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Rand ficou olhando para o embrulho em seus braços e umedeceu os lábios. Tinha medo de descobrir o que havia ali dentro. Queria olhar, mas também queria jogá-lo numa fogueira sem abri-lo. Julgava ser capaz de fazê-lo, se tivesse certeza de que o embrulho queimaria sem que alguém visse o que havia ali dentro, se pudesse ter certeza de que aquilo queimaria mesmo. Mas não podia olhar ali, onde outros olhos além dos seus podiam espiar o conteúdo.

Observou disfarçadamente o restante do acampamento. Os shienaranos descarregavam os animais de carga, e outros já distribuíam um jantar frio de carne-seca e pão ázimo. Mat e Perrin cuidavam de seus cavalos, e Loial se encontrava sentado em uma pedra, lendo um livro, com seu cachimbo de cabo longo preso entre os dentes e soltando uma espiral de fumaça. Agarrando o embrulho como se tivesse medo de deixá-lo cair, Rand se esgueirou por entre as árvores.

Ele se ajoelhou em uma pequena clareira, protegida por galhos com folhagem espessa, e depositou o embrulho no chão. Por algum tempo, ficou apenas olhando fixamente para o pacote. Ela não teria feito isso. Não poderia. Uma vozinha respondeu: Ah, sim, poderia. Poderia e faria. Por fim, começou a desatar os pequenos nós nas cordas que prendiam o embrulho. Eram nós bem-feitos, atados com uma precisão que, por si só, era um elogio à mão de Moiraine. Nenhum serviçal fizera o trabalho por ela. Ela não ousaria deixar nenhum serviçal ver aquilo.

Depois de desatar o último nó, Rand revelou o que estava dobrado ali dentro com as mãos entorpecidas. Então, ficou olhando fixamente, com a boca cheia de pó. Era uma peça só, não fora costurada, tingida ou pintada. Um estandarte branco como a neve e grande o bastante para ser visto do outro lado de um campo de batalha. Por ele marchava uma figura ondulante, semelhante a uma serpente de escamas rubras e douradas. Uma serpente com quatro patas escamosas, cada qual com cinco garras douradas. Uma serpente com olhos que brilhavam como o sol e uma juba dourada de leão. Ele a vira uma vez, antes, e Moiraine lhe dissera o que era. O estandarte de Lews Therin Telamon, Lews Therin Fratricida, na Guerra da Sombra. O estandarte do Dragão.

— Olhe só para isso! Olhe o que ele tem agora! — Mat entrou na clareira de supetão. Perrin veio atrás, mais devagar. — Primeiro aqueles casacos chiques — exclamou Mat, ríspido — e agora um estandarte! Agora é que o ego dele não vai desinflar, com… — Mat se aproximou o suficiente para ver a bandeira com mais clareza, e ficou de queixo caído. — Luz! — Ele recuou um passo, cambaleando. — Que me queime! — Ele também estivera lá quando Moiraine disse o nome da bandeira. Assim como Perrin.

Uma raiva enorme começou a ferver dentro de Rand. Raiva de Moiraine e do Trono de Amyrlin, que o empurravam de um lado para outro. Ele agarrou o estandarte com as duas mãos e o sacudiu na cara de Mat, e as palavras saíram de sua boca sem controle.

— É isso mesmo! O estandarte do Dragão! — Mat deu mais um passo para trás. — Moiraine quer que eu seja uma marionete puxada pelos cordéis de Tar Valon, um falso Dragão para as Aes Sedai. Ela vai enfiar isso pela minha goela, independente da minha vontade. Mas… eu… não… serei… usado!

Mat recuou até dar com as costas em um tronco de árvore.

— Um falso Dragão? — Ele engoliu em seco. — Você? Isso… Isso é loucura.

Perrin não recuara. Ele se agachou, com os braços musculosos sobre os joelhos, e estudou Rand com aqueles olhos dourados e brilhantes. Nas sombras da noite, eles pareciam faiscar.

— Se as Aes Sedai querem que você seja um falso Dragão… — Ele hesitou, franzindo a testa e pensando com cuidado. Então falou baixinho: — Rand você consegue canalizar?

Mat ofegou.

Rand deixou o estandarte cair. Hesitou apenas por um momento antes de assentir, cansado.

— Eu não pedi isso. Eu não quero. Mas… Mas acho que não sei como impedir. — O aposento cheio de moscas voltou à sua mente, sem que ele desejasse. — Acho que elas não vão me deixar parar.

