qualquer coisa em sua expressão, mas de repente teve vontade de desmontar e se esconder.
A flecha não era para ela, e ela sabe disso.
Leane se levantou de onde estava ajoelhada. Alguém cobrira o rosto do homem que fora atingido com um manto.
— Ele morreu, Mãe. — Ela parecia cansada. — Já estava morto ao tocar o chão. Mesmo que eu estivesse ao lado dele…
— Você fez o que pôde, Filha. A morte não pode ser Curada.
Agelmar se aproximou.
— Mãe, se há assassinos dos Mantos-brancos ou Amigos das Trevas por aqui, a senhora precisa permitir que eu envie homens para escoltá-la. Pelo menos até o rio: eu não conseguiria continuar a viver se algo lhe acontecer em Shienar. Por favor, retorne à ala das mulheres. Eu protegerei aquele lugar com minha vida até que a senhora esteja pronta para partir.
— Fique em paz — respondeu ela. — Este arranhão não me atrasará um instante sequer. Sim, sim, aceitarei seus homens até o rio com prazer, se você insiste. Mas não permitirei que isso atrase Lorde Ingtar nem um minuto. Cada segundo conta até que a Trombeta seja encontrada outra vez. Com sua permissão, Lorde Agelmar, posso dar ordens aos sacramentados?
Ele curvou a cabeça, concordando. Naquele instante, ele lhe teria dado Fal Dara, se ela pedisse.
A Amyrlin se virou para Ingtar e os homens se reuniram ao redor dele. Ela não tornou a olhar para Rand, que ficou surpreso ao vê-la sorrir.
— Aposto que Illian não oferece uma despedida tão animada aos que partem em sua Grande Caçada pela Trombeta — disse. — No entanto, a sua é a verdadeira. Vocês são poucos, então podem viajar rápido, mas são suficientes para fazer o que é preciso. Eu encarrego você, Lorde Ingtar da Casa Shinowa, encarrego todos vocês de encontrar a Trombeta de Valere e não permitir que nada impeça seu caminho.
Ingtar tirou a espada das costas e beijou a lâmina.
— Juro pela minha vida e minha alma, pela minha Casa e honra, Mãe.
— Então vá!
Ingtar girou o cavalo na direção do portão.
Rand meteu os calcanhares nos flancos de Vermelho e saiu galopando atrás da coluna, que já passava pelos portões.
Sem saber o que havia ocorrido lá dentro, os lanceiros e arqueiros da Amyrlin estavam de pé, protegendo o caminho dos portões até a cidade propriamente dita, ostentando a Chama de Tar Valon em seus peitos. Os tocadores de tambor e trombeta aguardavam perto dos portões, prontos para começar a tocar quando ela partisse. Por trás das fileiras de homens em armaduras, as pessoas lotavam a praça em frente à fortaleza. Algumas saudavam aos gritos o estandarte de Ingtar, outras, sem dúvida, acharam que era o começo da partida do Trono de Amyrlin. Um rugido crescente acompanhou Rand ao longo da praça.
Ele alcançou Ingtar onde casas de beirais baixos e lojas se enfileiravam de cada lado, e mais pessoas se aglomeravam ao longo da rua de pavimento de pedras. Algumas também gritavam, animadas. Mat e Perrin cavalgavam na frente da coluna, com Ingtar e Loial, mas reduziram o ritmo e ficaram para trás quando Rand se reuniu a eles. Como vou pedir desculpas se eles não querem ficar perto de mim por tempo suficiente para que eu diga qualquer coisa? Que me queime, ele não parece estar morrendo!
— Changu e Nidao se foram — disse Ingtar, bruscamente. Sua voz estava fria e zangada, mas também abalada. — Contamos cada cabeça na fortaleza, viva ou morta, ontem à noite, e voltamos a fazê-lo hoje de manhã. Eles são os únicos que não foram encontrados.
— Changu estava de guarda no calabouço ontem — informou Rand, devagar.
