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— Tudo o que estou dizendo — falou Uno para Ragan, quando desmontavam — é que a vi, que me queime! Pouco antes de encontrarmos aquele Meio-homem beija-cabras. A mesma mulher chamejada daquela barca chamejada. Ela estava lá, e depois não estava mais. Pode dizer o que quiser, mas cuidado com as palavras que usa, ou eu esfolo você vivo e queimo sua pele, seu bebedor de leite covarde.

Rand ficou imóvel, um pé no chão e o outro ainda no estribo. A mesma mulher? Mas não tinha mulher nenhuma na barca, só cortinas soprando ao vento. E ela não poderia ter chegado àquela aldeia na nossa frente, mesmo que tivesse aparecido antes. A aldeia…

Ele se obrigou a parar de pensar no assunto. Queria esquecer aquela sala, as moscas e as pessoas que estavam e não estavam lá, mais do que queria esquecer o Desvanecido pregado na porta. O Meio-homem era real, todos tinham visto, mas aquela sala… Talvez eu finalmente esteja ficando louco. Ele queria que Moiraine estivesse lá para conversar com ele. Queria a presença de uma Aes Sedai. Você é um idiota. Já conseguiu escapar disso, agora fique longe. Mas será que eu estou mesmo longe? O que foi que aconteceu lá?

— Cavalos de carga e suprimentos no meio — ordenou Ingtar, quando os piqueiros começaram a montar o acampamento. — Escovem os cavalos e os selem, para o caso de precisarmos partir depressa. Cada homem dormirá ao lado de sua montaria, e esta noite não haverá fogueiras. A vigia muda a cada duas horas. Uno, quero que os batedores cavalguem o mais longe possível e voltem antes do escurecer. Quero saber o que há lá fora.

Ele também está sentindo , pensou Rand. Não são mais apenas alguns Amigos das Trevas, alguns Trollocs e, quem sabe, um Desvanecido . Apenas alguns Amigos das Trevas, alguns Trollocs e, quem sabe, um Desvanecido!? Poucos dias antes não haveria nenhum “apenas” ligado a essa ideia. Até mesmo nas Terras de Fronteira, com a Praga a menos de um dia de cavalgada, Amigos das Trevas, Trollocs e Myrddraal eram ruins o bastante para um pesadelo. Ele vira um Myrddraal pregado a uma porta. O quê, pela Luz, poderia ter feito aquilo? O que não pela Luz? Ele entrara em um aposento onde o jantar e os risos de uma família haviam sido interrompidos. Deve ter sido minha imaginação. Deve ter sido. Mesmo na própria cabeça, não soava muito convincente. Ele não imaginara o vento no alto da torre, nem a Amyrlin dizendo…

— Rand. — Ele se sobressaltou quando Ingtar o chamou, às suas costas. — Vai ficar a noite toda com o pé no estribo?

Rand pôs o outro pé no chão.

— Ingtar, o que aconteceu lá naquela aldeia?

— Trollocs os pegaram. Foi a mesma coisa com as pessoas na barca. Foi isso o que aconteceu. O Desvanecido… — Ingtar estremeceu e olhou para baixo, para um pacote de lona achatado, grande e quadrado, em seus braços. Ele encarou o embrulho como se visse segredos escondidos que preferia não saber. — Os Trollocs levaram as pessoas para comer. Eles fazem isso em aldeias e fazendas perto da Praga, também, quando um grupo de ataque passa pelas torres da fronteira durante a noite. Às vezes conseguimos resgatar as pessoas, às vezes não. Às vezes as resgatamos e quase desejamos que não tivéssemos conseguido. Os Trollocs nem sempre matam antes de começar a arrancar os pedaços. E os Meio-homens gostam de… se divertir; o que é pior do que o que os Trollocs fazem! — Sua voz soava firme, como se ele estivesse falando sobre algo cotidiano. E talvez, para um soldado shienarano, estivesse.

Rand respirou fundo para acalmar o estômago.

— O Desvanecido lá atrás não se divertiu muito, Ingtar. O que poderia pregar um Myrddraal a uma porta, e vivo?

