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Urros e gritos animados das multidões que se alinhavam nas ruas da cidade saudaram a procissão, praticamente abafando o trovão dos tamborileiros e a música dos trombeteiros. Guardiões lideravam a coluna, com o estandarte da Chama Branca ondulando, e montavam guarda ao redor das Aes Sedai, mantendo aquela multidão a distância. Arqueiros e piqueiros, com a Chama estampada nos peitos, seguiam atrás em fileiras bem organizadas. As trombetas se calaram quando a coluna saiu da cidade fazendo uma curva e virou para o sul, mas o som da multidão lá dentro ainda os acompanhava. Egwene olhava para trás a todo instante, até que as árvores e as colinas esconderam as muralhas e as torres de Fal Dara.

Nynaeve, que cavalgava ao seu lado, balançou a cabeça.

— Rand vai ficar bem. Ele está com Lorde Ingtar e mais vinte piqueiros. De qualquer modo, não há nada que você possa fazer a esse respeito. Nada que nenhuma de nós possa fazer. — Ela olhou na direção de Moiraine, a égua branca impecável da Aes Sedai e o grande garanhão negro de Lan formavam um par estranho. — Pelo menos, não por enquanto.

A coluna começava a seguir para oeste, e não avançava depressa. Mesmo os soldados da infantaria, com meia armadura, não conseguiam manter um passo rápido por entre as colinas de Shienar. Ainda assim, andavam o mais rápido que podiam.

Só montavam acampamento tarde da noite, pois a Amyrlin não permitia que parassem até que só restasse luz o suficiente para montar as tendas, cúpulas brancas de teto achatado com altura para apenas uma pessoa ficar de pé. Cada par de Aes Sedai das mesmas Ajah tinha uma, ao passo que a Amyrlin e a Curadora tinham tendas próprias. Moiraine dividia a tenda com suas duas irmãs Azuis. Os soldados dormiam no chão de seu próprio acampamento, e os Guardiões se enrolavam em seus mantos, perto das tendas das Aes Sedai a quem estavam vinculados. A tenda das irmãs Vermelhas parecia estranhamente solitária, sem nenhum Guardião, ao passo que a das Verdes parecia quase festiva, pois as duas Aes Sedai com frequência ficavam sentadas do lado de fora até bem depois de escurecer, conversando com os quatro Guardiões que haviam trazido.

Lan visitou uma vez a tenda que Egwene dividia com Nynaeve, levando a Sabedoria para um lugar não muito afastado. A menina espiou pela abertura da tenda. Não podia ouvir o que diziam, mas Nynaeve acabou explodindo de raiva e voltou pisando duro para se enrolar em seus cobertores, recusando-se a falar. Egwene achou que suas bochechas estavam molhadas, embora a mulher escondesse o rosto com uma ponta do cobertor. Lan ficou parado na escuridão, encarando a tenda por muito tempo antes de ir embora. Depois disso, não tornou a aparecer.

Moiraine não chegou perto delas, apenas as cumprimentava com a cabeça ao passar. Quando estava acordada, parecia estar sempre conversando com as outras Aes Sedai, todas, menos as irmãs Vermelhas, puxando-as de lado uma a uma enquanto cavalgavam. A Amyrlin permitiu poucas paradas para descansar, e costumavam ser curtas.

— Talvez ela não tenha mais tempo para nós — comentou Egwene, com tristeza. Moiraine era a única Aes Sedai que conhecia, e talvez, embora não quisesse admitir, a única na qual tinha certeza de que podia confiar. — Ela nos encontrou, e estamos a caminho de Tar Valon. Suponho que tenha outras coisas com que se preocupar agora.

Nynaeve fungou baixinho, desdenhosa.

— Acredito que ela só vai acabar de nos usar quando estiver morta… ou quando nós estivermos mortas. Aquela ali é ardilosa.

Outras Aes Sedai visitaram a tenda. Egwene quase morreu de susto naquela primeira noite fora de Fal Dara, quando a dobra da tenda se abriu e uma Aes Sedai rechonchuda, de rosto quadrado, com os cabelos começando a ficar grisalhos e uma expressão vagamente distraída nos olhos escuros abaixou-se para entrar. Ela olhou para o lampião pendurado no ponto mais alto da tenda e a chama aumentou um pouco. Egwene pensou ter sentido alguma coisa, quase tinha visto algo de diferente na Aes Sedai quando a chama começou a brilhar mais forte. Moiraine lhe dissera que um dia, quando tivesse mais treinamento, Egwene seria capaz de ver quando outra mulher canalizasse e de saber quando uma mulher podia canalizar, mesmo sem que ela o fizesse.

