Dentro, havia um aposento bem-arrumado. A mesa estava posta para uma refeição, as cadeiras tinham encosto de ripas e pratos já estavam servidos. Algumas moscas zumbiam sobre tigelas de nabos e ervilhas, outras se arrastavam por um pedaço de carne assada que repousava em sua própria gordura congelada. Havia uma fatia meio cortada, o garfo ainda estava cravado na carne, e o facão, caído sobre a bandeja, como se alguém o tivesse deixado cair. Rand entrou.
Piscou.
Um homem careca e sorridente, usando roupas rústicas, serviu uma fatia de carne em um prato estendido por uma mulher de rosto cansado, mas que também sorria. Ela acrescentou ervilhas e nabos ao prato e o passou para uma das crianças que estavam à mesa. Eram seis crianças, meninos e meninas. Alguns quase crescidos, outros mal tinham tamanho para olhar por cima da mesa. A mulher disse alguma coisa, e a garota que pegou o prato de sua mão riu. O homem começou a cortar mais uma fatia.
De repente, outra garota soltou um grito, apontando para a porta. O homem deixou cair a faca e se virou, então gritou também, com o rosto contorcido de horror, e agarrou uma das crianças. A mulher agarrou outra, e fez gestos desesperados para as outras, mexendo a boca, a lita, sem fazer barulho. Todos saíram correndo na direção de uma porta nos fundos do aposento.
Essa porta se abriu de súbito, e…
Rand piscou.
Ele não conseguia se mover. As moscas que zumbiam acima da mesa faziam ainda mais barulho. Sua respiração formava uma nuvem de vapor na frente da boca.
Rand piscou.
Um homem careca e sorridente, usando roupas rústicas, serviu uma fatia de carne em um prato estendido por uma mulher de rosto cansado, mas que também sorria. Ela acrescentou ervilhas e nabos ao prato e o passou para uma das crianças que estavam à mesa. Eram seis crianças, meninos e meninas. Alguns quase crescidos, outros mal tinham tamanho para olhar por cima da mesa. A mulher disse alguma coisa, e a garota que pegou o prato de sua mão riu. O homem começou a cortar mais uma fatia.
De repente, outra garota soltou um grito, apontando para a porta. O homem deixou cair a faca e se virou, então gritou também, com o rosto contorcido de horror, e agarrou uma das crianças. A mulher agarrou outra, e fez gestos desesperados para as outras, mexendo a boca, a lita, sem fazer barulho. Todos saíram correndo na direção de uma porta nos fundos do aposento.
Essa porta se abriu de súbito, e…
Rand piscou.
Ele lutava, mas seus músculos pareciam congelados. O aposento estava mais frio. Ele queria tremer, mas não conseguia se mexer nem para isso. Moscas se arrastavam por toda a mesa. Procurou o vazio. A luz fraca estava lá, mas ele não se importava. Ele tinha que…
Rand piscou.
Um homem careca e sorridente, usando roupas rústicas, serviu uma fatia de carne em um prato estendido por uma mulher de rosto cansado, mas que também sorria. Ela acrescentou ervilhas e nabos ao prato e o passou para uma das crianças que estavam à mesa. Eram seis crianças, meninos e meninas. Alguns quase crescidos, outros mal tinham tamanho para olhar por cima da mesa. A mulher disse alguma coisa, e a garota que pegou o prato de sua mão riu. O homem começou a cortar mais uma fatia.
De repente, outra garota soltou um grito, apontando para a porta. O homem deixou cair a faca e se virou, então gritou também, com o rosto contorcido de horror, e agarrou uma das crianças. A mulher agarrou outra, e fez gestos desesperados para as outras, mexendo a boca, a lita, sem fazer barulho. Todos saíram correndo na direção de uma porta nos fundos do aposento.
Essa porta se abriu de súbito, e…
Rand piscou.
O aposento estava congelando. Tão frio. Moscas enegreciam a mesa. As paredes eram uma massa ondulante de moscas, o chão, o teto, tudo preto pela quantidade de moscas. Elas se arrastavam em cima de Rand, cobriam-no, se arrastavam sobre seu rosto, seus olhos, dentro de seu nariz, de sua boca. Luz, me ajude. Frio. O zumbido das moscas tinha som de trovão. Frio. O frio penetrava o vazio, rindo dele, encapsulando-o em gelo. Desesperado, ele procurou a luz tremeluzente. Seu estômago dava voltas, mas a luz era morna. Morna. Quente. Ele estava quente.