O homem hesitou, sacudindo a cabeça, depois entregou o embrulho para Rand.

— Aqui. Moiraine Sedai me disse para lhe entregar isto no primeiro acampamento ao sul do Erinin. Não sei o que tem aí dentro, mas ela falou que você precisaria disso. Ela disse para você cuidar bem desse embrulho, pois sua própria vida pode depender disso.

Rand aceitou o embrulho com alguma relutância. Sentiu arrepios ao tocar a lona. Havia alguma coisa macia ali dentro. Tecido, talvez. Ele o segurou cuidadosamente. Ele também não quer pensar no Myrddraal. O que aconteceu naquele lugar? De repente percebeu que, para ele, era preferível pensar no Desvanecido, ou mesmo naquele aposento, a pensar na missão para qual Moiraine poderia tê-lo enviado.

— Me mandaram dizer, quando entregasse isso, que os piqueiros seguirão você, caso algo me aconteça.

— A mim? — perguntou Rand, sem fôlego, esquecendo-se do saco e de tudo o mais. Ingtar devolveu seu olhar incrédulo, assentindo com a cabeça com muita tranquilidade. — Isso é loucura! Ingtar, eu nunca liderei nada, a não ser um bando de ovelhas. Eles não me seguiriam, de qualquer jeito. Além do mais, Moiraine não pode lhe dizer quem é seu segundo em comando. É Uno.

— Uno e eu fomos chamados à presença do Lorde Agelmar na manhã de nossa partida. Moiraine Sedai estava lá, mas foi Lorde Agelmar quem falou. Você é o segundo em comando, Rand.

— Mas por quê, Ingtar? Por quê?

Rand conseguia ver muito bem a mão de Moiraine naquilo tudo. A dela e a da Amyrlin, forçando-o ao longo do caminho que haviam escolhido. Mas ele precisava perguntar.

O shienarano também não parecia entender, mas era um soldado e estava acostumado a receber ordens estranhas na interminável guerra contra a Praga.

— Ouvi rumores da ala das mulheres de que você era na verdade um… — Ele abriu as mãos, cobertas pelas manoplas. — Não importa. Eu sei que você nega. Assim como nega a própria aparência. Moiraine Sedai diz que você é um pastor, mas nunca vi um pastor com uma espada com a marca da garça. Não vou dizer que eu o teria escolhido, mas acho que você tem o que é necessário. Você cumprirá seu dever, se for preciso.

Rand queria dizer que não era seu dever, mas, em vez disso, falou:

— Uno sabe disso. Quem mais, Ingtar?

— Todos os piqueiros. Quando nós, shienaranos, cavalgamos, todos os homens sabem quem é o próximo na linha de sucessão caso o comandante venha a cair. Uma cadeia que permanece intacta até o último homem, mesmo que ele não seja nada além de um cavalariço. Assim, veja bem, mesmo que ele seja de fato o último homem, não é apenas um soldado perdido correndo e tentando permanecer vivo. Ele tem o comando, e o dever manda que ele faça o que deve ser feito. Se eu for para o último abraço da mãe, o dever será seu. Você encontrará a Trombeta e a levará para seu lugar de direito. Você o fará. — Havia uma ênfase peculiar nas últimas palavras de Ingtar.

O embrulho nos braços de Rand parecia pesar cinquenta quilos. Luz, ela podia estar a cem léguas de distância, mas ainda assim estendia a mão e puxava o cabresto. Para cá, Rand, para cá. Você é o Dragão Renascido, Rand.

— Eu não quero esse dever, Ingtar. Não vou aceitá-lo. Luz, sou apenas um pastor! Por que ninguém acredita nisso?

— Você cumprirá seu dever, Rand. Quando o homem no topo da cadeia fracassa, tudo abaixo dele desmorona. Já tem muita coisa desmoronando. Muita coisa. Que a paz favoreça sua espada, Rand al’Thor!

— Ingtar, eu…

Mas Ingtar já se afastava, chamando Uno para conferir se os batedores haviam sido despachados.