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Depois de um minuto, Mat perguntou:

— Como pode ser pior?

— Será. Posso sentir o cheiro — Foi tudo o que Perrin disse.

Hurin olhou para ele, nervoso, mas o homem parecia lançar olhares nervosos desde que tinham deixado Fal Dara.

A barca bateu na outra margem com um impacto oco de pranchas rígidas encontrando a argila dura, quase embaixo de árvores que se penduravam sobre as margens. Os shienaranos que puxavam a corda montaram em seus cavalos, exceto dois deles, que Ingtar mandou levar a barca de volta para buscar os outros. O restante o seguiu margem acima.

— Cinquenta passos até um grande carvalho-branco — disse Ingtar, enquanto cavalgavam entre as árvores. Sua voz soava tranquila demais. Se Ragan não conseguira contar o que vira… Alguns dos soldados afrouxaram as espadas nas costas e ficaram com as lanças preparadas.

No começo, Rand achou que as duas figuras penduradas pelos braços nos galhos grossos e cinzentos do carvalho-branco eram espantalhos. Espantalhos vermelhos. Então reconheceu os rostos. Changu e o outro homem que estivera de guarda com ele, Nidao. Seus olhos estavam abertos e os dentes à mostra em um berro de dor. Tinha sido uma morte lenta.

Perrin soltou um grunhido gutural, quase um rosnado.

— Nunca vi nada tão ruim, milorde — disse Hurin fracamente. — Nunca senti um cheiro tão ruim, a não ser no calabouço de Fal Dara, naquela noite.

Desesperado, Rand tentou invocar o vazio. A chama parecia atrapalhá-lo, a luz incerta tremeluzia no mesmo ritmo frenético em que ele engolia em seco, mas ele continuou tentando até conseguir se envolver no vazio. No entanto, a incerteza pulsou junto com ele. Não do lado de fora, dessa vez, mas de dentro. Não é de se espantar, olhando esta cena . O pensamento deslizou pelo vazio como uma gota d’água em uma grelha quente. O que aconteceu com eles?

— Foram esfolados vivos — disse alguém atrás dele, e Rand ouviu sons de outra pessoa vomitando. Achou que fosse Mat, mas, de dentro do vazio, tudo ficava muito distante. E aquele tremeluzir nauseante também estava ali dentro. Achou que também fosse vomitar.

— Corte as cordas e desça-os — comandou Ingtar, ríspido. Ele hesitou por um momento, então acrescentou: — Enterrem-nos. Não temos certeza de que eram Amigos das Trevas. Podiam ser prisioneiros. Podiam ser. Que conheçam o último abraço da mãe, pelo menos!

Homens avançaram a cavalo, manejando as facas sem jeito. Nem mesmo para shienaranos endurecidos pela batalha era tarefa fácil carregar os corpos esfolados de homens que haviam conhecido.

— Você está bem, Rand? — perguntou Ingtar. — Eu também não estou acostumado com isso.

— Eu… eu estou bem, Ingtar.

Rand deixou o vazio desaparecer. Sentia-se menos enjoado sem ele. Seu estômago ainda estava embrulhado, mas ele se sentia melhor. Ingtar assentiu e virou seu cavalo para ver os homens trabalhando.

O enterro foi simples. Dois buracos foram cavados no chão, e os corpos foram colocados lá dentro enquanto os demais shienaranos observavam em silêncio. Os coveiros, sem demora, começaram a jogar pás de terra dentro dos túmulos.

Rand ficou chocado, mas Loial explicou em voz baixa:

— Os shienaranos acreditam que todos viemos da terra, e à terra devemos voltar. Eles nunca usam caixões ou mortalhas, e os corpos são enterrados despidos. A terra deve receber o corpo. O último abraço da mãe, é como chamam. E nunca há discursos, apenas “Que a Luz brilhe sobre você, e o Criador o abrigue! O último abraço da mãe lhe dá as boas-vindas em sua casa.” — Loial suspirou e sacudiu a enorme cabeça. — Não acho que alguém vá dizê-las, desta vez. Não importa o que Ingtar diga, Rand, não há muita dúvida de que Changu e Nidao mataram os guardas no Portão do Cão e deixaram os Amigos das Trevas entrarem na fortaleza. Eles devem ser os responsáveis por tudo isso.

— Então quem disparou a flecha na… na Amyrlin? — Rand engoliu em seco. Quem disparou em mim? Loial não respondeu.

