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Rand ficou surpreso ao ver Loial sorrir quando estavam no chão, subindo com dificuldade uma colina. O Ogier tivera suas reservas em relação a cavalos e cavalgadas quando se conheceram; preferia confiar nos próprios pés, mas Rand achava que ele já tinha superado isso havia muito tempo.

— Você gosta de correr, Rand? — perguntou Loial, rindo. — Eu gosto. Eu era o mais rápido do pouso de Shangtai. Certa vez, corri mais rápido que um cavalo.

Rand só conseguiu assentir com a cabeça. Não queria perder fôlego conversando. Procurou por Mat e Perrin, mas os dois ainda estavam na retaguarda, com homens demais entre eles para que Rand conseguisse avistá-los. Ficou se perguntando como os shienaranos conseguiam manter o passo naquelas armaduras. Nenhum deles reduziu a velocidade nem reclamou de nada. Uno não parecia nem suar, e o porta-estandarte não deixou a Coruja Cinzenta se inclinar nem por um instante.

Era um ritmo acelerado, mas o crepúsculo começou a cair sem trazer nem sinal daqueles a quem caçavam, a não ser pelos rastros. Por fim, relutante, Ingtar os mandou parar e montar acampamento para passar a noite na floresta. Os shienaranos se puseram a acender fogueiras e abrir linhas de piquete para os cavalos, com uma suave economia de esforço nascida da longa experiência. Ingtar escolheu três duplas de guardas para a primeira vigia.

A primeira coisa que Rand fez foi buscar sua sacola nas cestas de vime dos cavalos de carga. Não foi di ícil, pois havia poucas sacolas pessoais entre os suprimentos, mas, quando a abriu, soltou um grito que fez todos os homens do acampamento levantarem-se sobressaltados de espada na mão.

Ingtar veio correndo.

— O que foi? Paz, alguém atravessou a linha? Não ouvi os guardas.

— São estes casacos — grunhiu, ainda olhando para a sacola que abrira. Um dos casacos era preto, com um bordado prateado, e o outro, branco bordado em ouro. Ambos tinham garças nos colarinhos, e ambos eram no mínimo tão ornamentados quanto o casaco escarlate que ele vestia. — Os serviçais me disseram que eu tinha dois casacos bons e úteis aqui dentro. Olhe só para eles!

Ingtar embainhou a espada por cima do ombro. Os outros homens voltaram a se acomodar.

— Bem, eles são úteis.

— Não posso vestir isso. Não posso sair por aí vestido assim o tempo todo.

— Você pode vesti-los. Um casaco é um casaco. Soube que a própria Moiraine Sedai empacotou suas coisas. Talvez as Aes Sedai não entendam exatamente o que um homem vista no campo. — Ingtar sorriu. — Depois de capturarmos esses Trollocs, talvez haja uma festança. Pelo menos você terá roupas apropriadas, ao contrário do restante. — Ele voltou para onde as fogueiras de cozinhar já estavam acesas.

Rand não se movera desde que Ingtar mencionara Moiraine. Ficou olhando para os casacos. O que ela está tramando? Seja lá o que for, não serei usado. Ele embrulhou as roupas de volta e enfiou a sacola no cesto. Eu sempre posso andar pelado, pensou com amargura.

Os shienaranos se revezavam para cozinhar quando acampavam, e Masema era o responsável pelo caldeirão quando Rand voltou às fogueiras. O cheiro de um cozido de nabos, cebolas e carne seca começou a invadir o acampamento. Ingtar foi o primeiro a ser servido, seguido de Uno, mas todos os outros formaram uma ila. Masema jogou uma grande concha de cozido no prato de Rand, que recuou depressa para evitar que a comida transbordasse e sujasse seu casaco. Estava com o polegar queimado na boca quando abriu espaço para o homem seguinte. Masema ficou olhando para ele com um sorriso que não chegou aos olhos. Até que Uno avançou e lhe deu um tapa.

— Não estamos com comida de sobra para você ficar derramando no maldito chão. — O caolho olhou para Rand e se afastou. Masema esfregou a orelha, mas seu olhar irritado acompanhou Rand.