— Sou Verin Mathwin — apresentou-se a mulher, com um sorriso. — E vocês são Egwene al’Vere e Nynaeve al’Meara. De Dois Rios, que um dia foi Manetheren. Sangue forte, esse. Ele canta.

Egwene trocou um olhar com Nynaeve quando as duas se levantaram.

— Isto é uma convocação para o Trono de Amyrlin? — perguntou Egwene.

Verin deu uma gargalhada. A Aes Sedai tinha uma mancha de tinta no nariz.

— Nossa, não! A Amyrlin tem coisas mais importantes a fazer do que lidar com duas jovens que sequer são noviças. Mas nunca se sabe. Vocês duas têm um potencial considerável. Especialmente você, Nynaeve. Um dia… — Ela fez uma pausa, pensativa, esfregando um dedo bem na mancha. — Mas o dia não é hoje. Estou aqui para lhe dar uma aula, Egwene. Receio que você tenha tentado acelerar as coisas.

Nervosa, Egwene olhou para Nynaeve.

— O que eu fiz? Nada, que eu saiba!

— Ah, nada de errado. Não exatamente. Um pouco perigoso, talvez, mas não é exatamente errado. — Verin se abaixou até o piso de lona, sentando e cruzando as pernas. — Sentem-se, vocês duas. Sentem-se. Não quero ficar entortando o pescoço. — Ela se mexeu até encontrar uma posição confortável. — Sentem-se.

Egwene se sentou de pernas cruzadas em frente à Aes Sedai e fez o melhor que pôde para não olhar para Nynaeve. Não preciso parecer culpada até saber se sou. E talvez não precise, mesmo assim.

— O que fiz que é perigoso, mas não exatamente errado?

— Ora, você tem canalizado o Poder, criança.

Egwene só conseguiu ficar boquiaberta. Nynaeve explodiu:

— Isso é ridículo. Por que estamos indo para Tar Valon então? Não é para isso?

— Moiraine me… Quer dizer, Moiraine Sedai me deu algumas aulas — conseguiu responder Egwene.

Verin ergueu as mãos pedindo silêncio, e elas se calaram. Podia soar distraída, mas era uma Aes Sedai, afinal.

— Criança, você acha que as Aes Sedai ensinam a qualquer garota que diz que quer ser uma de nós? Bem, suponho que você não seja exatamente qualquer garota, mas ainda assim… — Ela sacudiu a cabeça, séria.

— Então por que ela fez isso? — exigiu saber Nynaeve.

Ela não recebera aulas, e Egwene ainda não tinha certeza de que isso havia irritado a Sabedoria ou não.

— Porque Egwene já tinha canalizado — respondeu Verin, paciente.

— Mas eu… Mas eu também. — Nynaeve não parecia feliz ao dizer isso.

— Suas circunstâncias são diferentes, criança. O fato de que você ainda está viva mostra que superou diversas crises e que fez isso sozinha. Acho que sabe a sorte que tem. De cada quatro mulheres forçadas a fazer o que você fez, apenas uma sobrevive. É claro que as bravias… — Verin fez uma careta de desagrado. — Perdão, mas receio que seja assim que nós, na Torre Branca, chamamos as mulheres que, mesmo sem nenhum treinamento, conseguiram ter um pouco de controle. É aleatório e tão fraco que mal pode ser chamado de controle, em geral, como o seu, mas ainda assim é um tipo de controle. As bravias têm dificuldades, é verdade. Quase sempre construíram muros para evitar saber o que faziam, e esses muros interferem no controle consciente. Quanto mais tempo esses muros levarem para ser construídos, mais di ícil será derrubá-los. Mas se puderem ser demolidos… bem, algumas das irmãs mais competentes eram bravias.

Nynaeve mudou de posição, irritada, e olhou para a entrada como se pensasse em ir embora.

— Não entendo o que isso tudo tem a ver comigo — disse Egwene.