Uno chegou com o restante dos homens e os cavalos de carga quando a última pá de terra estava sendo jogada nos túmulos. Alguém lhe disse o que haviam encontrado, e o caolho cuspiu.

— Trollocs beija-cabras fazem isso perto da maldita Praga, às vezes. Quando querem mexer com seus nervos ou avisar você para não seguir adiante. Que me queime se isso funcionar aqui também!

Antes de seguirem em frente, Ingtar parou seu cavalo ao lado dos túmulos sem sepultura, dois montinhos de terra que pareciam pequenos demais para conter homens. Depois de um momento, disse:

— Que a Luz brilhe sobre vocês, e o Criador os abrigue! O último abraço da mãe lhes dá as boas-vindas em sua casa. — Quando levantou a cabeça, olhou para um homem de cada vez. Eles o olharam de modo inexpressivo, mas o rosto mais inexpressivo de todos era o de Ingtar. — Eles salvaram Lorde Agelmar na Garganta de Tarwin — disse. Vários dos lanceiros assentiram. Ingtar virou seu cavalo. — Para que lado, Hurin?

— Sul, milorde.

— Sigam o rastro! Vamos caçar!

A floresta logo deu lugar a uma terra praticamente plana, de ondulações suaves, às vezes atravessada por um riacho raso que escavara um canal de margens altas. Mas nunca havia mais do que uma elevação baixa ou um pequeno morro, que mal merecia esse nome. Terra perfeita para os cavalos. Ingtar aproveitou a oportunidade, impondo um ritmo firme e cobrindo o terreno. Volta e meia, Rand via o que poderia ter sido uma casa de fazenda a distância. Numa das ocasiões, julgou que fosse uma vila, com fumaça saindo de chaminés a algumas milhas e algo relampejando branco sob o sol. Mas a terra perto deles permanecia sem humanos à vista, apenas longas extensões de grama pontilhadas com arbustos e uma ou outra árvore. Vez por outra, uma pequena cerca viva, mas nunca com mais de cem passos de extensão.

Ingtar enviou batedores, dois homens que foram cavalgando à frente, avistados apenas quando chegavam ao topo de uma rara elevação. Ele levava um apito de prata pendurado no pescoço para chamá-los de volta, caso Hurin dissesse que o rastro se desviara, mas isso não aconteceu. Sul. Sempre sul.

— Chegaremos ao campo de Talidar em três ou quatro dias, a esta velocidade — comentou Ingtar enquanto cavalgavam. — A maior vitória de Artur Asa-de-gavião, quando os Meio-Homens contra ele lideraram os Trollocs até fora da Praga, durou seis dias e seis noites, e, quando acabou, os Trollocs fugiram de volta para a Praga e nunca mais ousaram desafiá-lo. Ele ergueu um monumento ali, em homenagem a essa vitória: uma torre com cem braças de altura. Não deixou que pusessem seu nome nela. Em vez disso, mandou colocarem os nomes de cada homem que tombou em combate e um sol dourado no alto, símbolo de que a Luz havia triunfado sobre a Sombra.

— Eu gostaria de vê-lo — disse Loial. — Nunca ouvi falar desse monumento.

Ingtar ficou em silêncio por um momento e, quando voltou a falar, sua voz era baixa.

— A torre não está mais lá, Construtor. Quando Asa-de-gavião morreu, os que disputaram seu império não podiam suportar a ideia de um monumento à sua vitória, mesmo que não fizesse menção a seu nome. Não restou nada, a não ser o monte onde ela ficava. Em três ou quatro dias, poderemos vê-lo, pelo menos. — Seu tom de voz não permitiu muita conversa depois disso.

Com o sol dourado sobre suas cabeças, eles passaram por uma estrutura quadrada, feita com tijolos de gesso, a cerca de uma milha do caminho. Não era alta, não tinha mais do que dois andares ainda em pé, mas cobria um bom pedaço de chão. Uma antiga atmosfera de abandono pendia sobre os telhados que haviam desaparecido, a não ser por alguns trechos de telhas escuras penduradas em pedaços de vigas. A maior parte do gesso, outrora branco, havia caído, deixando exposto o tijolo escuro e corroído pela ação do tempo. Paredes desmoronadas revelavam no interior pátios e câmaras em decomposição. Arbustos, e até mesmo árvores, cresciam nas rachaduras do que antes haviam sido pátios.