O rapaz foi se juntar a Ingtar e Loial, sentando-se no chão sob um enorme carvalho. Ingtar tirara o elmo e o colocara no chão, ao seu lado, mas ainda usava a armadura completa. Mat e Perrin já estavam lá, comendo com vontade. Mat olhou com desdém para o casaco de Rand, mas Perrin mal levantou a cabeça, com os olhos dourados reluzindo à meia-luz das fogueiras, antes de voltar a atenção para o seu prato.

Pelo menos eles não se afastaram desta vez.

Ele se sentou de pernas cruzadas do outro lado de Ingtar.

— Gostaria de saber por que Uno não para de me encarar. Deve ser por causa deste maldito casaco.

Ingtar fez uma pausa, pensativo, enquanto mastigava um bocado de cozido. Por fim, falou:

— Sem dúvida, Uno está se perguntando se você é digno de uma espada com a marca da garça. — Mat fez um ruído debochado, mas Ingtar continuou, imperturbável. — Não deixe Uno aborrecê-lo. Ele trataria Lorde Agelmar como um recruta, se pudesse. Bem, talvez não Agelmar, mas qualquer outro. Ele é meio áspero, mas dá bons conselhos. E deveria, já que participa de campanhas desde antes de eu nascer. Ouça seus conselhos, não ligue para sua aspereza e, então, se dará bem com Uno.

— Achei que ele fosse como Masema. — Rand enfiou cozido na boca. Estava quente demais, mas ele engoliu tudo. Não haviam comido desde que deixaram Fal Dara, e ele estava preocupado demais para comer naquela manhã. Seu estômago roncava, lembrando-o que já passava da hora. Ele se perguntou se dizer a Masema que tinha gostado da comida ajudaria. — Ele age como se me odiasse, não entendo isso.

— Masema serviu por três anos nas Marcas Orientais — respondeu Ingtar. — Em Ankor Dail, contra os Aiel. — Ele mexeu o cozido com a colher, franzindo a testa. — Eu não faço perguntas, veja bem. Se Lan Dai Shan e Moiraine Sedai dizem que você é de Andor, de Dois Rios, então você é. Mas Masema não consegue tirar o rosto dos Aiel da cabeça, e quando o vê… — Ele deu de ombros. — Eu não faço perguntas.

Rand deixou a colher cair no prato com um suspiro.

— Todos pensam que eu sou alguém que não sou. Sou de Dois Rios, Ingtar. Cultivei tabaco com… com meu pai, e criei suas ovelhas. É isso o que sou. Um fazendeiro e um pastor de Dois Rios.

— Ele é de Dois Rios — concordou Mat, com escárnio. — Eu cresci com ele, embora agora nem dê pra ver isso. Vocês colocam essa bobagem de Aiel na cabeça dele, além do que já está aí, e só a Luz sabe qual será o resultado. Um Lorde Aiel, talvez?

— Não — comentou Loial. — Ele parece Aiel. Você lembra, Rand, que comentei isso uma vez, embora achasse que fosse apenas porque não conhecesse bem vocês, humanos, na época. Lembra? “Até a sombra sumir, até a água secar, saltando na Sombra com os dentes à mostra, gritando em desafio com seu último suspiro, para cuspir no olho do Cega-vista no Último Dia.” Você lembra, Rand?

Rand encarou o prato. Enrole uma shoufa ao redor de sua cabeça, Rand, e você será um Aiel perfeito . Gawyn, irmão de Elayne, a Filha-Herdeira de Andor, dissera aquilo. Todos pensam que sou alguém que não sou.

— O que você disse? — perguntou Mat. — Essa história de cuspir no olho do Tenebroso.

— Esse é o tempo pelo qual os Aiel dizem que lutarão — respondeu Ingtar — e não duvido que o façam. Exceto por mascates e menestréis, os Aiel dividem o mundo em dois: Aiel e inimigos. Eles deixaram de pensar assim sobre Cairhien há quinhentos anos, por algum motivo que ninguém, a não ser um deles, pode entender. Mas não acho que voltem a fazê-lo.

— Suponho que não — suspirou Loial. — Mas eles deixam os tuatha’an, o Povo Viajante, atravessar o Deserto. E também não veem os Ogier como inimigos, embora eu duvide que qualquer um de nós quisesse ir até lá. Os Aiel às vezes vão ao pouso de Shangtai para negociar madeira cantada. Mas são um povo duro.

Ingtar assentiu.

— Quisera eu ter homens assim tão duros. Metade do que os Aiel, até.