— Que me queime! — exclamou Mat, com um suspiro. — Sangue e malditas cinzas! Elas vão nos matar, vocês sabem. Todos nós. Perrin e eu iremos com você. Se Ingtar e os outros descobrirem, cortarão nossas malditas gargantas achando que somos Amigos das Trevas. Luz, provavelmente vão pensar que ajudamos no roubo da Trombeta e na morte daquelas pessoas em Fal Dara.

— Cale a boca, Mat — interrompeu Perrin, calmo.

— Não me mande calar a boca. Se Ingtar não nos matar, Rand vai enlouquecer e fazer isso por ele. Que me queime! Que me queime! — Mat deslizou as costas pela árvore, sentando-se no chão. — Por que elas não amansaram você? Se as Aes Sedai sabiam, por que não o amansaram? Nunca ouvi falar de alguma vez em que elas deixaram um homem que consegue usar o Poder sair andando livremente.

— Nem todas sabem — suspirou Rand. — A Amyrlin…

— O Trono de Amyrlin! Ela sabe? Luz, não é de admirar que tenha me olhado de um jeito tão estranho.

— … E Moiraine me disse que sou o Dragão Renascido, então elas falaram que eu estava livre para ir aonde quisesse. Você não vê, Mat? Elas estão tentando me usar.

— Isso não altera o fato de você ser capaz de canalizar — murmurou Mat. — Se eu fosse você, já estaria a meio caminho do Oceano de Aryth. E não pararia até encontrar um lugar onde não existam Aes Sedai, onde talvez elas nunca existam. Nem mais ninguém. Quer dizer… bem…

— Cale a boca, Mat — repetiu Perrin. — Por que você está aqui, Rand? Quanto mais tempo ficar ao redor das pessoas, maior será a chance de alguém descobrir e chamar as Aes Sedai. Aes Sedai que não lhe dirão para seguir com sua vida. — Ele fez uma pausa e coçou a cabeça, pensativo. — E Mat está certo quanto a Ingtar. Não duvido que ele fosse chamar você de Amigo das Trevas e matá-lo. Talvez matasse todos nós. Ele parece gostar de você, mas acho que o mataria mesmo assim. Um falso Dragão? Os outros também matariam. Masema não precisaria nem dessa desculpa para matá-lo. Então por que você ainda não foi embora?

Rand deu de ombros.

— Eu ia, mas a Amyrlin chegou, depois a Trombeta foi roubada, junto com a adaga, e Moiraine disse que Mat estava morrendo, e… Luz, pensei que podia ficar com vocês até encontrarmos a adaga, pelo menos. Pensei que podia ajudar com isso. Talvez estivesse errado.

— Você veio por causa da adaga? — perguntou Mat, em voz baixa. Ele esfregou o nariz e fez uma careta de desagrado. — Nunca pensei nisso. Nunca pensei que você quisesse… Aaaah! Você está se sentindo bem? Quer dizer, ainda não está ficando louco, está?

Rand pegou uma pedrinha do chão e jogou-a no rapaz.

— Ai! — Mat esfregou o braço. — Eu só estava perguntando. Quer dizer, todas essas roupas chiques e essa conversa sobre ser um lorde. Bom, isso não é coisa de gente que bate bem da cabeça.

— Eu estava tentando me livrar de vocês, idiota! Tive medo de ficar louco e machucar vocês. — Ele olhou para o estandarte, então abaixou a voz. — É o que vou acabar fazendo, se não parar. Luz, não sei como impedir isso.

— É disso que tenho medo — disse Mat, pondo-se de pé. — Sem ofensa, Rand, mas acho que vou dormir o mais longe possível de você, se não se importar. Isso se você continuar por aqui. Uma vez ouvi falar de um sujeito que conseguia canalizar. O guarda de um mercador me contou. Antes que as Vermelhas o encontrassem, ele acordou uma manhã e viu que toda a aldeia estava esmagada. Todas as casas, todas as pessoas, tudo, menos a cama em que dormia, como se uma montanha tivesse rolado por cima deles.

Perrin disse:

— Nesse caso, Mat, você deveria dormir bem coladinho nele.

— Eu posso ser um idiota, mas pretendo ser um idiota vivo. — Mat hesitou, olhando de esguelha para Rand. — Escute, sei que você veio para me ajudar e ico grato por isso. De verdade. Mas você não é mais o mesmo. Você entende, não entende?

Ele aguardou, como se esperasse uma resposta. Nenhuma veio. Por fim, desapareceu por entre as árvores, indo na direção do acampamento.