— Nidao também. Eles estavam no segundo turno. Sempre ficavam juntos, mesmo que tivessem que trocar com alguém ou trabalhar mais horas. Não estavam de guarda quando aconteceu, mas… Eles lutaram na Garganta de Tarwin, há um mês, e salvaram Lorde Agelmar quando seu cavalo caiu e ele foi cercado por Trollocs. Agora isso. Amigos das Trevas. — Ele respirou bem fundo. — Tudo está desmoronando.
Um homem a cavalo abriu caminho por entre a multidão, ao longo da rua, e se juntou ao grupo, atrás de Ingtar. Era um homem da cidade, a julgar por suas roupas, magro, com o rosto enrugado e os cabelos grisalhos compridos. Uma sacola e garrafas d’água estavam penduradas atrás de sua sela, e uma espada curta e uma adaga quebra-espada dentada pendiam de seu cinturão, junto com um porrete.
Ingtar percebeu que Rand observava o estranho.
— Este é Hurin, nosso farejador. Não havia necessidade de deixar as Aes Sedai saberem a respeito dele. Não que o que ele faça seja errado, entenda. O Rei mantém um farejador em Fal Moran, e existe outro em Ankor Dail. É só que as Aes Sedai raramente gostam do que não entendem, e por ele ser homem… Não tem nada a ver com o Poder, é claro. Aaaah! Explique você, Hurin.
— Sim, Lorde Ingtar — concordou o homem. Ele fez uma mesura profunda para Rand, de sua sela. — Me sinto honrado em servi-lo, milorde.
— Me chame de Rand. — O rapaz estendeu a mão e, depois de um instante, Hurin sorriu e a apertou.
— Como desejar, milorde Rand. Lorde Ingtar e Lorde Kajin são mais informais, e Lorde Agelmar também, é claro, mas na cidade dizem que o senhor é um príncipe do sul, e alguns lordes estrangeiros têm regras rígidas para cada homem, em suas terras.
— Eu não sou um lorde. — Pelo menos me livrarei disso agora . — Sou apenas Rand.
Hurin piscou.
— Como desejar, milor… hã… Rand. Bem, sou um farejador. Neste domingo, vai completar quatro anos. Nunca tinha ouvido falar em algo assim até me tornar um, mas ouvi dizer que existem outros como eu. Tudo começou devagar, eu sentia cheiros ruins onde ninguém mais sentia, e foi aumentando. Levei um ano para perceber o que era. Eu conseguia sentir o cheiro da violência, da morte e do sofrimento. Sentia o cheiro onde essas coisas aconteciam. Farejava o rastro daqueles que a praticavam. Cada rastro é diferente, então não há chance de confundi-los. Lorde Ingtar ouviu falar disso e me colocou a seu serviço, para servir à justiça do Rei.
— Você sente o cheiro de violência? — perguntou Rand. Ele não pôde evitar olhar para o nariz do homem. Era um nariz comum, nem grande nem pequeno. — Quer dizer que consegue realmente seguir alguém que, digamos, tenha matado outro homem? Pelo cheiro?
— Eu posso, sim, milor… hã… Rand. O cheiro passa com o tempo, mas, quanto pior a violência, mais tempo dura. Ah, eu consigo sentir o cheiro de um campo de batalha de dez anos atrás, embora os rastros dos homens que lá lutaram já tenham desaparecido. Lá em cima, perto da Praga, os rastros dos Trollocs raramente desaparecem. Trollocs só sabem matar e ferir. Mas uma luta em uma taverna que resulte em, digamos, um braço quebrado… esse cheiro some em horas.
— Entendo por que não queria que as Aes Sedai descobrissem.
— Ah, Lorde Ingtar estava certo quanto às Aes Sedai, que a Luz as ilumine… hã… Rand. Encontrei uma em Cairhien, certa vez. Era uma Ajah Marrom, mas juro que achei que fosse Vermelha, antes de ela me soltar. A mulher me prendeu por um mês, tentando descobrir como eu fazia isso. Não gostava de não saber. Ela ficava resmungando: “É antigo ou novo?” E me encarava tanto que até você pensaria que eu estava usando o Poder Único. Ela quase me fez pensar que estava. Mas não enlouqueci, e não fazia nada. Só cheirava.