De repente, estava rasgando… alguma coisa. Ele não sabia o quê, ou como. Teias de aranha feitas de aço. Raios de luar escavados em pedra. Elas desmoronavam ao toque de seus dedos, mas ele sabia que não havia tocado em nada. Elas murchavam e se derretiam com o calor que o atravessava, um calor igual ao de uma forja, um calor como se o mundo pegasse fogo, um calor como…
A visão desapareceu. Ofegante, ele olhou ao redor com os olhos arregalados. Algumas poucas moscas jaziam sobre a carne assada meio cortada na bandeja. Moscas mortas. Seis moscas. Apenas seis. Havia mais nas tigelas, meia dúzia de pontinhos pretos entre as verduras frias. Todas mortas. Ele saiu para a rua, cambaleando.
Mat estava saindo de uma casa do outro lado da rua, balançando a cabeça.
Rand piscou.
— Ninguém lá dentro — disse a Perrin, que ainda estava montado em seu cavalo. — Parece que simplesmente se levantaram no meio do jantar e foram embora.
Um grito veio da praça.
— Encontraram alguma coisa — disse Perrin, metendo os calcanhares nos flancos do cavalo. Mat subiu correndo na sela e foi galopando atrás dele.
Rand montou em Vermelho mais devagar, e o garanhão recuou como se sentisse seu desconforto. Ele olhou de relance para as casas ao cavalgar devagar na direção da praça, mas não conseguia olhar para elas por muito tempo. Mat entrou em uma e nada lhe aconteceu . Ele resolveu não pôr os pés dentro de outra casa daquela aldeia, não importava o que houvesse. Metendo as botas nos flancos de Vermelho, acelerou o passo.
Todos estavam parados como estátuas diante de um grande prédio de portas duplas. Rand não achava que aquilo pudesse ser uma estalagem. Para começar, não tinha nenhuma placa. Talvez fosse um local de reuniões da aldeia. Reuniu-se ao círculo silencioso e começou a olhar na mesma direção que os outros.
Havia um homem com os braços abertos sobre as portas, pregos enormes atravessavam-lhe os punhos e os ombros. Mais pregos haviam sido enfiados em seus olhos, para manter sua cabeça erguida. Sangue seco e escuro descia por suas bochechas, espalhando-se. Arranhões na madeira atrás de suas botas indicavam que ele estava vivo quando aquilo fora feito. Quando começou, pelo menos.
Rand prendeu a respiração. Não era um homem. Aquelas roupas pretas, mais pretas do que o preto, nunca haviam sido vestidas por qualquer humano. O vento balançava uma ponta de seu manto preto atrás do corpo, o que nem sempre acontecia, como ele bem sabia: o vento nem sempre tocava aquelas roupas. Mas nunca houve olhos naquele rosto pálido e sem sangue.
— Myrddraal — disse baixinho, e foi como se sua voz libertasse todas as outras.
Eles começaram a se mover outra vez e a respirar.
— Quem — começou Mat, mas teve de parar para engolir em seco. — Quem poderia ter feito isso com um Desvanecido? — Sua voz saiu aguda no fim da pergunta.
— Não sei — respondeu Ingtar. — Eu não sei. — Ele olhou ao redor, examinando rostos, ou talvez contando para ter certeza de que todos estavam ali. — E não acho que vamos descobrir aqui. Vamos cavalgar. Montem! Hurin, encontre a trilha para sair deste lugar.
— Sim, milorde. Sim. Com prazer. Por aqui, milorde. Eles ainda estão indo para o sul.
Eles saíram cavalgando, deixando o Myrddraal morto onde estava, e o vento balançava seu manto negro. Hurin foi o primeiro a sair da muralha, sem esperar por Ingtar dessa vez, e Rand ia logo atrás dele.
11
Vislumbres do Padrão
Diferente dos outros dias, Ingtar mandou que parassem com o sol dourado ainda brilhando acima do horizonte. Os resistentes shienaranos começavam a sentir os efeitos do que tinham visto na aldeia. Ingtar até então não havia ordenado uma parada tão cedo, e o local que escolhera para o acampamento parecia fácil de ser defendido. Era uma clareira oculta, quase redonda, grande o bastante para abrigar confortavelmente todos os homens e cavalos. Um bosque esparso de carvalhos e folha-de-couros recobria as encostas externas, e a margem da clareira era alta o bastante para esconder as pessoas do acampamento, mesmo sem as árvores. Naquele lugar, as margens altas poderiam se passar por colinas.